Diversos tipos de neoplasias, historicamente mais ligados a indivíduos mais velhos, têm sido diagnosticados com maior frequência em adultos jovens em diferentes nações. Este fenômeno é notório em tumores como o colorretal e o de mama, embora não signifique que todos os cânceres estejam crescendo nesta faixa etária.
A causa deste aumento não parece residir em um único elemento. Pesquisadores estão investigando uma combinação de fatores, incluindo predisposição individual, condições metabólicas, hábitos de vida, exposições ambientais e elementos que podem influenciar desde estágios iniciais da vida.
Na área científica, o termo «câncer de início precoce» refere-se a tumores detectados antes dos 50 anos, embora os estudos utilizem diversas classificações etárias. Uma análise extensa sobre o assunto foi divulgada em 2025 por cientistas do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos (NCI), que examinaram 33 categorias de câncer.
Este estudo revelou que a incidência de 14 tipos de câncer aumentou em pelo menos uma das faixas etárias abaixo dos 50 anos entre 2010 e 2019. Paralelamente, 19 tipos mostraram redução entre os jovens. Ao considerar todos os cânceres conjuntamente, a taxa geral de incidência não subiu entre pessoas com menos de 50 anos, e a mortalidade por todos os cânceres também não demonstrou crescimento nas faixas etárias jovens analisadas.
Nos Estados Unidos, os maiores incrementos absolutos de casos de início precoce foram observados no câncer de mama feminino, colorretal, renal e uterino. Em 2019, os pesquisadores estimaram aproximadamente 4.834 casos extras de câncer de mama, 2.099 de colorretal, 1.793 de rim e 1.209 de útero, comparado ao número previsto se as taxas de 2010 permanecessem constantes.
O estudo também identificou elevação no melanoma, câncer de colo do útero, estômago, mieloma e tumores ósseos e articulares em pelo menos uma faixa etária jovem. Nove dos 14 tipos que cresceram entre os jovens também apresentaram aumento em algum grupo etário mais avançado.
Cinco outros — melanoma, câncer de colo do útero, estômago, mieloma e câncer de ossos e articulações — tiveram crescimento em alguma fase jovem, mas não nos grupos mais velhos estudados. De acordo com os pesquisadores do NCI, as razões são provavelmente específicas para cada tipo de câncer, podendo envolver fatores de risco mais comuns em idades mais novas, modificações no rastreio ou na detecção, ou alterações na classificação diagnóstica.
Entre os tumores destacados, o câncer colorretal é considerado o exemplo mais coerente de elevação em adultos jovens. Uma investigação publicada no The Lancet Oncology analisou dados de 50 países e territórios e constatou um aumento na incidência entre indivíduos de 25 a 49 anos em 27 deles.
Em 20 desses locais, o crescimento juvenil foi exclusivo dessa faixa etária ou ocorreu em ritmo superior ao dos adultos mais velhos. Em 23 dos 50 países e territórios, a tendência recente manteve-se estável.
Maria Ignez Braghiroli, oncologista especializada em câncer colorretal da Oncologia D’Or de São Paulo, comenta que «o câncer colorretal é provavelmente um dos exemplos mais bem documentados desse aumento de câncer entre adultos jovens». Historicamente, a doença é muito mais comum após os 50 anos, mas ela aponta para uma alteração na curva dos jovens: «o risco absoluto continua sendo maior em pessoas mais velhas, e o número total de casos também é maior nessa população. O que chama a atenção nos jovens é a mudança da curva e a velocidade do crescimento.»
O padrão entre diferentes gerações também chamou a atenção dos pesquisadores. Um estudo no JNCI Cancer Spectrum, usando dados de 35 países, encontrou sinais de efeito de coorte de nascimento em várias populações. Quando pessoas nascidas em décadas distintas exibem riscos variados ao atingir a mesma idade, os pesquisadores podem investigar se alguma característica da vivência dessas gerações — como dieta, condições metabólicas ou exposições ambientais — afetou o risco ao longo da vida.
O efeito de coorte, por si só, não determina qual exposição é responsável. Ele apenas sinaliza que as disparidades entre gerações podem estar ligadas a algo que mudou na trajetória de vida dessas populações.
Fatores associados ao câncer colorretal incluem histórico familiar e síndromes hereditárias, além de obesidade, desequilíbrios metabólicos, ingestão de álcool e certos padrões alimentares. Pesquisas também indicam ligações com sedentarismo e outros aspectos do estilo de vida.
A obesidade é uma das associações examinadas. Em um estudo com mais de 85 mil mulheres, aquelas obesas apresentaram quase o dobro do risco de desenvolver câncer colorretal antes dos 50 anos em comparação com mulheres de peso adequado. Embora o estudo tenha identificado uma correlação entre excesso de peso e risco, ele não permite concluir que a obesidade seja, isoladamente, a causa do aumento populacional do câncer colorretal precoce.
A nutrição também figura nas pesquisas. Maria Ignez Braghiroli cita estudos que conectam dietas pobres em fibras e com alta presença de alimentos ultraprocessados, carnes processadas e refrigerantes açucarados ao risco de câncer colorretal. Ela também menciona pesquisas que acharam ligação entre o consumo de bebidas adoçadas na adolescência e maior risco futuro da doença.
Contudo, a médica enfatiza que não é possível criar uma explicação única para esses fatores. «Esses fatores explicam apenas parte do fenômeno», declara. Ela acrescenta que pacientes jovens, ativos fisicamente, sem obesidade, histórico familiar ou síndrome genética conhecida, também contraem a doença. «Portanto, provavelmente estamos diante de uma combinação de exposições.»
As possibilidades sob investigação englobam metabolismo, microbioma intestinal, uso de certos fármacos, exposições ambientais e fatores que podem começar a agir muito cedo na vida.
Uma hipótese que ganhou força é a de que certas exposições cruciais para o desenvolvimento do câncer ocorrem durante a infância ou adolescência, muito antes do surgimento dos primeiros sintomas.
No câncer colorretal, estudos ligaram o excesso de peso no final da adolescência ou início da vida adulta a um risco posterior elevado. Também foram encontradas conexões entre maior consumo de bebidas açucaradas na adolescência e câncer colorretal antes dos 50 anos.
Tais achados não comprovam, isoladamente, que uma exposição específica seja responsável pelo aumento dos casos. Eles auxiliam, no entanto, a apontar períodos da vida que podem ser cruciais para a formação do risco.
O microbioma intestinal é uma das áreas mais recentes desta pesquisa. Certas cepas de Escherichia coli presentes no intestino produzem colibactina, uma substância capaz de causar danos ao DNA.
Em um estudo divulgado em 2025 na Nature, pesquisadores analisaram 981 genomas de tumores colorretais de 11 países, incluindo o Brasil. As marcas mutacionais ligadas à colibactina foram 3,3 vezes mais frequentes em tumores diagnosticados antes dos 40 anos do que naqueles diagnosticados após os 70.
Este resultado oferece uma pista particularmente relevante, pois não se restringe a uma correlação estatística entre um comportamento e o câncer. Os cientistas localizaram no genoma dos tumores uma marca compatível com um processo mutagênico específico.
O trabalho sugere que a exposição a bactérias produtoras de colibactina no início da vida pode contribuir para a incidência de câncer colorretal de início precoce, mas não prova que essa exposição seja, sozinha, responsável pelo crescimento dos casos.
Existe uma distinção importante: o estudo analisou tumores de pessoas que já tinham câncer e identificou marcas compatíveis com processos mutagênicos específicos. Ele não acompanhou indivíduos desde a infância para comprovar quando ocorreu a exposição às bactérias produtoras de colibactina.
Dessa forma, a teoria de uma exposição precoce é sustentada por evidências moleculares, mas ainda não configura uma explicação completa para a tendência epidemiológica. Para Braghiroli, esta possibilidade levanta uma questão ainda em investigação:
«Uma das grandes perguntas atuais é justamente se o câncer que diagnosticamos aos 35 ou 40 anos começou biologicamente muito antes do que imaginávamos.»
A pesquisa ainda precisa definir quais exposições poderiam gerar tal alteração, em que momento da vida elas seriam mais impactantes e como os diversos fatores podem interagir.
O câncer de mama feminino é outro tumor que consta entre aqueles com aumento de incidência em certas faixas etárias jovens. No estudo do NCI, foi o câncer que registrou o maior aumento absoluto estimado entre os casos de início precoce nos Estados Unidos, com cerca de 4.834 casos adicionais em 2019, em contraste com o número esperado baseado nas taxas de 2010.
Existem também evidências brasileiras. Um estudo publicado em 2026 na Revista Brasileira de Cancerologia analisou a incidência de câncer entre pessoas de 20 a 39 anos em duas áreas do estado de São Paulo: o município de São Paulo e a região de Barretos. A pesquisa avaliou dados de incidência de 2002 a 2018 e de mortalidade de 2000 a 2020.
Os resultados diferiram entre as duas localidades. Em Barretos, houve um aumento expressivo na incidência de câncer de mama em mulheres de 20 a 39 anos, com variação percentual anual de 5,91%, e de câncer de colo do útero, de 8,96%. Entre homens, a incidência de câncer colorretal cresceu 5,75% anualmente. Em São Paulo, a incidência de câncer de mama subiu 0,5% ao ano, enquanto o colorretal se manteve estável entre homens e mulheres.
Os dados demonstram que não se pode afirmar um aumento generalizado de câncer em adultos jovens em todo o Brasil. O estudo foi conduzido em dois locais específicos e revelou padrões distintos entre eles. Os resultados sugerem tendências para certos tumores que merecem investigação, mas não podem ser aplicados diretamente a todo o país.
No caso do câncer de mama, uma explicação baseada unicamente no aumento do rastreamento também possui limitações. Laura Testa, médica especialista em câncer de mama da Oncologia D’Or de São Paulo, afirma: «A gente já tem vários dados mostrando o aumento da incidência nas mulheres jovens». Estudos de diversos centros brasileiros identificaram elevação tanto em mulheres de 40 a 50 anos quanto em aquelas com menos de 40.
A faixa etária abaixo dos 40 anos não é contemplada pelo rastreamento mamográfico populacional. No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda mamografia a cada dois anos para mulheres de 50 a 74 anos. Mulheres entre 40 e 49 anos podem fazer o exame mediante solicitação, após receber orientações sobre benefícios e riscos, mas essa faixa não integra o programa de rastreamento populacional sistemático.
Por isso, a expansão do acesso à mamografia para mulheres de 40 a 49 anos, por si só, não parece ser suficiente para justificar tendências passadas ou o aumento visto em mulheres abaixo dos 40 anos.
O câncer de mama possui fatores de risco conhecidos, como características reprodutivas, obesidade, sedentarismo e consumo de álcool. No entanto, a força dessas associações varia conforme a idade. Testa esclarece que obesidade e sedentarismo são fatores de risco bem estabelecidos para câncer de mama, principalmente após a menopausa. Para as pacientes mais jovens, contudo, não há tanta clareza sobre o quanto esses fatores contribuem especificamente para o aumento observado nesta faixa etária. O álcool, por outro lado, apresenta uma ligação mais firme.
O consumo de álcool eleva o risco de câncer de mama em todas as idades; quanto maior o consumo, maior o perigo.
