A Anthropic, criadora do chatbot Claude, planeja igualar ou até exceder o montante do IPO recorde da SpaceX, o que poderia configurar a maior oferta pública inicial de ações na história dos Estados Unidos.
De acordo com reportagens da Bloomberg, a empresa está realizando os cálculos necessários enquanto intensifica os preparativos para disponibilizar publicamente os documentos referentes à sua provável abertura de capital, com um registro previsto até o final de agosto.
Durante encontros recentes com investidores, liderados pelo diretor financeiro da Anthropic, Krishna Rao, a companhia optou por não divulgar sua avaliação de mercado, visto que as negociações ainda estão em curso e o tamanho da oferta pode sofrer alterações.
Contexto do Recorde da SpaceX
A SpaceX, empresa de satélites e foguetes pertencente a Elon Musk, estabeleceu um precedente ao levantar US$ 75 bilhões (equivalente a cerca de R$ 389 bilhões) em seu IPO, tornando-se a maior oferta inicial de ações da história. O valor final alcançado foi de US$ 86,2 bilhões (aproximadamente R$ 447 bilhões) após a execução da opção de lote suplementar, conhecida como overallotment.
Caso a Anthropic consiga ultrapassar este patamar, ela estabeleceria um novo recorde, aproveitando o atual grande interesse dos investidores por companhias ligadas à inteligência artificial (IA).
Apesar do crescimento, a empresa continua enfrentando custos elevados inerentes ao desenvolvimento de modelos de IA progressivamente mais sofisticados.
A Anthropic registrou lucro operacional ajustado no segundo trimestre, contudo, apurou um prejuízo líquido de quase US$ 42 bilhões (cerca de R$ 218 bilhões) em 2025. Este valor é aproximadamente cinco vezes maior que os US$ 8,3 bilhões (R$ 43,1 bilhões) registrados no ano anterior, conforme documentos analisados pela Bloomberg.
O desenvolvimento desses chamados modelos de fronteira demanda uma capacidade computacional imensa, o que constitui uma das maiores despesas tanto para a Anthropic quanto para seus competidores.
Em um acordo firmado com operadoras de centros de dados, a Anthropic selou um contrato com a SpaceX para garantir recursos computacionais que podem somar dezenas de bilhões de dólares ao longo dos próximos três anos.
A necessidade de expandir sua infraestrutura computacional justifica o volume de capital que a Anthropic tem buscado arrecadar. Além disso, a companhia está prestes a finalizar uma linha de crédito rotativa superior a US$ 10 bilhões (cerca de R$ 51,9 bilhões), um montante que excede a meta inicialmente estipulada.
Estrutura do IPO e Concorrência
Para estruturar o IPO, a Anthropic está colaborando com Morgan Stanley, Goldman Sachs e JPMorgan Chase, embora outros bancos possam ser incorporados à operação.
A empresa também está considerando a adoção de ações com superdireitos de voto. Essa estrutura concederia maior poder decisório ao CEO Dario Amodei, que detém cerca de 2% da empresa, assim como aos demais cofundadores, após a conclusão da abertura de capital. Essa possibilidade havia sido previamente noticiada pelo portal The Information.
Adicionalmente, a Anthropic deve entrar no mercado de ações antes da OpenAI. Segundo a Bloomberg, a concorrente adiou sua listagem para 2027. Ambas as empresas já submeteram confidencialmente os documentos necessários para suas respectivas ofertas.
Uma oferta superior à da SpaceX contribuiria para consolidar 2026 como o ano mais promissor da história para IPOs nos Estados Unidos.
Até 19 de agosto, as empresas que realizaram abertura de capital no país já haviam captado US$ 160,6 bilhões (cerca de R$ 834,5 bilhões), aproximando-se do recorde de US$ 195,2 bilhões (aproximadamente R$ 1,01 trilhão) registrado em 2021.
O ano já contou com duas das maiores listagens da história, incluindo a da fabricante sul-coreana de chips SK Hynix, que levantou US$ 26,5 bilhões (cerca de R$ 137,5 bilhões) em sua oferta inicial de recibos de depósito americanos (ADRs).
Mudanças na Política de Dados de Clientes
Enquanto avança nos preparativos para o IPO, a Anthropic também está planejando uma modificação significativa na gestão dos dados de seus clientes corporativos.
Conforme relatado por uma fonte próxima ao assunto, ouvida pela Reuters, a companhia pretende oferecer às empresas maior controle sobre seus dados durante o uso de seus modelos avançados de IA. Esta alteração implica uma mudança na política atual de retenção de dados da empresa e está primariamente ligada a questões de segurança e privacidade.
Com as novas diretrizes em preparação, os clientes empresariais ainda precisarão manter os dados por 30 dias, mas ganharão a opção de hospedá-los em sua própria infraestrutura de computação em nuvem. Essa proposta está em desenvolvimento há vários meses, e a Anthropic está trabalhando com mais de 100 clientes, incluindo a Salesforce, para criar este novo sistema. A companhia também deve lançar um novo sistema de segurança ainda neste ano, segundo a fonte.
Esta mudança contrasta com a política comunicada pela Anthropic em junho, quando a empresa exigiu a retenção de 30 dias de todo o tráfego de clientes corporativos nos modelos mais avançados Fable e Mythos, bem como em futuros modelos de fronteira. A justificativa então era a proteção dos sistemas contra potenciais ataques cibernéticos utilizando a tecnologia da Anthropic. A nova sugestão mantém o prazo de 30 dias, mas concede às empresas maior autonomia sobre o local de armazenamento dos dados.
Essa transição ocorre em um cenário de competição intensa entre as principais empresas de IA pelo mercado corporativo. Na quarta-feira (19), a rival OpenAI anunciou um sistema de segurança que impede a retenção de dados dos clientes, ao mesmo tempo que possibilita a identificação de usos indevidos de sua tecnologia.
Dessa forma, a Anthropic se posiciona simultaneamente para um possível IPO de proporções históricas e para uma reformulação na administração de dados de clientes empresariais — dois movimentos que podem impactar sua posição na disputa pelo setor de IA.
