Colisão de foguete da SpaceX com a Lua levanta preocupações sobre a transformação do satélite em um lixão de lixo espacial
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Colisão de foguete da SpaceX com a Lua levanta preocupações sobre a transformação do satélite em um lixão de lixo espacial

De acordo com um comunicado do Olhar Digital, o estágio superior do foguete Falcon 9 da SpaceX colidiu com a Lua em 5 de agosto, deixando uma nova marca na superfície lunar. A colisão ocorreu perto da cratera Einstein e foi registrada pelo sonda sul-coreana Danuri. Um objeto com cerca de 4 toneladas levantou uma grande nuvem de poeira composta por regolito, o material que cobre o solo lunar.

Este incidente adicionou mais um objeto de origem terrestre à superfície do nosso satélite natural. Estima-se que já foram dispersos na Lua cerca de 3 mil objetos produzidos pela humanidade. Especialistas acreditam que o crescimento da exploração espacial torna cada vez mais necessária a criação de regras para a preservação do ambiente lunar.

Desde o início da era espacial, cerca de 200 toneladas de materiais terrestres foram deixadas intencional ou acidentalmente na Lua. Entre esses objetos estão os módulos de pouso de seis missões Apollo, os robôs Lunokhod soviéticos enviados na década de 1970 e os aparelhos chineses Yutu 1 e Yutu 2, que exploraram o satélite na década de 2010.

No entanto, o histórico de intervenções humanas no ambiente lunar começou antes mesmo do envio das sondas. Como explicou Gabriel Hickel, doutor em astrofísica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), professor da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) e pesquisador do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), existe uma fina atmosfera expandida entre a Terra e a Lua, que facilita a troca de partículas. O especialista relatou ao Olhar Digital: «Durante o século XX, durante testes nucleares abertos, contaminamos a superfície da Lua com partículas radioativas».

Hickel enfatiza que desde o primeiro impacto causado pelo homem, quando a sonda soviética Luna II atingiu a Lua em 1959, foram registrados 104 casos em que artefatos humanos foram deixados ou colidiram com o solo lunar. Ele alerta: «A queda do segundo estágio do Falcon 9 foi o primeiro caso conhecido envolvendo um estágio de foguete que entregou carga útil à superfície da Lua. Como esses estágios são descartáveis e as missões serão intensificadas, é necessária reflexão e cautela».

O astrônomo e historiador espacial Jonathan McDowell explicou ao site Space.com que muitos estágios de foguetes e outros objetos deixados em órbita entre a Terra e a Lua desde as primeiras missões lunares na década de 1960 podem ter caído na superfície lunar justamente devido à atração gravitacional.

Um exemplo ocorreu quatro anos antes da colisão do Falcon 9, quando parte do foguete chinês Long March 3C colidiu com o lado escuro da Lua. Tais incidentes podem se tornar mais frequentes à medida que o número de missões ao satélite aumenta por parte de governos e empresas privadas.

Na opinião de McDowell, a exploração lunar está passando por um período de transição. Por décadas, as missões foram realizadas predominantemente pelos EUA e pela União Soviética. Recentemente, outros países começaram a enviar sondas e módulos de pouso, e empresas privadas também passaram a participar desse processo.

O problema é que o aumento da atividade não foi acompanhado pela criação de regras internacionais específicas. Atualmente, não existe um sistema abrangente para coordenar operações, definir locais de descarte ou estabelecer procedimentos para lidar com objetos abandonados na Lua.

A atividade lunar é regulamentada pelo Tratado do Espaço, adotado pelas Nações Unidas (ONU) em 1967. Este documento exige evitar a poluição prejudicial na exploração espacial, mas não define claramente quando a alteração do ambiente lunar é considerada prejudicial.

Para Marieta Valdivia Lefort, analista de política da Royal Astronomical Society do Reino Unido, a ausência de regulamentação específica significa que não há restrições ao número de objetos deixados no satélite nem requisitos para a remoção de materiais descartados.

O engenheiro civil e astrofotógrafo Conrad Serodio destaca que a ausência de mecanismos naturais de limpeza na Lua torna o acúmulo de resíduos um problema constante. Ele explica: «Ao contrário da Terra, onde a erosão, o ciclo da água ou os processos atmosféricos reincorporam ou apagam a poluição com o tempo, na Lua não existem tais ciclos naturais». Ele acrescenta: «Qualquer resíduo ou artefato deixado lá será apagado em milhões ou bilhões de anos apenas pela ação do vento, luz solar e queda de micrometeoritos».

A preocupação não se limita apenas à quantidade de equipamentos espalhados. A Lua tem uma área de cerca de 38 milhões de quilômetros quadrados, mas sua gravidade é de apenas 17% da terrestre. Portanto, a poeira levantada durante a colisão pode percorrer grandes distâncias antes de retornar à superfície.

Esse comportamento significa que a colisão não é necessariamente um problema limitado ao ponto de impacto. A nuvem de partículas pode alcançar áreas remotas e, no futuro, interferir em instrumentos científicos, veículos e instalações construídas na superfície lunar.

Hickel observa que os restos da colisão podem até entrar em órbita lunar e permanecer lá por meses ou anos. Do ponto de vista da segurança para futuras missões, o risco é alto. «Um grão de poeira com apenas 0,1 grama, em uma velocidade relativa típica da nave de cerca de 40 mil km/h, carrega o dobro de energia de um projétil disparado de rifle».

Por essa razão, o pesquisador indica que as primeiras bases tripuladas na Lua provavelmente serão localizadas sob a superfície ou em cavernas naturais, protegendo os assentamentos não apenas contra lixo espacial, mas também contra bombardeios constantes de partículas naturais.

O risco será ainda maior se a presença humana no satélite se tornar permanente. Bases, equipamentos científicos e outras estruturas podem permanecer na Lua por longos períodos. Nesse cenário, colisões de estágios de foguetes podem espalhar poeira pelas instalações e colocar observações em risco.

Há também uma preocupação relacionada às pesquisas científicas. Colisões naturais com meteoroides fazem parte da história geológica da Lua e ajudam os pesquisadores a estudar a evolução do Sistema Solar. No entanto, colisões causadas por equipamentos humanos adicionam alterações artificiais a esta crônica.

Os materiais terrestres também podem alterar as características físicas e químicas do solo. Em áreas de interesse científico, novas colisões podem destruir, cobrir ou dificultar a identificação de evidências ainda não estudadas.

Apesar do aviso, Serodio avalia que os cientistas ainda podem distinguir bem o solo natural de possíveis contaminações humanas, pois o perfil químico de ligas e componentes espaciais é bem conhecido. No entanto, ele reflete sobre o futuro: «Atualmente, a mudança é insignificante em comparação com a escala da Lua, mas é extremamente importante estabelecer zonas de preservação na superfície lunar antes que a exploração se intensifique, garantindo a integridade dos locais para estudos e pesquisas que nem sequer imaginamos hoje».

O especialista em direito espacial Gregory Radisic, da University of Bond na Austrália, acredita que a colisão do Falcon 9 ocorreu em um momento oportuno, pois pode estimular debates sobre comportamento responsável no espaço antes que a Lua se torne mais movimentada. Ele afirmou: «Não foi resultado de um bom planejamento, não atingiu nada importante. Foi pura sorte estarmos discutindo problemas teóricos depois, e isso não destruiu um experimento multimilionário ou um local importante de pesquisa científica».

O estágio Falcon 9 foi deixado em uma trajetória orbital de alta altitude ao redor da Terra em janeiro de 2025, depois de ajudar a enviar os módulos Blue Ghost da Firefly Aerospace e Resilience da empresa japonesa ispace à Lua. Segundo McDowell, a posição do estágio levou sua trajetória a sofrer influências repetidas da gravidade lunar. Essas perturbações mudaram gradualmente sua órbita, levando à trajetória de colisão com a superfície.

Objetos localizados na região intermediária entre a Terra e a Lua podem ter trajetórias difíceis de prever. Pequenas mudanças gravitacionais se acumulam com o tempo, aumentando a incerteza sobre o caminho percorrido pelo objeto.

Diante deste cenário imprevisível, os especialistas apontam que o descarte de partes descartáveis deve ser repensado. Para Hickel, soluções tradicionais, como lançar estágios para o «espaço profundo», não eliminam completamente os riscos de longo prazo, pois esses objetos continuam sujeitos a perturbações gravitacionais e podem eventualmente retornar. O astrofísico defende: «Colisões não programadas devem ser evitadas a todo custo, com a introdução de regras rigorosas e responsabilidade legal para países e empresas. Uma das alternativas mais adequadas para o descarte responsável desses estágios é direcioná-los ao Sol».

O caso do Falcon 9 reforça a questão que ganhará importância central com a expansão da exploração lunar: como avançar nas missões sem transformar a Lua em um lixão de lixo espacial.

Como conclui Serodio, a exploração faz parte do nosso DNA, mas o gerenciamento de resíduos deve mudar. «Não podemos e não devemos negar nossa natureza. Portanto, assim como na Terra, precisamos encontrar soluções para combater o lixo produzido por nossa existência. O primeiro passo é não produzir resíduos na superfície lunar além do necessário. Isso começa com missões bem planejadas, criação de zonas protegidas e regras rígidas de descarte».

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