Milhões de pessoas realizam a difícil subida a Kedarnath todos os anos. Este ano, o ativista ambiental Pradip Sangwan pede aos peregrinos que levem consigo algo mais do que memórias — um quilo de lixo.
O fundador da organização sem fins lucrativos Healing Himalayas, que há anos trabalha na limpeza das trilhas de trekking nos Himalaias indianos, acredita que uma simples mudança de comportamento pode transformar um dos corredores de peregrinação mais movimentados da Índia.
No âmbito da campanha chamada #CarryMeBack, Sangwan apela a todos os peregrinos que se dirigem a Kedarnath, pedindo que recolham e tragam de volta pelo menos um quilo de resíduos no caminho de regresso.
A matemática da ideia
Se cem mil peregrinos levarem um quilo cada, isso totalizará 100 toneladas de lixo removido das montanhas. Sangwan partilhou esta visão nas redes sociais, observando que após quarenta dias de peregrinação a Kedarnath, foram registados dez milhões de visitantes, superando todos os recordes anteriores. Ele salientou que o objetivo da campanha é recolher um quilo de resíduo por yatri, o que equivale a 100 toneladas.
A campanha é monitorizada em formato digital, permitindo que voluntários registem a participação e meçam o impacto em tempo real. Esta iniciativa encontrou eco na região, onde a gestão de resíduos continua a ser um dos problemas mais sérios do turismo de massas.
Quando a peregrinação deixa uma marca
À medida que o número de visitantes aumenta, o volume de garrafas plásticas descartadas, embalagens de alimentos, capas de chuva, recipientes de vidro e outros resíduos gerados ao longo da rota aumenta anualmente. Fotografias deste corredor de peregrinação em anos anteriores mostravam acúmulos de lixo perto de acampamentos e locais de descanso, indicando a pressão sobre a paisagem ecologicamente sensível.
Sangwan observou pessoalmente este problema durante mais de dez anos. Ele relatou à Outlook Traveller que as suas visitas à região lhe causavam irritação e tristeza devido aos aterros sanitários que estragavam locais conhecidos de trekking. Em vez de esperar por uma solução, ele começou a recolher lixo sozinho. Amigos e familiares juntaram-se a ele nas limpezas.
O que começou como um esforço pessoal transformou-se gradualmente num movimento. Em 2016, ele fundou a Fundação Healing Himalayas, que hoje realiza ações de limpeza, auditoria de resíduos, campanhas de sensibilização e iniciativas de gestão de resíduos em áreas montanhosas. No entanto, apesar de anos de recolha de lixo, Sangwan percebeu que apenas a limpeza não era suficiente para resolver o problema; ele está convencido de que a solução reside na participação.
Transformar peregrinos em parceiros
A campanha transforma cada viajante numa parte da solução. Sangwan enfatizou repetidamente que os participantes não precisam transportar grandes volumes de lixo; mesmo alguns centenas de gramas podem fazer diferença quando multiplicados por centenas de milhares de visitantes. Ele explicou online que o objetivo da campanha é recolher de 250 gramas a 5 kg dos yatris e peregrinos.
Esta ideia transforma a preocupação passiva em ação prática. Uma garrafa de plástico recolhida durante uma caminhada pode parecer insignificante, mas quando milhares de pessoas fazem o mesmo, o efeito cumulativo torna-se significativo. Apenas dez dias após ganhar ritmo na campanha, relata-se que centenas de viajantes ajudaram a remover mais de 1000 quilos de lixo da rota de Kedarnath. Estes resultados iniciais deram uma ideia do que a ação coletiva pode alcançar na época de peregrinação com um enorme fluxo de pessoas.
No entanto, para Sangwan, levar o lixo é apenas uma parte de uma conversa mais ampla. Recentemente, ele chamou a atenção para a presença de quase uma tonelada de garrafas de vidro descartadas em Kedarnath e questionou como tal material chega às regiões de alta montanha. Ele apelou para «levá-lo de volta se for consumido», acrescentando que a sua equipa está a auditar marcas para uma melhor compreensão dos fluxos de resíduos na área.
Ele também apelou repetidamente para que se dê maior atenção à minimização de resíduos na fonte, sistemas de separação, infraestrutura e disposição científica. Sangwan observou: «Estamos a fazer uma análise pós-morte, recolhendo-a. Mas a questão é como controlamos isto antes das montanhas?» Na sua opinião, a gestão eficaz de resíduos nas montanhas baseia-se em quatro pilares: minimização, separação e infraestrutura na fonte, participação pública e cadeias de abastecimento reversas, que garantem o transporte responsável e a reciclagem de resíduos. A campanha Carry Me Back encaixa-se nesta estrutura mais ampla, resolvendo o problema da falta de participação.
As auditorias de resíduos da Healing Himalayas mostram a escala do material que já está a ser extraído e reciclado. Somente em Kedarnath, a organização anunciou recentemente a reciclagem de 25 toneladas de material separado e embalado na sua instalação de recuperação de materiais. O lixo incluía plástico multicamadas, garrafas PET, cartão, tecido, sacos de ráfia, polietileno de alta densidade, pratos de papel, capas de chuva e outros itens descartados.
Além disso, Sangwan notou que mais de 5,5 toneladas deste material foram fornecidas especificamente graças à iniciativa Carry Me Back. É importante notar que a importância da campanha vai além dos números, pois ela reformula a peregrinação como um ato de cuidado.
