A reportagem relembra o cenário da internet em 1994, quando a jornalista Fátima Cardoso destacava a variedade de conteúdos da World Wide Web, uma tecnologia que era nova no Brasil e acessível apenas a poucos cientistas. Embora a rede mundial de computadores existisse desde 1969, a web surgiu décadas depois.
Cardoso descreveu que, antes da web, encontrar arquivos exigia conhecimento prévio do nome do recurso, tornando a internet pouco intuitiva, comparando a primeira visita a uma metrópole hostil.
Essa situação mudou em 1989, quando o físico Tim Berners-Lee desenvolveu um método para interligar páginas. Invenções subsequentes, como o protocolo HTTP e a linguagem HTML, continuam sendo utilizadas até hoje. O primeiro site histórico foi criado por Tim no CERN em 1991 e permanece funcional.
Desde o princípio, o conceito da web sugeria um espaço a ser explorado, utilizando navegadores para acessar sítios (sites) através de endereços (URLs). Esse acesso era, teoricamente, gratuito globalmente, funcionando como se Berners-Lee tivesse fornecido os elementos básicos para uma rede mais conectada e acessível.
Para ilustrar a diversidade estética da indie web, três artistas — Luisa Prado, Tayrine Cruz e a designer Cristielle Luise — foram envolvidas na edição. Com o avanço da web para os computadores domésticos, o Geocities tornou-se o site mais visitado em 1998. Este serviço permitia que qualquer pessoa criasse uma página inicial, categorizando as URLs por temas, como ficção científica em «/Area51» ou romance em «/Paris».
Dessa forma surgiram as primeiras comunidades virtuais, formadas por interesses comuns e pela vasta quantidade de conteúdo disponível para compartilhamento. Muitos que viveram essa fase recordam com nostalgia os chats com desconhecidos e a personalização de seus sites, refletindo um otimismo tecnológico sobre um futuro mais democrático e educado.
Tim Berners-Lee afirmou que a infraestrutura da web visava promover a colaboração, a compaixão e a criatividade, buscando ser uma ferramenta de empoderamento humano. Contudo, em uma declaração de 2024, ele expressou frustração, notando que, enquanto a primeira década cumpriu essa promessa, a última década contribuiu para corroer esses valores.
Atualmente, com 90% dos brasileiros com mais de 10 anos possuindo celular, os impactos negativos do uso irresponsável da internet — afetando saúde mental, privacidade e democracia — são amplamente conhecidos. No entanto, existe uma alternativa: reconhecer que a vida digital não se restringe às grandes corporações.
Enquanto as redes sociais são comparadas a monoculturas cercadas por muros, a indie web representa pequenas iniciativas, uma «agricultura familiar» digital. Nela, o conteúdo não possui prazo de validade e não está sujeito à censura ou exclusão por decisões de empresas ou governos. Trata-se de um movimento interdisciplinar que busca uma web mais próxima de sua concepção original.
Nyle Coelho, estudante de engenharia de software, expressa a perda do aspecto mágico e pessoal da internet, algo que ela não vivenciou. Quando ela ingressou no ambiente digital, as tendências eram o Instagram e o Snapchat, contrastando com a riqueza de acervos encontrados em blogs antigos de fandoms.
Rodrigo Ghedin, jornalista e editor do Manual do Usuário, aponta que os blogs persistem, mas a competição por atenção é intensa. Ana Rodrigues, desenvolvedora de software portuguesa e organizadora da IndieWeb, define este movimento como a busca por existir na web independentemente das redes sociais e da web corporativa. Ela enfatiza que o objetivo geral é permitir que as pessoas tenham «sua casa» na web.
Rodrigues compara perfis de redes sociais a apartamentos alugados, sujeitos às regras do proprietário, enquanto um site próprio é um imóvel, oferecendo maior autonomia contra banimentos ou censura. Milhões de brasileiros vivenciaram esse risco com o Orkut, que desapareceu em 2014.
As linguagens HTML e CSS, com trinta anos de existência, facilitam a criação, pois há vasto material de apoio online. Daniel Kossmann, gerente de produto de IA, lamenta a perda de conteúdos ao fechamento do Orkut, vendo seu próprio site de mais de 15 anos como um arquivo pessoal de pensamentos.
Autores de blogs duradouros valorizam o fato de seus textos antigos serem encontrados e apreciados, algo improvável em plataformas como o Twitter. Diferentemente das redes sociais, cujos algoritmos priorizam novidades efêmeras, os sites pessoais permitem que os autores publiquem conteúdos mais íntimos ou interdisciplinares, como exemplifica Vinicius Garcia, desenvolvedor de jogos, que unificou sua presença digital em um único site.
A liberdade de formato também é um diferencial; sites pessoais podem incluir elementos complexos como tocadores de música ou passagens secretas, diferentemente da padronização dos aplicativos. Embora a experiência possa ser menos previsível, ela reflete a natureza de rede da web, onde os links — definidos por Berners-Lee como a unidade básica de construção — são cruciais para a liberdade de expressão.
