Como rios, florestas e animais podem alertar sobre a próxima pandemia
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Como rios, florestas e animais podem alertar sobre a próxima pandemia

A próxima pandemia pode dar sinais antes mesmo do aparecimento dos primeiros pacientes. Mortes incomuns de animais, mudanças no meio ambiente ou a disseminação de microrganismos em uma determinada região podem indicar uma transformação nas relações entre humanos, animais e natureza.

Este é um dos princípios do conceito de Saúde Única (One Health), que considera a saúde humana, a saúde animal e o estado do meio ambiente como um sistema unificado. O infectologista Luana Araújo afirma que esses elementos estão interligados e sujeitos à influência de fatores como mudanças climáticas, desmatamento, poluição, urbanização e movimentação de pessoas.

Segundo Luana Araújo, vivemos em sistemas complexos onde vários fatores interagem e não exercem um impacto isolado. Por exemplo, as mudanças ambientais são capazes de alterar as condições de circulação de agentes infecciosos, aumentando o contato dos seres humanos com microrganismos que antes estavam mais distantes das populações humanas.

Explicando o conceito de Saúde Única, a especialista enfatiza que 'a saúde humana, a saúde animal e a saúde ambiental são um todo'. Ela observa que qualquer desequilíbrio em qualquer um desses componentes acarreta consequências negativas para os demais.

A disseminação do mosquito Aedes serve como exemplo de como as mudanças ecológicas podem afetar a distribuição de doenças. Araújo aponta que a dengue, antes considerada uma doença tropical, tornou-se endêmica em algumas partes da Europa Meridional e também ocorre no sul dos Estados Unidos.

O desmatamento representa outra área de atenção. O infectologista diz que a expansão das fronteiras agrícolas aumenta o risco de contato humano com microrganismos contra os quais não há defesas conhecidas, e muitos ainda são desconhecidos pela ciência.

Se uma nova ameaça pode surgir de um microrganismo ainda não identificado, monitorar o estado dos animais pode ajudar a notar mudanças antes que elas se manifestem como aumento de casos entre os humanos. Para o especialista sanitário Gonzalo Vesina Neto, fundador e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), isso exige a criação de um sistema de monitoramento permanente em diversos biomas do Brasil.

Vesina insiste que essa rede também deve considerar informações dos moradores dessas regiões. Ele menciona povos indígenas, moradores de áreas costeiras e outros habitantes locais que podem notar mudanças incomuns no mundo animal antes que os sistemas tradicionais de vigilância as detectem.

Quando algum animal começa a morrer em massa por qualquer motivo, os moradores locais devem estar prontos para relatar isso, a fim de descobrir se algo mais está acontecendo no mundo animal. Quando algo acontece no mundo animal, há algum microrganismo agindo ali.

Para o especialista sanitário, esse controle deve abranger seis biomas do Brasil — Amazônia, Pantanal, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e Pampas — e incluir a observação de animais e plantas. O objetivo é rastrear mudanças na natureza que possam exigir investigação por parte das autoridades e laboratórios.

A percepção de mudanças na fauna ou no meio ambiente é apenas o primeiro passo. Depois disso, é necessário descobrir o que está acontecendo e identificar rapidamente o agente envolvido. Nesse processo, são utilizados métodos de biologia molecular, automação laboratorial, testes rápidos e sequenciamento genético.

O patologista Carlos Alberto Aita destaca o progresso significativo desde a pandemia de COVID-19 nos métodos de biologia molecular para identificação rápida de novos patógenos, bem como na automação de laboratórios e no desenvolvimento de testes rápidos.

Na opinião de Aita, a capacidade de identificar agentes infecciosos de forma rápida, qualitativa e precisa já faz parte do trabalho de rotina dos laboratórios clínicos. Ele também ressalta que o monitoramento não depende apenas de testes específicos: análises gerais ajudam a acompanhar o estado de saúde dos pacientes.

Redes integradas de monitoramento de dados permitem uma resposta rápida para minimizar a propagação de novos casos logo após o recebimento de um pequeno número de notificações.

Essa integração permite ligar o que é observado no meio ambiente com o exame laboratorial. Um evento incomum pode gerar notificações, direcionando a coleta e análise de amostras, o que leva à identificação do agente e ao rastreamento de sua disseminação.

A detecção de mudanças na natureza é útil para a saúde pública somente se houver a possibilidade de investigar o que está acontecendo. Por isso, Vesina defende não apenas a observação nos biomas, mas também a criação de uma rede de centros de sequenciamento de microrganismos distribuídos pelo país.

Segundo o especialista sanitário, o Brasil ainda concentra sequenciadores em algumas universidades e deve expandir essa capacidade para diversas regiões. Ele também defende investimentos contínuos no desenvolvimento de tecnologias voltadas para tratamento e assistência médica.

Aita aponta outro aspecto desses esforços: manter os laboratórios atualizados e preparar especialistas capazes de trabalhar com novas metodologias e dados obtidos por essas redes. Para ele, é crucial investir na atualização tecnológica dos laboratórios de referência e clínicos, criar redes estruturadas de análise de dados e garantir o treinamento contínuo das equipes.

Assim, o monitoramento baseado no princípio da Saúde Única começa antes que a doença chegue ao hospital. Depende da capacidade de notar mudanças nos animais e no meio ambiente, de identificar rapidamente o que pode estar por trás delas e de conectar essa informação aos laboratórios e sistemas de vigilância capazes de direcionar ações de resposta.

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