A televisão aberta brasileira está se preparando para uma grande mudança histórica com a TV 3.0, cuja operação está prevista para começar em 2027. Este projeto busca integrar a experiência tradicional da radiodifusão com os recursos disponíveis atualmente na internet e em plataformas digitais.
Este tema foi debatido durante o painel intitulado “A Revolução da Televisão Aberta no Brasil: O Valor da Televisão em um Mundo Conectado”, realizado na SET Expo 2026, em São Paulo, no dia 18.
O evento contou com a participação de diversos nomes importantes, incluindo Wilson Diniz, secretário de Serviços de Radiodifusão; Otávio Penna Pieranti, conselheiro-diretor da Anatel; Cristiano Flores, presidente executivo da ABERT; Samir Nobre, que representava Márcio Novaes, presidente da ABRATEL; Gerson Inácio de Castro, presidente da ASTRAL; e Sérgio Santoro, do Fórum SBTVD.
Os tópicos centrais abordados incluíram os progressos na implementação da TV 3.0, as alterações regulatórias do setor, a forma como a televisão aberta é distribuída em plataformas digitais, e o papel sociocultural da radiodifusão brasileira.
A Fase de Experiências e a Infraestrutura
De acordo com Wilson Diniz, a TV 3.0 já está passando por fases de testes, e seu módulo de transmissão foi estabelecido utilizando a tecnologia ATSC 3.0. Mais de dez mil conversores já foram comercializados, e diversas emissoras estão se organizando para iniciar as operações em cidades como Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Salvador e Recife. Além disso, há linhas de crédito subsidiadas totalizando R$ 7 bilhões em andamento para agilizar a adoção desta nova tecnologia, com o início da operação projetado para o começo de 2027.
Contudo, a transformação transcende apenas a melhoria da qualidade do sinal. Um desafio significativo apontado é a necessidade de reformular o modelo de televisão linear, tornando-o mais próximo dos conceitos de TV sob demanda, satélite e conectividade em múltiplas plataformas.
Mudanças Regulatórias e Desafios de Acesso
Diniz também mencionou as modificações regulatórias implementadas recentemente, citando a Lei 14.812, que elevou o limite de outorgas por grupo, e a Lei 15.182, responsável por uma desregulamentação ampla do setor e pela anulação de cerca de quatro a cinco mil processos.
A forma como o público acessa o conteúdo também foi identificada como um obstáculo principal. Otávio Penna Pieranti, da Anatel, ressaltou que a audiência diária de televisão no Brasil ultrapassa cinco horas. Ele observou que fabricantes de televisores criaram barreiras para o acesso aos canais abertos, beneficiando serviços distribuídos via internet através de acordos comerciais. Nesse contexto, a TV 3.0 surge como uma chance de restaurar parte da importância da radiodifusão dentro das próprias televisões conectadas.
Pieranti também alertou sobre as consequências negativas da falta de emissoras locais, pois regiões sem essas operações perdem não só informações, mas também oportunidades de emprego e espaços para o debate cultural. O representante da Anatel garantiu que a regulamentação não irá atrasar a implementação da TV 3.0.
O Papel Social e Econômico da Televisão
Para Cristiano Flores, presidente executivo da ABERT, o debate deve abranger a interconexão entre televisão, internet e acesso à informação. Apresentando dados, Flores informou que o brasileiro gasta em média nove horas diárias conectado à internet, enquanto o país enfrenta baixos índices de alfabetização digital. Diante deste cenário, ele defendeu que a televisão aberta desempenha um papel crucial no combate à desinformação gerada em escala industrial.
Flores delineou três pilares essenciais para o futuro do setor: garantir a liberdade de expressão e fortalecer o jornalismo, incluindo a proteção contra inteligência artificial; estabelecer normas claras e imparciais para a distribuição em plataformas digitais e televisões conectadas; e promover o desenvolvimento completo da TV 3.0. O presidente da ABERT também pleiteou que a comunicação brasileira seja reconhecida como uma “Indústria Nacional Estratégica”.
Outro ponto levantado foi a dispersão das políticas digitais entre mais de seis secretarias governamentais, o que, segundo Flores, impede a criação de uma política de Estado centralizada para o segmento.
Samir Nobre, representante da ABRATEL, comentou que a televisão aberta já sofreu várias transformações ao longo das últimas décadas, como o advento da TV por assinatura, das plataformas de streaming e das mídias sociais. Durante este processo, as próprias emissoras expandiram suas atividades para além da transmissão convencional, utilizando plataformas digitais como Globoplay, Record Play e SBT Play.
A análise feita no painel indicou que a televisão aberta mantém sua participação no debate político e social, mesmo quando o consumo do conteúdo migra para outros canais digitais. Como exemplo de sua relevância, Nobre citou a propaganda eleitoral gratuita e questionou a plateia sobre o apoio de algum partido ao seu fim.
Patrimônio Cultural e Tecnologia
O status da televisão brasileira como patrimônio cultural foi outro tema discutido. Gerson Castro, presidente da ASTRAL, argumentou que a televisão aberta não deve ser vista apenas como produtora e distribuidora de conteúdo, mas também como um agente formador cultural de diversas gerações. Por essa ótica, Castro defendeu que a TV 3.0 seja considerada um patrimônio cultural nacional.
O representante também chamou a atenção para as TVs universitárias, que possuem acervos históricos singulares e necessitam de políticas públicas de financiamento para assegurar sua preservação e continuidade. A inteligência artificial também entrou na conversa, com Castro alertando para o uso dessa tecnologia na criação de vinhetas e outros materiais, o que pode levar à descaracterização da identidade das emissoras.
Em termos técnicos, Sérgio Santoro apresentou o trabalho do Fórum SBTVD, que completará 20 anos em 2026. O desenvolvimento da TV 3.0 teve início com uma chamada de propostas em 2019 e, segundo Santoro, obteve reconhecimento internacional pela metodologia de condução. Na SET Expo, o Fórum SBTVD firmou um memorando de entendimento (MoU) com ATC e TTA, da Coreia, focado na convergência de padrões, visando aumentar a escala global das tecnologias e, assim, diminuir o custo dos equipamentos de recepção, embora esses benefícios sejam esperados a médio prazo.
Santoro também pontuou uma distinção entre os ambientes de operação: enquanto a radiodifusão brasileira é rigidamente regulamentada, as plataformas digitais seguem sob um conjunto de regras diferente. As discussões revelaram que a chegada da TV 3.0 não é meramente uma atualização técnica do sinal, mas sim um debate amplo sobre como os canais serão localizados em televisores inteligentes, como o conteúdo brasileiro será distribuído em plataformas digitais e qual será o papel da televisão aberta em um ecossistema onde streaming, internet e radiodifusão estão cada vez mais integrados. Com as primeiras operações previstas para 2027 e as emissoras se preparando em várias capitais brasileiras, a próxima fase da televisão aberta dependerá tanto da implementação tecnológica quanto da definição de regras para este novo panorama conectado.