Foto de rover da NASA em Marte gera teorias da conspiração sobre OVNIs na internet
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Foto de rover da NASA em Marte gera teorias da conspiração sobre OVNIs na internet

Uma imagem indistinta, composta por vários pixels em uma paisagem desértica, tornou-se combustível para um dos fenômenos mais comuns da internet: transformar fotos insignificantes tiradas no espaço em supostas provas da existência de Objetos Voadores Não Identificados (OVNIs).

O último caso está relacionado a uma foto tirada em 20 de agosto de 2023 pela câmera de navegação (NavCam) do rover Curiosity da NASA no Cânion Gale. A imagem mostra um pequeno objeto escuro e desfocado, cujo contorno lembra vagamente uma água-viva flutuando sobre uma crista rochosa.

A imagem voltou a chamar a atenção depois que o perfil @KariSivertzen no X a republicou. Esta conta é conhecida na comunidade de 'caçadores' digitais que estudam arquivos brutos de agências espaciais em busca de anomalias.

Este padrão de disseminação viral segue uma fórmula clara: uma foto bruta é reproduzida nas redes sociais com ângulos intencionais e migra para canais do YouTube, onde recebe a máscara de análise técnica minuciosa para confirmar teorias sobre a presença de OVNIs no espaço.

Um exemplo desse mecanismo é apresentado no canal The Angry Astronaut. Em uma análise de 15 minutos, o criador de conteúdo usa dados operacionais reais da NASA para criar uma aparência de rigor científico e tentar provar a existência de um OVNI suposto.

O apresentador cita a resolução exata da NavCam (sensores monocromáticos com resolução de 1 megapixel e 0,82 mrad/pixel), aponta para um intervalo de tempo de exatamente 13 segundos entre os quadros e realiza cálculos trigonométricos para estimar a distância (150 metros) e a velocidade mínima que o objeto teria que desenvolver para sair do campo de visão (entre 1,4 km/h e 35 km/h).

No entanto, a matemática e as características do hardware servem apenas como pretexto técnico para justificar conclusões sem suporte metodológico. A premissa central do vídeo ignora as explicações mais simples — como falha do sensor, ruído de leitura ou pareidolia (efeito de ilusão óptica) — e passa diretamente para cenários extraordinários.

Em algum momento, o narrador estabelece paralelos artificiais com OVNIs em forma de 'água-viva', gravados por militares americanos no Iraque em 2017, e questiona a física conhecida: para explicar como a suposta nave poderia voar na atmosfera rarefeita de Marte (apenas 1% da densidade terrestre) sem levantar poeira da superfície ou usar hélices como o helicóptero Ingenuity, o vídeo começa a especular sobre 'propulsão magnetohidrodinâmica', 'massa negativa' acumulada no núcleo dos corpos celestes e 'física exótica'. Classificando as opções, ele rejeita a geologia e considera a hipótese de origem extraterrestre do OVNI como a explicação mais provável para o fenômeno.

Essa abordagem demonstra como o sensacionalismo moderno se disfarça de conhecimento científico popular: ele se apoia em dados reais para conquistar a confiança do espectador e, em seguida, distorce o método científico para direcionar o público a conclusões fantásticas.

Cientistas e engenheiros planetários analisam os mesmos dados sob a lente do ceticismo metodológico, procurando respostas na física óptica e no funcionamento dos instrumentos espaciais para combater o sensacionalismo dos canais virtuais.

O astrônomo Marcelo Zurita, presidente da Associação de Astronomia do Paraíba (APA), membro da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), diretor técnico da Rede Brasileira de Monitoramento de Meteoros (BRAMON) e autor de coluna no Olhar Digital, adverte categoricamente sobre a necessidade de cautela.

Lembrando o clássico máximo de Carl Sagan, o especialista enfatiza que 'afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias' e acredita que o material disponível é apenas 'uma mancha, um borrão no ponto da imagem tirada pelo Curiosity'.

Ao examinar o arquivo original publicado pela NASA, Zurita identifica claros sinais de falha técnica na criação da fotografia. O sinal mais forte é a geometria do enquadramento: enquanto o horizonte da paisagem marciana está visivelmente inclinado, a mancha escura permanece paralela às bordas da imagem. Para o astrônomo, essa inconsistência em relação ao solo é um 'grande sinal de artefato de imagem, ou seja, falha de compressão, falha de captura', e não o registro de um corpo físico passando sobre Marte.

Outra contradição crítica reside na física óptica das lentes. As NavCams, projetadas para mapeamento e foco próximo, naturalmente deixam o relevo distante e as rochas desfocadas no plano de fundo. Em contraste, a anomalia exibe contornos nítidos. Zurita explica que este desfoque divergente restringe os cenários a algumas interpretações viáveis dentro da engenharia robótica. 'Isso indica ou um objeto real, mas muito mais perto da câmera, ou um artefato de imagem.'

Sem confirmações cruzadas tiradas de outros ângulos, as especulações sobre propulsão magnetohidrodinâmica e física exótica, divulgadas por canais como The Angry Astronaut, desmoronam. O especialista salienta que a falta de dados impede quaisquer alegações sobre artefatos extraterrestres. Como existe uma explicação infinitamente mais lógica baseada na mecânica do rover, Zurita conclui que descartaria a hipótese de nave extraterrestre 'ou a colocaria no final da lista de possibilidades para esta imagem.'

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Em fevereiro de 2025, uma foto tirada em Marte em 30 de janeiro de 2014 reapareceu nas redes sociais. Esta imagem, publicada pela conta 'UFO mania' no X, mostra uma formação rochosa que, dependendo do ângulo, se assemelha a uma pequena porta. A aparência incomum alimentava teorias sobre um possível portal alienígena ou passagem para dentro do planeta. No entanto, a explicação é muito mais simples: é uma fissura natural na rocha marciana.

Uma foto semelhante recebeu destaque em 2022. Na época, a NASA explicou à BBC News Mundo que a porta suposta era uma pequena fenda registrada com grande aumento. A imagem fazia parte da série 'Sol 3466', tirada pelo rover Curiosity em 7 de maio daquele ano.

De acordo com cientistas do Jet Propulsion Laboratory (JPL), a abertura tem cerca de 30 centímetros de largura e 45 centímetros de comprimento. Ela se formou no local de interseção de várias fissuras.

O pesquisador britânico Neil Hodgson também determinou sua origem natural. Segundo ele, a erosão de camadas antigas de rocha, formadas há cerca de 4 bilhões de anos, criou essa estrutura.

A impressão de haver uma porta está ligada à pareidolia — o fenômeno em que o cérebro reconhece formas familiares em padrões aleatórios, como rostos em sombras ou animais em nuvens. O astrofísico Carl Sagan, em seu livro 'Cosmos', explicou que essa capacidade evolutiva foi vital para a sobrevivência dos primeiros humanos. Se um ancestral visse algo parecido com um predador entre as árvores, a reação mais segura seria fugir, mesmo que mais tarde fosse apenas um jogo de luz e sombra. Aqueles que hesitassem corriam o risco de não sobreviver. Este mecanismo está ativo hoje, fazendo-nos ver padrões mesmo quando eles não existem.

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