A arquitetura é vista como uma necessidade para estabelecer uma conexão entre o ser humano e o mundo ao seu redor. Antes de servir como refúgio, ela é um meio de criar um lugar — um espaço que pode direcionar o corpo, organizar a experiência e tornar visíveis relações frequentemente ocultas na vida cotidiana. É a partir dessa compreensão que surgiu o projeto Mirante de São Jorge.
Localizado em Chapada dos Veadeiros, próximo ao Parque Nacional, em uma das áreas ecologicamente mais significativas do Cerrado brasileiro, o projeto baseia-se no reconhecimento de um local já existente na memória coletiva. O topo da colina tradicionalmente servia como ponto de encontro para contemplar o pôr do sol sobre o horizonte montanhoso. O projeto reconhece essa característica e cria condições para uma vivência mais intensa dessa experiência.
A concretização do projeto se baseia no princípio da mínima alteração da paisagem: ele ocupa uma clareira já existente, preservando a vegetação local e evitando escavações. A estrutura elevada segue a topografia natural por meio de construções estacadas, permitindo que o terreno mantenha sua forma original, seus processos de drenagem e sua cobertura vegetal.
O Mirante está organizado como uma faixa circular contínua de oito metros de largura e um diâmetro total de cinquenta e sete metros, que delimita um grande espaço central vazio (1256 m²). Essa geometria não busca afirmar um objeto isolado na paisagem, mas sim criar um lugar. A forma circular é inspirada em padrões geométricos que, ao longo da história, organizaram espaços para encontros, contemplação e orientação. Ela representa não apenas um símbolo, mas uma estrutura capaz de aproximar as pessoas umas das outras e restaurar sua conexão com os ritmos da natureza. Em uma era de aceleração e dispersão, o projeto propõe uma experiência oposta: presença e atenção.
O espaço central vazio é o verdadeiro coração do projeto. Ali, o céu se torna um teto, o fluxo do tempo se torna visível e o ciclo diário do sol adquire significado central. Durante o pôr do sol, os visitantes compartilham o mesmo horizonte; à noite, o espaço recebe encontros em torno da fogueira. A arquitetura não dita esses eventos, mas apenas fornece as condições para que eles ocorram.
O telhado curvo de madeira oferece abrigo, conforto e escala humana, sem interromper a continuidade entre interior e exterior. As árvores existentes passam naturalmente pela arquitetura, dissolvendo as fronteiras entre o construído e o território. A vegetação deixa de ser um elemento decorativo e passa a ser parte integrante da experiência espacial.
Em Chapada dos Veadeiros — território reconhecido como berço das águas e um dos patrimônios ecológicos mais importantes do país — essa experiência ganha um significado ainda mais profundo. O projeto entende que a preservação da paisagem depende da proteção de seus ecossistemas, mas também da construção de laços culturais e emocionais entre as pessoas e o lugar. Além de oferecer infraestrutura de ecoturismo aos visitantes, o Mirante busca fortalecer essa conexão, considerando a arquitetura como uma ferramenta capaz de aproximar as pessoas do território e contribuir para sua preservação.
