Análise do IPO da SpaceX: Críticas sobre a avaliação da empresa e possíveis manobras financeiras
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Análise do IPO da SpaceX: Críticas sobre a avaliação da empresa e possíveis manobras financeiras

Elon Musk comentou em um podcast, realizado em 11 de junho, que acredita que o dinheiro deixará de ser um fator relevante em algum momento futuro. Durante a conversa com o investidor Peter Diamandis, Musk foi questionado sobre o futuro da humanidade, ao que respondeu que a Inteligência Artificial e os robôs gerarão tanta produção e serviço que, eventualmente, não haverá mais o que fazer para eles.

No entanto, enquanto a esperada hiperabundância não se concretiza, o dinheiro permanece relevante, inclusive para Musk. No dia seguinte, 12 de junho, ele conduziu a Oferta Pública Inicial (IPO) de outra de suas companhias, a SpaceX, tornando-se o primeiro bilionário trilhardário da história.

Sua fortuna é determinada pelo valor de mercado da SpaceX, na qual ele ainda possui 46% das ações, fazendo com que seu patrimônio flutue; no momento da escrita deste texto, Musk detinha US$ 726,9 bilhões. Ele mantém a posição de indivíduo mais rico do planeta, superando em mais do dobro o vice-líder, Larry Page, cofundador do Google, que possui US$ 292,7 bilhões. A mídia e as redes sociais reagiram com elogios a Musk.

Um aspecto menos visível, e possivelmente desconhecido pelo público, é que o IPO da SpaceX envolveu táticas altamente questionáveis, que podem ser objeto de estudo histórico como um dos maiores esquemas financeiros da história.

A SpaceX disponibilizou 5% de suas ações ao público, totalizando 638,8 milhões de unidades a US$ 135 cada. Este lote representa US$ 86 bilhões, o que implica que o valor total da companhia seria de US$ 1,72 trilhão. Embora a SpaceX seja reconhecida por inovar e revolucionar os lançamentos espaciais e a internet via satélite, o valor atribuído é considerado excessivo por diversos motivos.

Primeiramente, essa avaliação corresponde a 95 vezes a receita anual da SpaceX. Nenhum outro empreendimento, nem mesmo os mais comentados na atual bolha financeira, atinge tal proporção. Para comparação, a Nvidia vale 29,8 vezes sua receita anual, o Google 27 vezes, a Meta 24,4 vezes, a Apple 40 vezes e a Amazon 31 vezes. Surge a dúvida sobre como a SpaceX pode ser avaliada tão acima dessas gigantes, especialmente considerando que a empresa registrou um prejuízo de US$ 4,9 bilhões no ano anterior.

Para tentar validar essa avaliação, Musk utilizou um segundo argumento: o Mercado Total Endereçável (TAM), que ele estima em US$ 28,5 trilhões. Esse valor é comparável a quase todo o Produto Interno Bruto dos Estados Unidos, ou à soma dos mercados global de construção civil (US$ 15,7 trilhões anuais), petróleo/gás (US$ 6,2 trilhões) e tecnologia (US$ 6,1 trilhão).

Adicionalmente, 90% desse mercado hipotético não está ligado à atividade principal da SpaceX, pois deriva de receitas de Inteligência Artificial (IA). Musk integrou sua empresa focada em IA, a xAI, com a SpaceX, alegando que o lucro virá de data centers de IA instalados na órbita terrestre. Segundo ele, esses centros espaciais serão mais econômicos de operar que os terrestres a partir de 2029, devido à ausência de interferências atmosféricas e nuvens, permitindo captar até oito vezes mais energia solar.

Contudo, mesmo com essa projeção, a matemática não se sustenta. Os painéis da Estação Espacial Internacional (ISS), por exemplo, possuem 2.500 m² e geram aproximadamente 100 quilowatts, o que é mil vezes inferior à energia necessária para alimentar um grande data center terrestre de categoria hyperscale. Com as tecnologias atuais, não é factível construir grandes data centers, com mais de um milhão de computadores, em órbita.

O que é viável é desenvolver um projeto menor, com alguns milhares de servidores distribuídos em uma rede de satélites. Essa tecnologia possui utilidade, como servir de backup fora do planeta para dados de extremo valor, mas não consegue competir em capacidade de processamento com os data centers terrestres. A xAI, que teve um prejuízo de US$ 6,4 bilhões no ano passado, está ciente disso, operando inclusive dois grandes data centers convencionais em Memphis, nos EUA. Embora relevante, ela não se equipara aos líderes de IA (OpenAI e Anthropic) ou de data centers (Microsoft, Amazon, Google).

Diante disso, surge a questão: quem compraria ações da SpaceX pelo preço exorbitante proposto? Aparentemente, Musk contava com a ingenuidade do mercado. Em ofertas normais, apenas 5% a 10% das ações são destinadas a investidores pessoa física; a maior parte vai para investidores institucionais, como bancos e corretoras.

O IPO da SpaceX divergiu desse padrão, pois 20% da oferta foi direcionada a investidores individuais, leigos. O elemento mais preocupante reside no fato de que 150 milhões de norte-americanos investem suas economias em bolsas de valores, e mais da metade desse capital está em Fundos de Índice, que replicam indicadores como o S&P 500, Nasdaq 100 ou Dow Jones, comprando pequenas frações de cada ação do índice.

Para prevenir manipulações ou grandes flutuações, existe o período de amadurecimento (seasoning), onde novas ações só entram nos índices após um tempo determinado; no S&P 500, esse prazo é de um ano. Elon Musk solicitou à Standard & Poor’s, responsável por calcular esse índice americano, que alterasse essa regra, mas ela negou. Assim, Musk buscou a bolsa Nasdaq e propôs que a SpaceX fosse listada lá, em troca de um relaxamento dessa quarentena. A Nasdaq aceitou, pois obtém lucros com as taxas de transação.

Em 7 de julho, as ações da SpaceX foram incluídas no índice Nasdaq 100. Consequentemente, todos os fundos de investimento que replicam esse índice foram forçados a adquirir ações da SpaceX, utilizando o dinheiro de milhões de norte-americanos a um custo altíssimo, sem que a maioria percebesse. Este foi o grande artifício. As ações da SpaceX devem cair (já estão 28,6% abaixo do pico), levando milhões de pessoas a perderem dinheiro por terem pago um valor irreal pelos papéis. Musk, por outro lado, manterá seu status como o homem mais rico do mundo, com centenas de bilhões de dólares adicionais em relação ao seu patrimônio anterior, configurando uma transferência de riqueza e uma manobra em escala inédita.

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