Milhares de IAs na rede tomam decisões sem intervenção humana, formando um efeito de manada
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Milhares de IAs na rede tomam decisões sem intervenção humana, formando um efeito de manada

Ao utilizar ferramentas generativas de inteligência artificial, como ChatGPT, Claude e Gemini, existe o risco de 'bajulação algorítmica', onde o chatbot concorda com os erros do usuário em busca de aprovação. No entanto, este problema também tem uma escala coletiva. Uma pesquisa publicada na revista Science Advances mostrou que quando centenas ou milhares de agentes de IA interagem em uma rede, eles começam a seguir a maioria e chegam a um consenso por conta própria.

Ou seja, sem qualquer comando humano, líder central ou recompensa, os sistemas simplesmente copiam a escolha mais popular e criam um 'efeito manada' autônomo. Assim, a descoberta demonstra que a tendência à concordância observada em conversas individuais com humanos se manifesta também na interação dos próprios algoritmos.

Além disso, modelos avançados, como Claude 3.5 Sonnet e GPT-4 Turbo (que são considerados 'obsoletos' atualmente), mantiveram esse consenso em grupos com mais de mil agentes. Essa escala excede o limite de coordenação informal em sociedades humanas (o chamado Número de Dunbar, estimado entre 150 e 300 pessoas) e revela o risco de decisões em massa serem tomadas por robôs completamente fora do controle humano.

Para entender o mecanismo desse fenômeno, os pesquisadores criaram ambientes simulados com mil agentes de IA operando em modelos das famílias Claude (Anthropic), GPT (OpenAI) e Llama (Meta). Durante o teste, cada agente deveria escolher uma de duas opções sem valor prático algum. Sem memória de rodadas anteriores e sem instruções de cooperação, os agentes apenas observavam a escolha dos outros. Rapidamente, uma pequena maioria cresceu até que todo o grupo adotasse a mesma resposta.

A pesquisa estabeleceu que os modelos testados obedecem a uma lei matemática que é determinada por um parâmetro chamado 'força da maioria'. Este indicador mede a atração que a opção mais popular exerce sobre cada agente. É interessante notar que a dinâmica segue o mesmo padrão da física que descreve o alinhamento de spins atômicos em uma direção dentro de um material ferromagnético para formar um ímã.

Também foi descoberto que a capacidade técnica do modelo determina o tamanho do grupo que ele pode manter em uníssono. Ferramentas menos sofisticadas perdiam a coordenação em grupos menores e se fragmentavam. Modelos mais inteligentes, no entanto, mantinham o consenso em grupos superiores a mil robôs. Isso indica que o progresso na área de inteligência artificial está expandindo a escala do efeito manada.

O problema é que esse consenso espontâneo não garante a correção ou segurança da escolha. Em tarefas práticas, como codificação colaborativa (vibe coding) ou operações financeiras, a rede de agentes pode consolidar uma solução ineficiente, um erro de código ou um padrão arriscado. A razão é simples: isso acontece porque a maioria começou a usá-lo. Isso é chamado de discordância coletiva, onde agentes de IA inofensivos começam a gerar falhas em cadeia ao trabalhar em grupo.

Assim que essa 'bolha de pensamento' se estabelece no ecossistema, corrigir o erro torna-se extremamente difícil. O artigo alerta para o efeito de histerese: a correção ou eliminação das condições iniciais que causaram a falha não anula automaticamente a decisão tomada pelo grupo. Na prática, redirecionar uma rede de IAs coordenadas é infinitamente mais difícil do que corrigir o comportamento de um modelo de IA isolado.

Quando esses ecossistemas saem dos testes laboratoriais e começam a operar dentro de empresas, a tarefa de segurança muda drasticamente. Para reduzir o risco de consenso massivo cego, as empresas devem começar a tratar cada agente de IA como uma 'entidade não humana', concedendo-lhe credenciais individuais, funções limitadas e regras de acesso próprias. Sobre isso, falou a especialista em cibersegurança e COO da IAM Brasil, Natalia Carmo, em entrevista ao Olhar Digital.

Essa mudança de paradigma é fundamental, pois em um ambiente distribuído, milhares de ações de rede podem formar um caminho perigoso sem um único culpado. A especialista alerta que a prioridade agora é garantir a rastreabilidade dos algoritmos. 'A empresa deve ser capaz de responder em tempo real: qual agente iniciou uma ação específica, com quais outros agentes ele interagiu, a quais dados teve acesso, qual ferramenta ou API utilizou e, o mais importante, qual entidade autorizou efetivamente essa execução', explica a especialista em cibersegurança.

Para evitar que esse efeito manada saia do controle, os sistemas corporativos devem detectar o comportamento anômalo da rede antes que ele se transforme em uma bola de neve. Se vários agentes começarem a executar a mesma tarefa simultaneamente, realizar chamadas excessivas de API ou disseminar a decisão entre si, a infraestrutura deve emitir um sinal de alerta. A ideia é combinar telemetria e monitoramento comportamental para detectar a mudança no padrão de grupo antes que ocorra uma ação em grande escala.

No entanto, se a rede avançar para uma decisão errada ou arriscada, o botão tradicional de parada de emergência deve agir de forma cirúrgica. Segundo Natalia Carmo, o mecanismo de interrupção (conhecido na indústria como kill switch) deve desconectar o modelo de IA do processo de tomada de decisões e, mais importante, afetar o nível onde os comandos são executados. A organização deve interromper imediatamente a comunicação entre os agentes, revogar tokens e credenciais, bloquear APIs e suspender o acesso privilegiado, impedindo que essa decisão continue sendo executada nos sistemas corporativos.

Em conclusão, a garantia contra a conformidade cega dos algoritmos exige o estabelecimento de limites à autonomia dos sistemas corporativos. Para operações sensíveis, como transações financeiras, exclusão de dados ou alterações na infraestrutura de TI, a palavra final deve permanecer com supervisores humanos. A regra de ouro é: a IA pode ter autonomia para analisar cenários e tomar decisões dentro de suas restrições de segurança, mas nunca deve ter liberdade para executá-las sem verificação.

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Inteligência Artificial expande interações entre máquinas, o que pode reduzir o contato humano
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Inteligência Artificial expande interações entre máquinas, o que pode reduzir o contato humano

A inteligência artificial transcendeu seu papel de mera ferramenta de suporte, passando a ocupar funções anteriormente reservadas a seres humanos em contextos de trabalho, estudos, atendimento e relacionamentos. Em diversos cenários, sistemas automatizados já são capazes de gerar mensagens, avaliar conteúdos e tomar decisões em nome dos usuários.

Essa evolução estabelece uma nova dinâmica social: em vez de uma interação ocorrer diretamente entre duas pessoas, dois sistemas podem assumir os papéis em uma mesma troca. Especialistas e pesquisadores, conforme noticiado pelo The New York Times, alertam que este ciclo tem potencial para replicar falhas, reforçar as limitações inerentes aos modelos e diminuir o espaço dedicado à imprevisibilidade das relações humanas.

Este fenômeno, denominado possivelmente de «bot loop», tende a se intensificar à medida que os agentes digitais assumem tarefas de complexidade crescente. Projeta-se que as interações entre máquinas se tornem mais comuns em áreas como trabalho, educação, atendimento ao cliente e até mesmo na esfera afetiva.

No âmbito profissional, Christian Vinson, um indivíduo de 30 anos, utilizou dois chatbots para estruturar informações sobre sua carreira e personalizar cartas de apresentação para centenas de oportunidades. O candidato empregou a tecnologia para concorrer a vagas em um mercado onde as empresas também utilizam sistemas automatizados na triagem de currículos, resultando em sua contratação por um banco de investimentos localizado em Nova York.

Esta situação ilustra uma transformação mais vasta, na qual a mesma tecnologia pode estar envolvida tanto na criação quanto na análise de um material, configurando um circuito fechado entre sistemas artificiais. No setor educacional, alunos recorrem a chatbots para desenvolver trabalhos, enquanto professores e instituições empregam ferramentas de IA para realizar a análise desses mesmos materiais.

O mesmo padrão se manifesta na comunicação corporativa. Colaboradores enviam textos gerados por sistemas automatizados, e os destinatários podem responder utilizando ferramentas similares. Embora a conversa permaneça formalmente entre pessoas, uma fatia crescente de sua composição é delegada às máquinas.

A expansão tecnológica também abrange o entretenimento e a informação. A reportagem menciona podcasts onde apresentadores artificiais dialogam com convidados artificiais, e aponta que empresas de tecnologia já exploram ambientes onde agentes de inteligência artificial interagem diretamente entre si.

Este panorama se aproxima da teoria da internet morta, que prevê que uma porção cada vez maior do tráfego digital será gerada por softwares. Contudo, o novo aspecto destacado pelo artigo é mais específico: ele ocorre quando os humanos deixam de participar diretamente das duas extremidades de uma interação, atuando apenas como intermediários para conectar os sistemas.

A tendência pode se manifestar em situações rotineiras. Por exemplo, diante de um problema doméstico, uma pessoa poderia incumbir um assistente digital de buscar profissionais, comparar condições e estabelecer contato com eles. Paralelamente, os prestadores de serviço também poderiam usar agentes automatizados para gerenciar as requisições recebidas.

Jiaxin Pei, professora assistente da Escola de Informação da Universidade do Texas em Austin, identifica neste processo um circuito que pode se estender indefinidamente. Sua preocupação reside no fato de que, à medida que ambos os lados passam a usar agentes digitais, a comunicação pode perder a necessidade de participação humana direta.

A substituição também alcança a representação pessoal. Justin Lester, pastor da Califórnia, treinou um agente de inteligência artificial para prestar assistência aos fiéis quando ele não está disponível. O texto sugere que o próximo estágio pode envolver agentes digitais representando simultaneamente as pessoas em ambas as partes de uma conversa ou reunião.

Executivos já utilizam avatares impulsionados por inteligência artificial em encontros com colaboradores. A possibilidade levantada é que, futuramente, os próprios empregados possam recorrer a representações digitais para participar dessas mesmas reuniões.

A automação da comunicação não anula os desafios dos sistemas de inteligência artificial; pelo contrário. Quando uma ferramenta fornece dados a outra, uma falha inicial pode percorrer múltiplas fases sem ser detectada por um ser humano.

Soheil Feizi, professor associado de ciência da computação da Universidade de Maryland, alerta para um risco particular: sistemas similares podem partilhar as mesmas limitações. Se um modelo cometer um erro e outro sistema receber essa informação como fidedigna, a falha pode se consolidar em vez de ser corrigida.

Um estudo citado na matéria sobre o emprego de IA em hospitais exemplifica tal cenário. Uma ferramenta poderia analisar exames de raio-x, outra usaria essa avaliação para organizar leitos e uma terceira definir a sequência de atendimento. Caso o primeiro sistema erre e não haja verificação humana, a informação incorreta poderá impactar todas as decisões subsequentes.

Existe também um mecanismo de *feedback*. Pesquisas mencionadas indicam que sistemas de IA podem apresentar predileção por conteúdos criados por outras IAs. Um estudo revelou maior aceitação de currículos elaborados por máquinas por parte de sistemas automatizados de seleção.

Este comportamento pode gerar efeitos particularmente sensíveis em processos onde a própria inteligência artificial atua tanto na produção quanto na avaliação. A reportagem associa isso ao uso de leitores automáticos em processos de admissão universitária, onde textos feitos por estudantes podem ser avaliados por ferramentas parecidas com aquelas que os auxiliaram na produção.

Além dos problemas técnicos, especialistas entrevistados apontam uma consequência menos quantificável: a possível alteração nas expectativas sobre o que significa interagir com outra pessoa.

Sarah Davis, antropóloga cultural e reitora do St. John’s College, em Santa Fe, Novo México, argumenta que a fluidez das trocas entre máquinas pode levar as pessoas a rejeitar traços intrínsecos aos relacionamentos humanos. Para ela, a convivência também depende de dificuldades, desentendimentos e momentos de desconforto.

A apreensão é que uma comunicação excessivamente previsível possa tornar a interação humana menos atrativa. Se os sistemas artificiais conseguem prover respostas rápidas, bem estruturadas e sempre disponíveis, a tolerância às imperfeições humanas pode diminuir.

A matéria enfatiza que a discussão não precisa culminar em um cenário onde as máquinas assumam integralmente a comunicação. Uma probabilidade maior é uma modificação gradual na proporção dos diferentes tipos de interação, com a participação humana direta ocupando uma fatia menor do dia a dia.

Neste futuro, conversar com alguém pode deixar de ser um pressuposto e se tornar um serviço especializado. O contato humano direto, atualmente esperado em muitas situações, poderia adquirir um caráter de exclusividade, acessível primariamente àqueles com capacidade financeira para pagá-lo.

A ironia apontada é que os indivíduos que mais se beneficiarão economicamente da expansão da IA poderão ter os meios para adquirir experiências humanas que se tornarão progressivamente mais escassas para o restante da sociedade.

Portanto, o avanço dos agentes digitais não sinaliza apenas uma mudança na execução de tarefas pelas tecnologias; ele também pode modificar quem participa das conversas, quem decide e qual o grau de contato direto entre pessoas em atividades que antes dependiam fundamentalmente de laços humanos.

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