Crianças que crescem em condições de pobreza, especificamente em lares onde a renda por pessoa é inferior a R$ 178 mensais, podem manifestar defasagens no desenvolvimento motor desde os primeiros meses de vida. Essa constatação foi feita por uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal de São Carlos, que monitorou 88 bebês, sendo 50 deles vivendo em situação de vulnerabilidade econômica.
Como as defasagens foram avaliadas?
A metodologia utilizada focou na observação da aquisição de habilidades motoras. Isso inclui verificar o tempo que o bebê leva para conseguir alcançar, segurar e manusear um objeto, bem como quando ele consegue sentar sozinho, sem apoio. Também se analisa se o bebê direciona-se diretamente ao objeto ou se utiliza múltiplos movimentos para explorá-lo, indicando que ainda está em fase de aprendizado.
Quais elementos podem provocar tais atrasos?
Diversos fatores foram apontados como potenciais causas dessas dificuldades, como o baixo nível de escolaridade da mãe, a carência de informações sobre como estimular o bebê e a escassez de brinquedos adequados. A ausência de itens simples, como bolas, tapetes ou brinquedos que promovam a motricidade fina, como chocalhos ou objetos que auxiliem no desenvolvimento da preensão (movimentos de pinça), também foi citada.
Adicionalmente, viver com muitas pessoas na mesma residência foi um fator relevante. As mães participantes relataram sentir-se inseguras ao colocar os bebês no chão, prática essencial para que desenvolvam a musculatura abdominal e das costas e consigam se movimentar.
No âmbito do estudo, foi observado que essas defasagens puderam ser revertidas após as mães receberem orientações e passaram a estimular os bebês com mais frequência. Sobre as consequências de não receber estímulo adequado, embora o período de acompanhamento tenha sido de três a oito meses, impedindo afirmações definitivas sobre o futuro desenvolvimento, a literatura científica sugere que, caso não haja mais atrasos motores, o quadro está normal. Contudo, bebês que persistirem com atrasos devido à falta de estímulos podem enfrentar problemas na idade escolar, como dificuldade em segurar um lápis ou desequilíbrio durante aulas de educação física.
Foi notado que bebês do sexo masculino apresentaram uma probabilidade 2,5 vezes maior de desenvolver atrasos motores. Uma das explicações levantadas é que meninos possuem maior suscetibilidade a inflamações, contêm mais radicais livres no sangue e têm maior risco de nascer prematuros e necessitar de UTI neonatal. Outra possibilidade considerada é a diferença nas expectativas sociais impostas a meninos e meninas, mas este ponto requer estudos futuros.
