Quem convive com gatos pode notar o animal parando uma atividade, levantando os lábios e mantendo a boca ligeiramente aberta por alguns instantes após detectar um odor específico. Embora possa parecer uma expressão de desgosto, essa reação não indica necessariamente repulsa, mesmo que o gato tenha cheirado itens como meias suadas ou cuecas usadas dentro de casa.
Este comportamento é denominado reflexo de Flehmen e está intrinsecamente ligado ao sistema sensorial dos felinos. Através do órgão vomeronasal, também conhecido como órgão de Jacobson, o animal é capaz de processar informações químicas contidas nos cheiros que chamam sua atenção.
Análise detalhada dos odores
Segundo Valeska Rodrigues, professora do curso de Medicina Veterinária da Universidade de Franca (Unifran), este mecanismo possibilita uma percepção mais minuciosa dos aromas. Tal reação pode ser desencadeada por odores emitidos por outros animais, por substâncias encontradas em objetos ou até mesmo por estímulos ambientais.
O reflexo de Flehmen acontece quando o gato direciona certas partículas odoríferas para o órgão vomeronasal, que está situado no palato. Este sistema funciona como um complemento ao olfato, permitindo que o felino obtenha dados químicos precisos.
A especialista da Unifran esclarece que a abertura bucal faz parte deste processo sensorial. Ela afirma que, apesar de parecer incomum para os seres humanos, este reflexo constitui uma maneira mais refinada de identificar odores.
Entre as informações captadas por este mecanismo estão os feromônios. Estas substâncias desempenham um papel na comunicação entre felinos, podendo sinalizar, por exemplo, a presença de uma fêmea no cio ou indicar sinais relacionados à demarcação territorial.
Por essa razão, o comportamento pode surgir após o gato encontrar urina de outro animal, entrar em contato com cheiros de outros felinos, farejar as vestimentas dos tutores ou perceber algo diferente em seu território. Roupas, calçados e odores que chegam pela janela também são capazes de provocar a mesma resposta.
Adicionalmente, o sistema auxilia o animal a interpretar modificações no ambiente. Na avaliação de Valeska, a habilidade de reconhecer cheiros específicos contribui para que o gato monitore seu entorno. Ela descreve isso como uma «ferramenta de comunicação e monitoramento muito útil para a espécie».
Diferença entre reflexo e problemas de saúde
Embora seja uma resposta natural, é crucial não confundir este comportamento com alterações respiratórias. No caso do reflexo de Flehmen, a boca permanece entreaberta por um período breve, e o gato geralmente retoma suas atividades normais sem interrupções.
Sinais de problemas de saúde ou estresse intenso podem manifestar-se de outras formas, como respiração acelerada, agitação, produção excessiva de saliva e esforço visível para respirar. A veterinária enfatiza essa distinção, pontuando que «no Reflexo de Flehmen, a boca entreaberta dura poucos segundos, e logo o felino volta às suas atividades rotineiras de forma tranquila».
A relevância dos odores para os gatos também está ligada à maneira como esses animais interagem. Os feromônios podem estar associados à urina, à cabeça e às unhas, participando de ações como o reconhecimento e a marcação territorial.
O contato próximo com o tutor também envolve informações olfativas. Quando o gato se aproxima para cheirar o rosto ou o nariz de uma pessoa, esse comportamento é apresentado como uma forma de compreender melhor aquele aroma e está ligado à confiança estabelecida com o tutor.
O mesmo princípio ajuda a explicar o grande interesse dos felinos por odores domésticos. Para eles, identificar o que mudou no ambiente é uma parte essencial de sua percepção do espaço onde vivem. Portanto, não há motivo para preocupação: é provável que seu gato esteja apenas analisando cheiros e não demonstrando nojo.



