Anualmente em agosto, uma área costeira da Califórnia se transforma no epicentro automotivo mundial durante a Monterey Car Week. Este evento não é um único encontro, mas sim um conjunto de atividades paralelas realizadas na região sul da baía de Monterey, com tradições estabelecidas desde 2014.
A semana costuma iniciar-se com a Rolex Monterey Motorsports Reunion, seguida pelo The Quail e finalizada com o Concours d’Elegance Pebble Beach. Tudo isso é complementado por leilões das maiores casas globais, encontros privados e eventos menores promovidos por montadoras e patrocinadores.
Contudo, a edição de 2026 apresenta um volume notavelmente maior de novidades significativas, o que levanta questões sobre a direção atual da indústria. Observa-se uma tendência de despejo diário de veículos elétricos e eletrônicos, que tendem a tornar o motorista mais um passageiro, padronizando os carros e obscurecendo o valor intrínseco dessas máquinas.
Antigamente, os automóveis evocavam sentimentos através do som do motor ou da ausência dele, do design interno e externo, e da função essencial que cumpriam na vida cotidiana. Hoje, essa máquina tornou-se tão comum que perdemos a percepção do poder que ela oferece – a capacidade de percorrer distâncias maiores e mais rapidamente do que o corpo humano permite.
Essa banalização pode ser vista como uma forma inevitável de democratizar o acesso a esse poder sem causar caos urbano, especialmente em um contexto onde a mobilidade básica é negligenciada. No entanto, a natureza humana demanda contrastes; o prazer depende do sofrimento, e a emoção necessita do tédio. Sem esses opostos, tudo perde o sentido, assim como a vida sem a morte.
O automóvel reflete isso ao eliminar gradualmente o esforço, o ruído, a vibração e a necessidade de participação ativa do condutor. É justamente nesse cenário de carros perfeitos, silenciosos e previsíveis que os veículos mecânicos originais voltam a ser altamente desejáveis, transformando-se em um nicho de luxo acessível àqueles que buscam fugir da anestesia dos modelos modernos.
Enquanto até meados da última década um supercarro precisava superar seu antecessor em termos de modernidade e capacidade – como o Bugatti Chiron versus o Veyron –, hoje os limites técnicos foram alcançados. Descobriu-se que a realização não reside no ápice da velocidade, mas sim nas pequenas experiências diárias.
Por isso, os novos supercarros não precisam mais ser hipercarros extremos. Eles são projetados para proporcionar satisfação em cada partida e condução, mesmo em passeios simples. As montadoras estão, portanto, utilizando tecnologia atual para resgatar características de épocas passadas, reinterpretando conceitos antigos sem as restrições técnicas da época.
Isso explica a forte presença de referências históricas nos lançamentos deste ano: não apenas inspirações visuais, mas carros inteiramente concebidos em torno de projetos e soluções mecânicas de décadas atrás. Afinal, as máquinas verdadeiramente perfeitas requerem a imperfeição humana, como a necessidade de troca manual de marchas ou a manutenção do controle pelo motorista.
Gordon Murray S1
O primeiro veículo desta lista encapsula perfeitamente essa filosofia. No ano anterior, Gordon Murray apresentou o S1 LM em Monterey, um projeto extremo da recém-criada Gordon Murray Special Vehicles. Este modelo era uma releitura da fórmula que Murray segue desde o retorno à produção sob seu nome: baixo peso, motor aspirado, câmbio manual e foco total na interação com o condutor.
O S1 LM foi feito para celebrar os 30 anos da vitória do McLaren F1 GTR nas 24 Horas de Le Mans de 1995. Com apenas 957 kg, um V12 Cosworth de 4,3 litros e 720 cv, aerodinâmica de competição e produção limitada a cinco unidades, um exemplar foi vendido por US$ 20,6 milhões, um recorde para um carro novo em leilão. Um ano depois, Murray retornou ao The Quail com o S1.
O S1 mantém a arquitetura básica do S1 LM, incluindo largura, bitolas e conceito de suspensão, mas elimina os grandes apêndices aerodinâmicos, aumenta a altura de rodagem em 10 mm e ajusta a calibração para uso em vias públicas. Além disso, toda a carroceria foi redesenhada, e parte do trabalho aerodinâmico migrou para elementos ativos integrados ao design, focando na aderência mecânica em vez da carga aerodinâmica.
Sem o asa fixa e o splitter proeminente do LM, suas proporções se assemelham mais a um supercarro de rua. Enquanto o S1 LM remetia ao McLaren F1 GTR, o S1 evoca o F1 de rua original de 1992, com soluções como rodas e faróis auxiliares baixos inspirados em um protótipo de Mônaco.
Acima dos três ocupantes, há um V12 Cosworth específico para o S1, com 4,2 litros, aspiração natural e 680 cv. O destaque técnico é o corte em 12.100 rpm, alcançado com pistões leves de carbeto de silício, válvulas e bielas de titânio, e lubrificação por cárter seco. A adaptação para longas distâncias permitiu que 80% do torque estivesse disponível a partir de 2.500 rpm.
O único câmbio disponível é manual de seis velocidades, sendo a sexta marcha padrão com relação alongada para viagens, e o mecanismo possui cabos com trajeto mais direto para maior precisão na alavanca. Apesar de incorporar itens de conforto como isolamento acústico, bancos melhores, acabamento em couro e sistema de áudio, a obsessão por controle de peso manteve o S1 abaixo de 1.000 kg.
A direção conta com assistência ajustável para diferentes níveis de uso em estrada, e a suspensão foi recalibrada para priorizar a aderência mecânica em pavimentos reais, e não apenas em circuitos. Em termos de desempenho, o S1 não busca recordes de velocidade ou potência elétrica, contando com seus 680 cv para mover menos de uma tonelada.
A criação da Special Vehicles pela GMA justifica-se pela necessidade de operar fora da fórmula padrão dos modelos regulares, permitindo projetos menores e únicos, muitas vezes originados de encomendas ou ideias de Murray. Serão produzidos apenas 64 exemplares, todos personalizados, e todas as unidades já estão reservadas.
McLaren MCL 6GT
Se o S1 remete ao McLaren F1, a própria McLaren revisita o que existia antes do F1 com o novo MCL 6GT. Em 1969, Bruce McLaren idealizou transformar um carro de corrida em um veículo de rua, utilizando como base o M6A da Can-Am, adaptando-o com carroceria fechada, para-brisa e portas para circulação fora das pistas. Esse protótipo, chamado M6GT, tornou-se o carro particular de Bruce, usado em vias públicas.
Embora houvesse planos para uma pequena série do M6GT em colaboração com fornecedores, Bruce faleceu em 1970, antes que esse plano fosse concretizado. A McLaren só lançaria um carro de rua próprio mais de vinte anos depois, com o F1. Agora, 56 anos após a morte do fundador, a empresa retomou esse projeto inicial.
O MCL 6GT não é uma réplica exata do M6GT original. Sua conexão reside na proposta de levar elementos de um carro de competição para a rua sem comprometer a praticidade diária. Há referências visuais diretas ao carro de Bruce, como a pintura vermelha, os faróis, as lanternas traseiras, as portas diedrais e certos detalhes da carroceria próximos às entradas de ar lateral.
No lançamento, a McLaren expôs o novo MCL 6GT ao lado do M6GT original e também exibiu desenhos de engenharia de 1968 referentes à versão de produção que jamais saiu do papel. Isso sinalizava a intenção de continuidade entre o projeto interrompido de Bruce McLaren e o veículo que a companhia planeja disponibilizar a partir de 2028. Essa continuidade também é evidente no câmbio de console central, visto que o MCL 6GT será o primeiro McLaren com essa característica.