Apesar de a Constituição ter entrado em vigor há mais de 75 anos, persiste no país a humilhante prática de perseguição a bruxas. Esta prática é direcionada contra mulheres vulneráveis devido a preconceitos, suspeitas, superstições e medo irracional. O Supremo Tribunal expressou pesar por isso, ao mesmo tempo que confirmou a prisão perpétua para duas pessoas que mataram uma mulher na aldeia tribal de Odisha em fevereiro de 1998.
O painel de juízes Prashant Kumar Mishra e N. V. Andjariya observou que os aspetos deste caso causaram preocupação ao tribunal. A mulher, rotulada como praticante de feitiçaria, foi brutalmente atacada diante dos olhos da sua filha. O painel questionou: «Que impacto isto deveria ter tido na filha falecida, que deveria ser testemunha do assassinato da sua mãe da forma mais cruel?»
O juiz Mishra, que redigiu a decisão, afirmou que a doença da perseguição às bruxas continua a afetar partes da sociedade onde preconceitos, superstições e medo irracional prevalecem sobre o Estado de direito e a moral constitucional. Ele salientou que a crueldade associada a este fenómeno vai muito além do ato de assassinato; as vítimas, predominantemente mulheres, são submetidas a tortura, agressões, violência sexual e isolamento social. Nestas circunstâncias, crenças ou medos supersticiosos recebem prioridade, levando mulheres vulneráveis a tornarem-se vítimas de hostilidade coletiva.
Em fevereiro de 1998, a filha de Manobodhai Naik morreu numa remota aldeia tribal do distrito de Sundargarh. Os membros da família alegaram que a morte ocorreu devido à prática de feitiçaria supostamente praticada por Puni Naik. Uday Aram levou Puni Naik para a casa de Naik e, juntamente com um cúmplice, agrediu-a brutalmente com paus, o que levou à sua morte. O tribunal de primeira instância condenou este par em 2002, mas o Tribunal Superior de Orissa demorou duas décadas para confirmar a sentença e impor a prisão perpétua.
Os juízes Mishra e Andjariya observaram que, por vezes, nas situações mais difíceis, é mais fácil acusar uma mulher de atos que ela não cometeu, o que reflete um preconceito social profundamente enraizado que frequentemente procura bodes expiatórios em vez de soluções. Nesses casos, a «razão» deve prevalecer, pois a razão é a única virtude que serve de bastião contra a irracionalidade coletiva.
O Supremo Tribunal lembrou que a Constituição garante a igualdade, promove a fraternidade e apela aos cidadãos para adotarem um temperamento científico, a fim de eliminar práticas humilhantes contra as mulheres. No entanto, o Tribunal observou que tais práticas, como a perseguição a bruxas, continuam a existir em certas camadas da sociedade. Concluiu que a democracia constitucional, como a sua própria, não pode sobreviver se tais práticas humilhantes continuarem a desviar-se dos princípios do Estado de direito e da moral constitucional.

