O porta-voz da UNICEF, Ildefonso González, afirmou que a questão dos menores em Ceuta não deve ser tratada como um debate político, mas sim como uma garantia de direitos e proteção para todas as crianças, independentemente da sua origem.
A UNICEF Espanha destacou que Ceuta, um pequeno território espanhol no Norte de África, recebeu 72.000 pessoas na semana anterior, incluindo centenas de menores sem acompanhamento adulto. A agência ressaltou que a cidade carece de capacidade para lidar com a situação dessas crianças e adolescentes.
González classificou a situação como uma crise migratória de contingência, exigindo uma resposta urgente e rápida para oferecer o melhor acolhimento possível aos menores. O porta-voz fez um apelo para que as mais de mil crianças desacompanhadas já identificadas em Ceuta fossem transferidas para estruturas de acolhimento em outras partes da Espanha.
Ele relatou que muitas crianças e adolescentes permanecem nas ruas, sem registro das autoridades, escondidos em diversos locais da cidade, e que existem menores feridos. A organização não governamental Save The Children também levantou preocupações sobre o risco de meninas em Ceuta serem vítimas de agressões sexuais, tráfico e exploração, especialmente aquelas fora dos centros de acolhimento.
Em um comunicado, a Save The Children enfatizou que o sistema de assistência a menores de Ceuta está sob «pressão extraordinária» e sem meios para gerir a situação na cidade. Além disso, a ONG manifestou receio de que alguns dos menores que chegaram na semana passada ainda não tenham sido localizados e possam permanecer em situação de rua sem acesso a um local seguro.
Na segunda-feira, a Save The Children já havia alertado para o «grave risco» de muitos menores permanecerem fora do sistema de proteção em Ceuta. As autoridades já confirmaram a identificação de 528 menores desacompanhados que entraram ilegalmente na cidade na semana passada, embora o delegado do Governo de Espanha no território tenha admitido que há mais crianças nas ruas.
Miguel Ángel Pérez informou que, até o momento, não existe um «número oficial» de entradas de menores nessa onda de 72.000 pessoas. Atualmente, os centros de acolhimento de Ceuta abrigam 1.100 menores, e as autoridades anunciaram a preparação de dois armazéns industriais e duas escolas para acomodar urgentemente os centenas já identificados e os que forem encontrados nas ruas.
Antes do grande fluxo de quinta-feira, as autoridades da cidade autónoma já haviam alertado que havia cerca de 800 menores estrangeiros desacompanhados nos centros de acolhimento, uma situação que já era considerada de colapso. O presidente do governo da cidade autónoma, Juan Jesus Vivas, do Partido Popular (PP, direita), declarou na quarta-feira que o atendimento atual excede em 2600% a capacidade oficial dos centros de menores de Ceuta e solicitou «socorro, auxílio e solidariedade» dos demais executivos regionais da Espanha.
A legislação espanhola determina que os governos regionais são responsáveis pela tutela dos menores estrangeiros que chegam aos seus territórios sem acompanhamento adulto. Em casos de superlotação, essas crianças e adolescentes devem ser distribuídos por outras regiões. No entanto, governos regionais como os da Extremadura ou Aragão, liderados pelo PP em coligação com o Vox (extrema-direita), já comunicaram que não acolherão menores de Ceuta, apesar do executivo espanhol lembrar que existem recursos legais para forçar esse acolhimento.
Adicionalmente, o Governo de Espanha anunciou na terça-feira a alocação de uma verba extraordinária de 25 milhões de euros para Ceuta, destinada especificamente à assistência aos menores desacompanhados presentes na cidade.