Uma equipe de pesquisadores do Japão obteve sucesso na produção de fêmeas de camundongos a partir de células de animais machos, empregando um experimento que une clonagem e edição genética. Este avanço foi realizado por cientistas vinculados à Universidade de Yamanashi e ao Riken BioResource Research Center.
O método utilizado baseia-se na tecnologia CRISPR, denominada Y-CUT, que possui a capacidade de remover o cromossomo Y de células masculinas. Os testes, conduzidos em embriões e células clonadas de camundongos, resultaram em animais com apenas um cromossomo X, configurando o padrão XO.
Este estudo, divulgado em agosto de 2026 em um preprint ainda sem avaliação por pares, sugere uma potencial aplicação na conservação de espécies ameaçadas. A estratégia seria particularmente útil em cenários onde restam apenas machos de uma determinada espécie, embora ainda existam limitações significativas para sua aplicação em outros mamíferos.
A investigação partiu de uma característica biológica comum aos mamíferos: fêmeas geralmente possuem dois cromossomos X, enquanto os machos apresentam um X e um Y. A equipe, sob a liderança de Takashi Ishiuchi, focou em interferir neste sistema removendo o cromossomo Y de células masculinas.
Para isso, os cientistas desenvolveram o Y-CUT, uma ferramenta que age em uma área específica do cromossomo Y ligada à sua transmissão durante a divisão celular. Ao aplicar esta ferramenta em embriões de camundongos com cromossomos XY, os pesquisadores conseguiram eliminar o Y antes de transferi-los para fêmeas que atuaram como mães substitutas.
Os animais gerados exibiram a configuração XO. Os pesquisadores relataram que essas fêmeas desenvolveram-se normalmente e demonstraram capacidade reprodutiva, um aspecto crucial para o futuro uso desta abordagem.
Em uma fase subsequente, a equipe integrou este procedimento com uma técnica de clonagem convencional. O núcleo de uma célula adulta, contendo o material genético do doador, é inserido em um óvulo previamente desprovido de seu próprio DNA. Posteriormente, o Y-CUT era aplicado nessas células clonadas para excluir o cromossomo masculino.
Esse processo possibilitou a criação de fêmeas geneticamente idênticas aos machos que forneceram as células, exceto pela ausência do cromossomo Y. Os pesquisadores também conseguiram replicar a estratégia utilizando células masculinas que haviam sido mantidas congeladas.
Um outro achado expandiu as possibilidades do método: tanto machos quanto fêmeas produzidos pela técnica conseguiram acasalar e gerar descendentes saudáveis. Para os autores, isso abre a perspectiva de utilizar amostras guardadas em bancos de material biológico, conhecidos como «zoológicos congelados», que arquivam células e tecidos de diversas espécies.
A preservação de animais em risco é um dos principais motivos citados para o desenvolvimento da técnica. Enquanto a clonagem tradicional replica o material genético de um indivíduo, se o doador for macho, seus clones tenderão a ser machos. Assim, em populações compostas apenas por machos, a clonagem usual não solucionaria a carência de fêmeas necessárias à reprodução.
A capacidade de gerar ambos os sexos a partir de material masculino pode aumentar esse leque de opções. Ben Novak, cientista da organização Revive & Restore, opinou que a variedade de ferramentas deste tipo pode ser muito útil em diferentes contextos envolvendo espécies raras ou ameaçadas.
Contudo, o método ainda não representa uma solução universal. A técnica exige óvulos sem material genético próprio, os quais devem ser obtidos de fêmeas da mesma espécie ou de uma espécie próxima, o que impede sua aplicação em casos onde apenas fêmeas estivessem disponíveis.
Existe também uma restrição biológica associada aos cromossomos XO. Embora a fertilidade observada nos camundongos favoreça os testes experimentais nesta espécie, outros mamíferos com essa constituição cromossômica podem sofrer infertilidade. O estudo ressalta que essa diferença diminui a chance de aplicar o método diretamente a outras espécies.
Os pesquisadores estimam que outras tecnologias poderão complementar o Y-CUT. Trabalhos anteriores já demonstraram a produção de óvulos a partir de células masculinas de camundongos, o que poderia suprir a necessidade de óvulos para a clonagem. Outra linha de pesquisa mencionada visa adicionar um segundo cromossomo X às células, com o intuito de restaurar a fertilidade das fêmeas criadas.
A estratégia também pode ser combinada com abordagens inversas, aplicáveis quando uma população tem fêmeas, mas necessita de machos. Recentemente, pesquisadores da Universidade de Yamanashi demonstraram a possibilidade de introduzir cromossomos de ratos em camundongos, um feito que, segundo Novak, pode auxiliar futuramente na produção de embriões XY.
Para Monika Ward, bióloga reprodutiva da Universidade do Havaí, que não participou do projeto, o método também pode ser valioso para pesquisas com animais geneticamente modificados. A produção de clones machos e fêmeas de um mesmo animal modificado poderia diminuir custos e tempo de experimentos, além de servir como instrumento para estudar o funcionamento dos cromossomos sexuais.
O estudo ainda aguarda a revisão por pares, e os próprios resultados indicam que o Y-CUT requer outras tecnologias e condições biológicas específicas para atingir aplicações mais amplas. Apesar disso, o experimento inaugura uma nova possibilidade na clonagem: gerar indivíduos femininos capazes de se reproduzir a partir de material genético masculino.



