A Casa LJ, uma residência de 585 m² localizada em um dos primeiros bairros residenciais de Ahmedabad, fora da cidade murada, aborda a tensão entre o desejo de amplitude espacial e a cultura da vida comunitária presente nas áreas urbanas indianas.
O projeto, desenvolvido pelo Studio Saransh em parceria com o IKSOI Studio, foca em dar primazia à convivência coletiva em detrimento dos espaços estritamente individuais, seguindo a lógica espacial das tradicionais casas pol, mas sem simplesmente replicá-las.
O processo de concepção foi colaborativo e iterativo, investigando como o planejamento espacial, a forma construída e os modos de habitar poderiam ser resolvidos. O programa exigia uma moradia multifamiliar para uma família de seis pessoas, com a capacidade de operar como uma única residência ou como duas unidades autônomas futuramente, atendendo à necessidade de um lar maior em um terreno urbano limitado.
O desenho iniciou-se com uma reorganização intencional dos espaços no nível programático, levantando a questão se a grande área dedicada a ambientes particulares poderia ser realocada para o espaço comum. Esta ideia se inspira nas casas pol, onde os aposentos são destinados primariamente ao repouso e às atividades diárias, enquanto a vida coletiva se desenrola em áreas de passagem, pátios e zonas de circulação compartilhadas.
O pavimento térreo foi concebido como um ambiente coletivo amplo, integrando salas de estar, jantar e cozinha em um plano aberto para maximizar a flexibilidade de uso. Estes espaços se estendem para uma série de pátios dispostos nas laterais do projeto, garantindo iluminação e ventilação, ao mesmo tempo que mantêm uma interação controlada com a rua através de um muro alto que serve como barreira acústica e visual.
Nos andares superiores, a organização se dá em núcleos mais compactos, cada um contendo dois quartos e uma sala de estar compartilhada que complementa os cômodos. Essa configuração possibilita que cada andar funcione como uma unidade independente se for necessário no futuro, ecoando o conceito de empilhamento vertical visto nas casas pol, onde diversas gerações ocupam diferentes níveis da mesma estrutura.
O último pavimento apresenta um terraço parcialmente fechado, destinado ao uso tanto coletivo quanto individual em distintos momentos do dia. Este espaço finaliza a progressão vertical da residência, movendo-se de uma base mais fechada e ligada ao solo para uma condição mais aberta e elevada, servindo como uma área habitável ativa para usos domésticos cotidianos e sazonais.
A movimentação interna é estruturada em torno de uma escada central e um vazio adjacente que introduz luz natural ao ambiente. A escada possui um design propositalmente descontínuo, com cada lance se abrindo para uma sala de estar, uma referência direta à lógica das casas pol, onde a circulação está integrada aos espaços comuns para fomentar os encontros diários.
Adicionalmente, o vão da escada cria uma conexão visual entre os diferentes níveis, permitindo monitorar o movimento no piso inferior por razões de segurança. A geometria dinâmica, que lembra um coração assimétrico, gera condições espaciais diversificadas, fazendo com que cada nível seja experienciado de maneira singular, ainda que faça parte de um volume contínuo.
A forma construída da casa foi determinada pelas restrições do tamanho do lote, pelo programa do cliente e pelo clima quente da cidade. A necessidade de unidades adaptáveis e um perfil compacto resulta em um volume empilhado verticalmente, configurado como um invólucro denso e voltado para o interior. Aberturas e vazios foram cuidadosamente modelados para gerenciar simultaneamente a luz, a privacidade e o ganho de calor. Um muro elevado reforça a sensação de um volume único e ininterrupto.
Nos pavimentos superiores, a modulação da forma é feita por perfis curvos, resultado de várias necessidades práticas: diminuir a carga estrutural estática, minimizar superfícies planas suscetíveis ao acúmulo de poeira e quebrar a rigidez visual do bloco vertical. Estas curvas completam a massa como uma sucessão de patamares invertidos, suavizando o perfil enquanto mantêm seu caráter monolítico geral.
A adaptação climática está incorporada à edificação. As fachadas externas utilizam camadas duplas e colchões de ar para mitigar o aquecimento. Grandes aberturas estão concentradas no térreo para permitir a entrada de luz natural, enquanto as dos andares superiores são recuadas e dimensionadas conforme sua orientação, restringindo a exposição solar direta. As aberturas na fachada são mantidas minimizadas, alinhando-se à lógica climática de Ahmedabad, onde poucas janelas proporcionam melhor desempenho térmico. A ventilação cruzada é assegurada em todos os níveis por meio de um pátio central e vazios.
A seleção de materiais é contida. O exterior recebe um revestimento texturizado em tons terrosos, conferindo ao prédio uma presença harmoniosa em seu entorno denso. A pedra é aplicada seletivamente em bordas e superfícies de desgaste. Internamente, um único tipo de piso percorre toda a casa, promovendo a clareza espacial. Paredes, pisos e tetos possuem acabamentos foscos de baixo contraste, visando a percepção de um volume coeso, com arestas suavizadas que reforçam a ideia de uma forma esculpida. A escada, por outro lado, é detalhada em um tom mais escuro para se destacar como ponto de ancoragem em um interior majoritariamente monocromático.
O mobiliário é tratado como uma camada distinta dentro deste invólucro arquitetônico. Fabricados majoritariamente em madeira de teca local, os móveis adicionam calor e escala, mantendo, contudo, uma separação visual nítida da arquitetura. O maior contraste entre os móveis e o interior suave sublinha essa distinção, permitindo que sejam vistos como objetos inseridos em um volume contínuo, e não como extensões da própria construção.
Em suma, a Casa LJ redefine a moradia urbana contemporânea ao reajustar a distribuição, o compartilhamento e a forma de habitar o espaço. Em um lote restrito, ela alcança a amplitude espacial através de quartos privados compactos e áreas coletivas extensas, organizadas em uma estrutura verticalizada que facilita a vida compartilhada e a adaptabilidade futura. Assim, o projeto reinterpreta o minimalismo como uma redistribuição de espaço, priorizando a vida coletiva em detrimento da área de uso individual.

