Astrônomos conseguiram identificar perto de dois milhões de fontes de raios X através do segundo grande catálogo público gerado pelo telescópio espacial eROSITA. Este levantamento expande significativamente o inventário de objetos conhecidos no universo de alta energia, englobando buracos negros supermassivos, estrelas, aglomerados de galáxias e resíduos de estrelas que sofreram explosões.
O catálogo, denominado DR2, foi compilado a partir das três primeiras varreduras completas do céu realizadas pelo observatório, totalizando 556 dias de observação. A vasta quantidade e a consistência dos registros possibilitam investigações sobre fenômenos extremos, auxiliando na busca por respostas acerca do crescimento de buracos negros, da evolução galáctica e da formação das maiores estruturas cósmicas.
A missão eROSITA, liderada pela Alemanha, não só produz este levantamento, mas também aumenta a capacidade de correlacionar as fontes de raios X com objetos detectados em outras faixas do espectro eletromagnético. Isso permite aos cientistas diferenciar os diversos tipos de corpos celestes e definir com maior exatidão sua posição na escala de distâncias universais.
A maioria das descobertas do DR2 consiste em fontes pontuais, ultrapassando 1,9 milhão de registros. Estes são majoritariamente buracos negros supermassivos ativos, situados nos núcleos de galáxias distantes, e estrelas pertencentes à Via Láctea. Os buracos negros ativos são cruciais para entender a transformação das galáxias ao longo de bilhões de anos, enquanto as fontes estelares ajudam a estudar os ciclos de vida e atividades estelares.
O catálogo também inclui cerca de 64 mil fontes classificadas como objetos extensos. Entre estes, encontram-se grandes aglomerados de galáxias, galáxias próximas e vestígios de explosões estelares. Tais aglomerados servem como marcadores da distribuição das maiores estruturas cósmicas e podem contribuir para os estudos sobre a influência da matéria escura e da energia escura na evolução do universo.
A observação em raios X é fundamental porque revela ambientes que não se destacam facilmente na luz visível. Por exemplo, ao se aproximar de um buraco negro, a matéria pode atingir temperaturas de milhões de graus antes de cruzar o horizonte de eventos. Outros emissores detectáveis nesta faixa incluem estrelas de nêutrons, remanescentes de supernovas e o gás extremamente quente encontrado em aglomerados de galáxias.
Um aspecto notável deste novo levantamento é a correlação estabelecida entre as fontes de raios X e observações correspondentes no infravermelho e na luz óptica. Essa combinação instrumentaliza os astrônomos a determinar se um registro específico pertence a uma estrela próxima, uma galáxia distante, um buraco negro ativo ou outro fenômeno energético.
Nas partes do catálogo onde tais correspondências já foram confirmadas, aproximadamente 88% dos objetos estão ligados a galáxias distantes que possuem buracos negros supermassivos em fase de alimentação.
Miriam E. Ramos-Ceja, gerente do segmento terrestre do instrumento eROSITA e principal autora da publicação sobre o DR2, afirmou que o catálogo configura um inventário excepcionalmente vasto do céu em raios X, criando bases sólidas para análises estatísticas das populações cósmicas.
Mara Salvato, porta-voz da eROSITA e presidente do grupo responsável pelo monitoramento das fontes, enfatizou que a detecção de emissão em raios X é apenas o ponto de partida. A identificação dos correspondentes em outras bandas espectrais possibilita definir a natureza dos objetos, sua localização na escala cósmica de distâncias e a formação de conjuntos de dados mais bem estruturados.
A magnitude do DR2 oferece aos pesquisadores a oportunidade de comparar grandes grupos de objetos sob condições similares, o que pode facilitar a descoberta de padrões que seriam ignorados em amostras menores de observação. As possibilidades de estudo abrangem a reconstrução da trajetória de crescimento dos buracos negros supermassivos ao longo de bilhões de anos, o mapeamento de aglomerados de galáxias e a busca por objetos raros ou singulares.
Embora o eROSITA tenha finalizado suas observações científicas no começo de 2022, o material coletado antes da paralisação foi suficiente para suportar novas divulgações públicas de dados. A próxima iteração do catálogo, denominada DR3, está prevista para ser lançada em 2028.



