O projeto de paisagismo intitulado 'Contos de Água' (AR-AR) da Martínez Arquitectura y Paisaje consiste em uma iniciativa para promover o reflorestamento e a recuperação de uma área de floresta de neblina, situada na zona rural do município de Villamaría, no departamento de Caldas, ao longo da Rota do Cóndor, especificamente na sub-bacia do Rio Claro e na bacia do Rio Chinchiná.
Anteriormente, este terreno era utilizado para pastagem e atividades pecuárias, o que resultou no desmatamento da floresta nativa para dar lugar às áreas de pasto invasoras. Para possibilitar a restauração, a propriedade foi segmentada em três zonas distintas de reflorestamento, incorporando também abrigos de contemplação que servem tanto como moradia temporária quanto como centro de educação ambiental.
Cada zona de plantio foi adaptada às suas características específicas, visando fomentar a diversidade ecossistêmica. Na porção superior e ocidental, serão plantadas espécies pioneiras com o objetivo de regenerar o solo que foi danificado pela criação de gado. Já no lado oriental, próximo a um córrego, a plantação focará em proteger o solo fértil e oferecer refúgio às espécies do corredor de bacias.
A zona mais baixa, caracterizada por alta umidade e presença de floresta nativa, será plantada com árvores e arbustos destinados a dar suporte às aves, tanto as locais quanto as migratórias.
Em ecossistemas andinos e alto-andinos, a movimentação da água em seus estados gasoso e líquido é fundamental para a sobrevivência dos ecossistemas. Essa água, que se encontra armazenada em estruturas minúsculas suspensas no ar, circula através de plantas como musgos, epífitas e samambaias em direção às bacias hidrográficas. Tais ambientes, repletos de biodiversidade, dependem da cobertura arbórea, que desempenha funções vitais como a regulação térmica, a proteção do solo contra a erosão e a formação de microclimas ideais para a vegetação.
A recuperação dessa cobertura vegetal é considerada crucial para restabelecer as dinâmicas naturais e assegurar um fluxo de água controlado em direção aos rios.
O abrigo destinado às aves proporciona uma conexão íntima com o ambiente circundante; de seu interior, é possível perceber a floresta nativa que o cerca e o som da água dos vários córregos. A nova vegetação se integra ao abrigo, transformando-se em um elemento acolhedor. A concepção deste espaço busca fazer com que a vivência ali seja uma extensão direta do processo de restauração ecológica, permitindo que a arquitetura se torne visual e sensorialmente discreta no cenário natural.
A combinação constante de névoa, sons da água, umidade e a variedade de aves estimula a contemplação e a compreensão dos ciclos inerentes à floresta andina, reforçando o laço entre os indivíduos e o território.
O abrigo mirante está posicionado em um ponto estratégico da montanha, oferecendo uma vista espetacular do cânion esculpido pelos rios Taguambí e Rio Claro. As águas desses rios descem do Parque Nacional Natural Los Nevados, moldando a paisagem e nutrindo os ecossistemas regionais. Esta cabana demonstra como as intervenções de restauração ecológica têm possibilitado o retorno gradual da vegetação, fortalecendo a biodiversidade, a estabilidade do solo e a interconexão ecológica da área.

