Em uma coluna convidada, o autor Tandekile Mkize explora como comunidade, cultura e senso de pertencimento estão transformando o futuro da moda sul-africana, argumentando que o conceito de Ubuntu pode se tornar o próximo código de design para a indústria. O autor observa que as marcas de moda internacionais estão cada vez mais criando espaços onde a moda se cruza com música, arte, gastronomia, hospitalidade e comunidade, à medida que as pessoas procuram formas de interação mais profundas e significativas.
Mkize recorda ter sido convidado a contribuir para a série The Art of Style, patrocinada pela G-Star, para examinar a crescente transição da moda de meros produtos para experiências. Este pedido foi oportuno, pois o próprio autor está trabalhando em um novo projeto que tem como objetivo criar uma experiência de varejo de vestuário focada em pessoas e cultura.
Moda como meio de conexão
A indústria da moda tornou-se muito eloquente na linguagem da conexão. Conceitos como colaboração, pertencimento, ecossistemas criativos e intercâmbio cultural são discutidos. Há uma crescente percepção de que os consumidores procuram algo mais do que apenas coisas bonitas; eles procuram lugares onde possam se reunir e sentir-se parte de algo maior.
A marca G-Star abraçou essa mudança, posicionando a moda como uma ferramenta de intercâmbio cultural. A empresa utiliza colaborações com criadores sul-africanos para integrar a marca global de jeans no contexto cultural local. Exemplos incluem uma coleção limitada com o artista de Cidade do Cabo Russel Abrahams, conhecido como Yay Abe, e a exposição Fuata Moyo (Re)Love. Esses eventos tornaram-se catalisadores para discussões, unindo artistas, designers, figuras culturais e entusiastas da moda.
O autor questiona como seria a situação se a comunidade deixasse de ser apenas uma campanha ou uma palavra da moda e se tornasse uma prática de design. Ele levanta a questão: o que acontecerá se sairmos das intenções e começarmos a projetar com base nos valores que tão facilmente proclamamos? A moda sul-africana deve perguntar não sobre como ela fala sobre comunidade, mas sobre como ela a projeta.
Já existe uma linguagem pronta para compreender relacionamentos e reciprocidade — é o Ubuntu. Frequentemente reduzido a um provérbio conhecido, o Ubuntu é mais útil quando entendido como um modo de prática, e não apenas como uma descrição da comunidade. Ele incentiva a fazer perguntas diferentes sobre como a moda é produzida e que tipos de relações ela permite estabelecer.
Essa transição global para a moda experimental não é apenas um relatório de tendências, mas uma oportunidade de olhar de outra forma para o papel da moda em nossa vida social e cultural. A moda sul-africana tem a chance de propor seu próprio modelo, onde a comunidade é intencionalmente projetada e sustentada.
Lições de iniciativas locais
O autor não precisa inventar como isso deve ser, pois designers e trabalhadores criativos em todo o país já estão apontando nessa direção. Por exemplo, o espaço Mamakashakain em Braamfontein, embora não seja exclusivamente um espaço de moda, oferece uma das lições mais ilustrativas para a indústria. Na opinião do autor, a fundadora da Mamakashaka, Nandi Dlepu, entende que a cultura é formada através de encontros regulares.
Neste espaço, podem ocorrer vários eventos: uma semana pode ser um desfile de moda para apresentar jovens designers, a seguinte pode ser uma palestra ou conversa com figuras culturais sobre autoidentidade ou prática criativa, e outra pode ser uma festa de dança. As pessoas voltam porque confiam que eventos significativos podem acontecer em um lugar apropriado.
A moda deve aprender com esses lugares. Embora nem todas as marcas devam se transformar em centros culturais, as marcas podem criar condições para a conexão de forma mais consciente — lugares onde as descobertas acontecem naturalmente e o pertencimento se desenvolve com o tempo, em vez de ser prometido em uma campanha publicitária.
A colaboração Thebe Magugu e Wanda Lephoto intitulada Everyday Resistance demonstra outro exemplo dessa prática. Para o autor, este é um dos eventos mais significativos na moda sul-africana nos últimos anos. Em uma indústria que frequentemente recompensa uma visão criativa unificada, Everyday Resistance propõe uma abordagem diferente: a solidariedade pode ser uma força criativa.
A colaboração mostra que a moda se enriquece quando aceita o diálogo. Wanda Lephoto observou que esta colaboração significa muito para ela, pois pode trabalhar com Thebe, a quem ama, respeita e admira, e trabalham pela liberdade, o que é muito importante para ambos.
Se a comunidade é uma prática de design, então uma manifestação disso pode ser a forma como os designers apoiam uns aos outros. Everyday Resistance serve como um claro exemplo de que a solidariedade entre designers não é apenas possível, mas necessária, pois o trabalho cultural significativo é criado não no isolamento, mas na interconexão.
O designer Onesimo Bam levanta uma questão completamente diferente: quem tem direito à experiência da moda? Seus trabalhos constantemente borram as fronteiras entre moda e vida cotidiana, criando encontros acessíveis e vivos. Suas obras, das ruas de Langa e Bree Street até a majestosa Catedral de São Jorge, convencem que a moda não perde seu valor quando deixa os espaços exclusivos; pelo contrário, adquire significado cultural, tornando-se parte da vida cotidiana, e não um objeto de observação distante.
Esses exemplos diferem em forma e intenção, mas compartilham um instinto comum: unir as pessoas em torno de valores comuns e participação cultural. Eles lembram que a moda é mais significativa quando cria condições para que as pessoas não apenas consumam cultura, mas participem ativamente de sua criação.
O autor está interessado no que acontecerá se deixarmos de ver esses exemplos como casos isolados de boa prática e começarmos a vê-los como sinais de algo maior. E se o design de comunidade se tornar algo mais do que apenas ética adotada por designers ou espaços criativos individuais? E se o Ubuntu for adotado como um dos códigos orientadores para imaginar o futuro da moda sul-africana?
Talvez este seja o próximo marco — a formação de um ecossistema de moda intencionalmente projetado em torno do cuidado e da participação.