De acordo com o último relatório da Interpol sobre ameaças cibernéticas na África, a África do Sul tornou-se um centro de atividade cibercriminosa no continente. O relatório identificou estatísticas alarmantes, incluindo que a África do Sul foi responsável por 92% de todos os casos de detecção de ransomware na África, o que sublinha a necessidade urgente de melhorar as medidas de segurança cibernética.
Especialistas do setor alertam que o verdadeiro problema não reside apenas na frequência dos ataques, mas também na falha sistêmica na proteção contra eles. O relatório indica que a África do Sul registrou 92% de todas as detecções de ransomware na África, e os ataques afetaram infraestruturas críticas, como o Serviço Meteorológico Sul-Africano, a South African Airways e a Paratus Telecom da Namíbia.
Além disso, em relação aos ataques de 'negação de serviço distribuído' (DDoS), a África do Sul registou sozinha 213.523 incidentes desse tipo, um dos quais atingiu 312 Gbps, superando significativamente os indicadores de outras regiões. O phishing também foi amplamente disseminado, com a África do Sul representando quase 40% de todas as detecções de phishing na África, ficando atrás de Maurício com 22%, de acordo com dados da SOCRadar.
Apesar da existência de estruturas regulatórias avançadas, como a Lei de Cibersegurança da África do Sul e o Plano de Transformação Digital de Maurício, a região permanece vulnerável às ameaças ativadas por inteligência artificial. Tendências, como centros de fraude na Zâmbia e casos de sextorsão deepfake na África do Sul, demonstram a coexistência de infraestrutura avançada e exploração sistêmica.
Segundo a TrendAI, em 2025, 70% das detecções de comprometimento de e-mail corporativo ocorreram na África do Sul, e 29% na Nigéria. A TrendAI também registou 600.000 casos de sextorsão na África em 2025, sendo a maioria relacionada à África do Sul (30%), Quénia (13%), Costa do Marfim (11%), Etiópia (8%) e Angola (4%).
Adicionalmente, o Fundo Shadowserver identificou mais de 6.000 vulnerabilidades exploráveis em toda a África em 2025, com a maior concentração observada na África do Sul (43,6%), Quénia e Nigéria — países com a maior base de usuários de internet.
O investigador Anthony Boucher afirmou que a África do Sul é um 'ponto zero' do cibercrime na África, observando que 92% dos ataques de ransomware não são apenas estatística, mas uma crise. Ele considera que o país, sendo o mais conectado do continente, efetivamente 'tapete vermelho' para criminosos.
Boucher notou que a taxa de vulnerabilidade de 43% indica que o país não cumpre nem os requisitos básicos, pois sistemas desatualizados estão em uso. Ele também expressou choque com o uso de deepfakes e ataques automatizados pelo crime, enquanto investigadores sul-africanos não possuem as habilidades para detectá-los.
Segundo Boucher, o ataque ao Serviço Meteorológico Sul-Africano deveria ter sido um sinal de alerta, pois perturbou os sistemas aéreos não por dinheiro, mas por caos. Ele enfatizou que, apesar da existência de boas leis no papel, sua implementação é praticamente inexistente. Ele apontou a falta de ferramentas e treinamento necessários para a polícia, bem como problemas na troca de dados entre bancos e polícia sem mandado judicial, permitindo que fundos sejam retirados antes da intervenção das autoridades policiais.
Boucher também mencionou a grave escassez de pessoal em rastreamento de criptomoedas, análise de malware e detecção de IA. Ele apelou ao governo para colaborar com o setor privado e alterar a legislação para permitir a troca de informações confidenciais em emergências, insistindo na prioridade do treinamento e recursos para as forças policiais.
O professor de cibersegurança da Universidade de Joanesburgo, Basil van Solms, acredita que não há nada fundamentalmente novo no relatório, pois muitos dos problemas mencionados são conhecidos há muitos anos, mas nada está sendo feito a respeito. O principal problema, na opinião de van Solms, é a falta de vontade política por parte do governo, o que é confirmado pelos relatórios do Auditor Geral nos últimos cinco anos, que mostram constantemente que 50-70% dos sistemas de TI governamentais auditados contêm vulnerabilidades conhecidas e não corrigidas.
Ele acrescentou que o obstáculo para resolver esses problemas é a constante ausência de vontade política para agir com base nessas conclusões. Van Solms supôs que, se não houver fundos, os sistemas não devem ser usados. Além disso, ele apontou o uso de sistemas obsoletos pela África do Sul, cujas licenças expiraram em alguns casos. O segundo problema, em sua opinião, é a baixa conscientização pública sobre cibersegurança, visto que métodos de ataque, como phishing e sextorsão, baseiam-se na ignorância do usuário final sobre os riscos do uso do espaço cibernético.

