Em julho, foram registrados 15 casos e 26 violações da liberdade de expressão durante o estado de emergência causado pelo duplo terremoto, bem como sob restrições à internet. Mais de 76% desses casos estavam relacionados a intimidação e censura, sendo que catorze dos dezoito vítimas identificadas eram jornalistas ou repórteres (77,78%), de acordo com uma declaração da EP na segunda-feira.
A EP, organização que promove os direitos humanos e a liberdade de expressão, observou que o mês também foi caracterizado por uma tendência em declarações oficiais visando desacreditar o trabalho jornalístico durante a cobertura da emergência.
Por exemplo, em 2 de julho, a presidente interina Delcy Rodríguez utilizou o conceito de 'laboratórios de mídia' para justificar a militarização do estado de La Guaira, mais afetado pelos terremotos, e para diminuir as reclamações dos cidadãos sobre a lentidão dos trabalhos de resgate.
Além disso, em 15 de julho, o ministro do Interior, Diosdado Cabello, 'intensificou o tom de seu discurso' e classificou na televisão estatal a cobertura da imprensa estrangeira em La Guaira e Caracas como 'guerra midiática', usando termos depreciativos em relação aos jornalistas.
No mesmo dia, o governador de Monagas, Ernesto Luna, exigiu oficialmente que os meios de comunicação e jornalistas locais suspendessem por 15 dias qualquer informação relacionada aos terremotos, condicionando a exibição do programa 'Monagas Solidário', que presta ajuda a 612 deslocados, a esta pausa informativa.
A organização alertou que o decreto que declarou o estado de emergência devido ao duplo terremoto 'deve ser transparente e garantir o acesso à informação pública, e não servir apenas como base legal para a gestão da crise'.
Ela enfatizou que este aviso se confirmou após um mês do terremoto: 'as falhas institucionais continuam'.
Segundo a EP, o Fundo Venezuelano de Pesquisas Sismológicas publicou boletins técnicos com atrasos injustificados em momentos críticos após o duplo terremoto, e as autoridades classificaram a crítica à falta de transparência e à resposta lenta como uma 'matriz politizada'. Além disso, persistiram restrições à cobertura jornalística do necrotério e da infraestrutura destruída, bem como bloqueios de informação que violam a Constituição.
A organização observou que a análise do acesso à informação pública revelou uma omissão na publicação de dados relacionados à gestão da emergência.
A Venezuela recebeu promessas de ajuda de 37 países no valor de mais de 780 milhões de dólares (675,4 milhões de euros), mas não há informações públicas sobre como essa ajuda está sendo distribuída, o que cria terreno fértil para a corrupção, alertou a EP.
A EP também explicou que o serviço de internet foi gravemente afetado nas áreas mais atingidas e é limitado em todo o território venezuelano. 'Essas falhas agravam o isolamento informacional das comunidades afetadas pelos terremotos, dificultando tanto a cobertura jornalística quanto o acesso dos cidadãos a informações vitais sobre a emergência', acrescentou a organização.
A EP afirmou que dois portais perderam contas na rede social Instagram devido a denúncias falsas, o que é uma estratégia de uso de direitos autorais para silenciar o jornalismo.
O documento conclui explicando que a notificação sobre o Estatuto de Roma, recebida de Delcy Rodríguez em 24 de julho, 'agrava o isolamento jurídico internacional do país, deixando os cidadãos em uma situação de maior vulnerabilidade perante o Tribunal Penal Internacional'.
Os terremotos de magnitude 7,2 e 7,5, registrados na Venezuela em 24 de junho, resultaram na morte de pelo menos 6.301 pessoas e ferimentos em 73.356 pessoas, de acordo com o último relatório oficial publicado na segunda-feira. Entre os mortos, há pelo menos 138 portugueses e descendentes de portugueses.

