Um estudo recente sugere que o canto dos pássaros adota o mesmo padrão estatístico encontrado na linguagem humana. Especificamente, o português, assim como a maioria dos idiomas globais, obedece à Lei de Zipf, uma regra matemática que estabelece que a palavra mais frequente em um texto ocorre duas vezes mais que a segunda mais usada, que por sua vez aparece três vezes mais que a terceira, e assim sucessivamente.
Um artigo divulgado na revista Science Advances demonstrou que o canto do pássaro Manon (Lonchura striata domestica) segue exatamente esse padrão estatístico. Os especialistas acreditam que as aves desenvolveram essa técnica para simplificar o processo de aprendizado de seus cantos, facilitando sua transmissão entre gerações.
George Kingsley Zipf, linguista norte-americano, identificou esse padrão entre seres humanos há quase cem anos, durante seu tempo de ensino em Harvard na década de 1930. Ele observou, por exemplo, que no inglês, o artigo mais comum é o 'the', enquanto em português seriam 'o' ou 'a' e suas formas plurais; as segundas palavras mais comuns seriam 'and' e 'of' no inglês, correspondendo a 'e' e 'de' em português.
Embora seja improvável que o padrão nos cantos dos pássaros possua um significado específico como nas línguas humanas, tais descobertas questionam a ideia de que a linguagem humana é exclusiva. Simon Kirby, cientista cognitivo e autor do estudo para a Scientific American, comentou que 'de repente, temos espécies não relacionadas que fazem algo semelhante ao que os humanos fazem', acrescentando que isso propõe uma nova classificação para os sistemas de comunicação mundiais.
Kirby especula que a distribuição de Zipf pode ser mais fácil de assimilar, e ele hipotetiza que os sons (gorjeios e pios) mais utilizados funcionam como referências, ajudando ouvintes iniciantes a distinguir onde um som termina e o próximo começa. Isso é análogo ao reconhecimento de frases em idiomas desconhecidos pelos humanos, onde palavras-chave fornecem pistas contextuais.
Para diferenciar os gorjeios sem compreender a 'língua dos Manon', os pesquisadores empregaram um algoritmo baseado na forma como se presume que os bebês processam a linguagem. A equipe analisou centenas de amostras de cantos, fragmentando-as e medindo a frequência de cada unidade segmentada.
Este mesmo padrão de Zipf já havia sido registrado no ano anterior no canto das baleias-jubarte, indicando que ele emergiu em pelo menos três linhagens evolutivas distintas ao longo de milhões de anos. Além disso, dado que os cantos de aves canoras são herdados, Kirby sugere que padrões similares podem auxiliar o aprendizado em aves jovens, assim como a Lei de Zipf auxilia bebês humanos a absorver a linguagem circundante. Os pesquisadores agora pretendem investigar outros paralelos com a linguagem humana que possam facilitar o aprendizado nessas espécies.


