O livro «Arquitetura da Vida» é a primeira coletânea de ensaios em inglês de um renomado casal de arquitetos, cujos trabalhos incluem projetos conhecidos como o Fuji Kindergarten e o Roof House, juntamente com inúmeras outras obras.
O livro «Arquitetura da Vida» é a primeira coletânea de ensaios em inglês de um renomado casal de arquitetos, cujos trabalhos incluem projetos conhecidos como o Fuji Kindergarten e o Roof House, juntamente com inúmeras outras obras.
Além de plantas e fotografias, este livro aborda uma filosofia que é ao mesmo tempo radical e óbvia: como criar espaços e lugares confortáveis que promovam o florescimento da experiência humana através da liberdade, dignidade e alegria.
Os autores baseiam seus ensaios em suas experiências de vida pessoais, bem como nas trajetórias das pessoas que os inspiraram. Neles estão integradas concepções culturais e filosóficas emprestadas do Japão e de outras regiões.
Estes ensaios demonstram como a arquitetura pode unir as pessoas entre si e com o mundo ao redor. Combinando narrativa pessoal e reflexão filosófica, o livro serve simultaneamente como crítica às circunstâncias atuais e manifesto em favor de novas abordagens.
A arquitetura tradicionalmente é vista como uma criação exclusivamente humana, destinada aos seres humanos. Contudo, em sua obra 'We the Bacteria: Notes Toward Biotic Architecture', Beatriz Colomina e Mark Wigley contestam essa noção, defendendo que os microrganismos foram os verdadeiros inventores da arquitetura.
Essa perspectiva abre caminho para uma narrativa alternativa da arquitetura, desviando o foco do excepcionalismo humano para os microrganismos que moldaram a vida, os ambientes e o mundo construído ao longo de bilhões de anos. O livro explora a ideia de que a arquitetura está intrinsecamente ligada aos mundos microbianos que a formam, sugerindo que 'a arquitetura habita os seres humanos tanto quanto os seres humanos habitam a arquitetura'.
Colomina e Wigley descrevem os edifícios não como objetos estáticos, mas como ecossistemas dinâmicos, comparando-os a 'um intestino expandido compartilhado com outros', onde micróbios, materiais, pessoas e diversas outras formas de vida convivem, trocam e evoluem continuamente.
Ao revisitar a história da arquitetura sob este prisma, 'We the Bacteria' demonstra como epidemias, práticas de higiene e mudanças na compreensão biológica impactaram profundamente os espaços construídos, desde os primeiros assentamentos até o surgimento da arquitetura moderna. Segundo os autores, 'os seres humanos, os patógenos microbianos e a arquitetura modificaram-se em resposta uns aos outros e continuaram a coevoluir por milênios.'
O livro também introduz o conceito de arquitetura biótica, propondo uma visão futura que questiona o que a arquitetura poderia se tornar ao priorizar a coexistência em detrimento da exclusão. Eles argumentam que 'a própria ideia de abrigo muda de excluir o perigo para incluí-lo', incentivando a reimaginação da arquitetura como um espaço promotor de relações entre espécies, em vez de um agente de separação.
Em uma conversa com o ArchDaily, Beatriz Colomina e Mark Wigley reforçaram que 'Somos inteiramente bacterianos, assim como os edifícios, os materiais de que são feitos e o mundo mais amplo em que se inserem.' Eles afirmam que as bactérias atuam como arquitetas, operárias, clientes e profissionais de manutenção, produzindo tudo o que percebemos, inclusive organizando nossa percepção, pensamento e sentimentos.
A arquitetura, nesse sentido, é apresentada como algo sempre vivo, em constante composição e decomposição, refutando a ilusão de ser um objeto inerte e estático. Essa visão ilusória, contudo, teve um impacto negativo na biosfera, o espaço vital do planeta há aproximadamente 4,2 bilhões de anos, desde o surgimento das primeiras bactérias.
Ao analisar momentos cruciais da história da arquitetura, os autores destacam a rápida esquecimento dos efeitos destrutivos das doenças bacterianas, um fenômeno que eles chamam de 'amnésia coletiva', apesar de edifícios e cidades serem constantemente remodelados por traumas epidêmicos. Essa amnésia é perpetuada pela historiografia da arquitetura, que obscurece o fato de que a arquitetura moderna foi profundamente influenciada pela luta contra a tuberculose, que era fatal para um em cada três habitantes das grandes cidades.
A arquitetura moderna, por sua vez, concebeu-se como um antídoto, com cada elemento — como superfícies lisas e brancas, grandes painéis de vidro e terraços-jardim — desenhado para resistir às bactérias. Embora arquitetos modernos se descrevessem como bacteriologistas, as narrativas históricas tendem a higienizar a arquitetura, removendo sua dimensão microbiana.
Os autores concluem que o ambiente construído é moldado pela doença, estabelecendo que 'Não existe arquitetura sem doença e, talvez, nenhuma doença sem arquitetura.' Eles apontam que, embora a saúde tenha sido central na teoria arquitetônica, os edifícios são inerentemente insalubres, pois lutam contra ameaças apenas para gerar novas. Os primeiros abrigos permanentes, há dez mil anos, já utilizavam argamassa de cal, com propriedades antibacterianas e antifúngicas, criando uma separação protetora dos micróbios, plantas, animais e insetos.
Paradoxalmente, a arquitetura, enquanto projeto antibacteriano, estimula o crescimento de bactérias específicas, incluindo patógenos letais. Ela teme a vida que transcende o humano, mas simultaneamente fomenta e remodela essa vida, englobando as comunidades de cem trilhões de micróbios presentes em cada ser humano.
Os princípios antimicrobianos da arquitetura moderna persistem na prática atual, tendo sido aprimorados com revestimentos de nanopartículas em superfícies, móveis e brinquedos. No entanto, os autores alertam que o uso excessivo desses agentes antimicrobianos representa um abuso que agora ameaça em vez de proteger. A contra-medida proposta é o uso de materiais que acolham a diversidade microbiana, aumentando a porosidade entre o interior e o exterior, e reconectando-se ao solo microbiano rico onde a espécie humana evoluiu por doiscentos mil anos.
O conceito de que 'a arquitetura habita os seres humanos tanto quanto os seres humanos habitam a arquitetura' implica que ocupar um espaço significa absorver os micróbios que ali residem, através da respiração e do toque. A arquitetura está internamente presente, fluindo através de nós. Os edifícios são repletos de micróbios que ocupam cada detalhe, e a aparente solidez de qualquer superfície é desfeita pela complexidade e mobilidade da vida circundante.
Habitar um local é permitir-se ser habitado por este ambiente microbiano coletivo e vibrante. Se os profissionais da arquitetura enxergassem os edifícios como ecossistemas vivos, e não meros receptáculos, o design precisaria mudar para curadoria de comunidades transespécies. Um paralelo é o sistema imunológico: em vez de apenas repelir ameaças, um sistema saudável gerencia ativamente comunidades microbianas, convidando certas ameaças a entrar.
Assim, o design deve migrar da lógica de proteção externa para a de acolhimento, promovendo a vida. O conceito de 'arquitetura biótica' não é definido rigidamente, pois não é uma virtude singular. O problema atual é a monocultura arquitetônica. O termo biótico remete à vida, que é múltipla, simbiótica e mutável.
O discurso de sustentabilidade foca unicamente no ser humano, ignorando que a biosfera sobreviverá a qualquer nível de destruição causada pela espécie humana. Descentralizar o humano é uma necessidade urgente. Isso não significa descartar os seres humanos, mas sim aprofundar o entendimento sobre nós mesmos, abraçando os cem trilhões de micróbios que nos compõem. O ser humano, visto sob a ótica arquitetônica desde Vitrúvio, torna-se uma ficção, mais inerte que qualquer edificação.
O potencial transformador reside na diversidade de experimentos envolvendo materiais vivos, fungos, algas e bactérias, e não em um único desenvolvimento. Atualmente, a colaboração ativa com micróbios está transformando a indústria da construção civil e os profissionais de design. Por exemplo, o concreto, grande emissor de carbono, está sendo sintetizado com bactérias ou contendo-as internamente, permitindo...