As algas marinhas que crescem ao longo da costa indiana podem estar mais perto do consumidor do que se pensa. Essas algas podem contribuir para a textura cremosa do sorvete, prevenir a separação de ingredientes na pasta de dente ou até mesmo fazer parte de medicamentos.
Apesar de raramente serem notadas ou conhecidas pelos seus nomes, existem mais de 800 espécies de algas marinhas ao longo da linha costeira de 7.500 quilômetros da Índia. Entre elas, há espécies vermelhas fixadas em rochas perto de Tamil Nadu e espécies verde-claras encontradas nas águas costeiras rasas. Cerca de 60 dessas espécies têm valor comercial, e algumas já são usadas em farmacêutica, cosmética, indústria alimentícia e laboratórios.
Por exemplo, a consistência suave do sorvete e a ausência de cristais de gelo podem ser parcialmente explicadas pela carragenina — um espessante e estabilizador natural obtido de algas vermelhas. Este mesmo componente ajuda a distribuir uniformemente o cacau no leite com chocolate.
Este é apenas um exemplo. Três extratos principais de algas — carragenina, agar e alginato — formam uma indústria global avaliada em mais de meio bilhão de dólares. De acordo com um relatório do Banco Mundial de 2023, prevê-se que 10 mercados emergentes de algas atinjam um volume de 11,8 bilhões de dólares até 2030.
O apelo das algas também deve-se à forma como são cultivadas: não requerem terras agrícolas, água doce, fertilizantes ou pesticidas, o que é particularmente relevante diante da crescente pressão sobre os recursos terrestres e hídricos.
Abaixo estão oito algas encontradas na costa indiana e suas surpreendentes aplicações, desde 'caviar verde' até pasta de dente, lanches e medicamentos.
1. Kappaphycus alvarezii: Em leite com chocolate e sorvete
Esta espécie é encontrada na costa de Tamil Nadu, especificamente nas ilhas Rameshwaram e Pamban. Na maré baixa, nas águas rasas perto de Rameshwaram, é possível ver estruturas de corda entre postes de madeira onde galhos grossos, vermelho-púrpura e semelhantes a borracha, estão presos. Esta é a Kappaphycus alvarezii, uma alga que produz carragenina — um dos aditivos naturais mais comuns na indústria alimentícia.
A carragenina é obtida cozinhando e processando a alga seca. O resultado é um agente gelificante usado em sorvetes para prevenir a formação de cristais de gelo e em leite com chocolate para distribuir uniformemente o cacau em vez de ele assentar no fundo. O comércio mundial de carragenina é avaliado em cerca de 240 milhões de dólares.
2. Gracilaria: Fonte de agar
Esta espécie é encontrada em Tamil Nadu, Gujarat e Andhra Pradesh. A Gracilaria é uma fonte principal de agar — uma substância gelificante transparente e inodora, conhecida como grama chinesa, amplamente utilizada em sobremesas e gelatinas em toda a Ásia Meridional.
No entanto, o papel mais significativo do agar está na ciência. Laboratórios microbiológicos em todo o mundo usam placas de Petri agarificadas — pequenas tigelas com gel rico em nutrientes onde bactérias e fungos podem ser cultivados e estudados. Além disso, a Gracilaria pode ser consumida em outra forma. As fibras de Gracilaria edulis contêm até 96% de fibras alimentares, são incolores, inodoras e altamente funcionais. Pesquisadores estão estudando o uso dessa fibra em produtos como salsichas e macarrão para aumentar seu teor de fibras. O mercado mundial de agar é avaliado em aproximadamente 132 milhões de dólares.
3. Gelidiella acerosa: Necessidade laboratorial
A Gelidiella cresce perto da Gracilaria nas costas rochosas expostas de Tamil Nadu, Kerala e Karnataka, formando mantos densos e rígidos firmemente presos às rochas. Assim como a Gracilaria, ela fornece agar. A diferença reside na pureza e resistência do agar. O agar da Gelidiella é particularmente adequado para aplicações biotecnológicas e farmacêuticas. Institutos de pesquisa científica, empresas de diagnóstico e fabricantes de medicamentos valorizam-no para essas necessidades especializadas. A Gelidiella também contribui para pesquisas sobre bioplásticos à base de algas. Tais materiais podem ser alternativas biodegradáveis e renováveis aos plásticos à base de petróleo, com potencial de produção a custos mais baixos.
4. Sargassum: Do mar a lanches de arroz e milho
Sargassum é uma das algas marrons mais comuns da Índia, reconhecível por sua cor castanho-oliva, ramos folhosos e minúsculas bolhas de ar que lhe conferem flutuabilidade. Em terra, é processada em fertilizantes orgânicos, usada como suplemento alimentar para gado e estudada como fonte de biocombustível e materiais biodegradáveis. Sargassum também é incluído em pó em lanches extrusados de arroz e milho, adicionando macro e micronutrientes sem alterar significativamente o sabor.
5. Hypnea: O que está na sua pasta de dente?
Hypnea é uma alga vermelha fina e altamente ramificada que é encontrada em águas costeiras tropicais. Semelhante à Kappaphycus, pode servir como fonte de carragenina. Isso significa que os extratos desta alga podem ser usados em leite com chocolate, sorvetes, produtos processados, pasta de dente, cosméticos e formulações farmacêuticas. Eles ajudam a prevenir a separação de ingredientes, prolongar a vida útil e criar uma textura estável, substituindo alguns aditivos sintéticos. Como a demanda do consumidor está mudando em direção a ingredientes naturais nos rótulos dos produtos, o valor comercial da Hypnea continua a crescer.
6. Turbinaria: Medicamentos de recifes rochosos
Turbinaria é uma alga marrom resistente com folhas rígidas em forma de leque, forte o suficiente para permanecer presa mesmo sob fortes impactos de ondas em recifes rochosos. Foi usada em farmacêutica, incluindo formulações investigadas quanto à dor inflamatória e artrite. Sua eficácia foi avaliada em comparação com anti-inflamatórios não esteroides padrão em modelos animais. De acordo com o Conselho Indiano de Pesquisa Agrícola (ICAR), um desses produtos está disponível em cápsulas vegetais de 350 mg, adequadas para vegetarianos, e até o momento não foram registrados efeitos colaterais.
7. Ulva (salada marinha): Verde rico em nutrientes
Ulva é uma alga verde brilhante, fina, translúcida e folhosa que cresce em zonas de maré em toda a costa indiana. Do ponto de vista nutricional, é rica em compostos benéficos, incluindo vitaminas A, C e do complexo B, cálcio, ferro, fibras alimentares e proteínas. Em escala mundial, ela atrai um interesse crescente como ingrediente alimentar sustentável. Na Índia, pesquisadores a processam em pó, que pode enriquecer produtos vegetais com proteínas e fibras, como hambúrgueres vegetais.
8. Caulerpa (uvas marinhas): 'Caviar verde' e biscoitos dos recifes indianos
Caulerpa cresce em aglomerados de minúsculas bagas esverdeadas que lembram impressionantemente cachos de uvas em miniatura. É consumida fresca em saladas em várias culturas costeiras asiáticas, e em outros lugares é vendida como 'uvas marinhas' ou 'caviar verde'. Cientistas indianos desenvolveram biscoitos usando Caulerpa racemosa como ingrediente alimentar funcional, baseando-se em seu alto teor de proteína, fibras e potencial antioxidante. Este produto já foi comercializado por duas empresas de Kerala e vendido como biscoito orgânico voltado para o suporte digestivo.