Durante o Mês da Mulher, é preciso reconhecer uma verdade complexa: o trabalho não remunerado das mulheres sustenta a economia, mas seu trabalho permanece invisível. É hora de substituir os elogios por ações e abordar a desigualdade sistêmica que impõe um fardo às mulheres.
Cada falha nos serviços públicos gera uma conta que muitas vezes recai sobre as mulheres. Quando os serviços de cuidado infantil são inacessíveis, alguém precisa ficar em casa. Se as clínicas são de difícil acesso, alguém assume o cuidado dos doentes. Na escassez de alimentos, alguém deve decidir como esticar os estoques disponíveis. Essa pessoa tem maior probabilidade de ser uma mulher.
O «trabalho feminino» não é refletido nas contas nacionais, relatórios municipais ou orçamentos governamentais. É descrito como dever, maternidade, sacrifício ou, especialmente durante o Mês da Mulher, resiliência. No entanto, a África do Sul deve enfrentar uma dura verdade: o país se mantém por um sistema invisível de assistência social, financiado pelo tempo, trabalho, saúde e oportunidades perdidas das mulheres.
Anualmente, a África do Sul celebra as mulheres que marcharam para os edifícios da União em 8 de agosto de 1956. No entanto, seu legado deve nos impulsionar a fazer mais do que apenas louvar a força das mulheres. Deve exigir a análise das razões pelas quais as mulheres ainda são forçadas a carregar o fardo criado por lares desiguais, serviços públicos inadequados e uma economia que subestima o cuidado.
A linguagem da resiliência pode inspirar, mas também pode ocultar falhas institucionais. Uma mulher que acorda cedo para buscar água devido à falta de uma fonte confiável em sua comunidade pode ser resiliente. Uma avó que sustenta vários filhos com uma bolsa limitada pode ser engenhosa. Uma mãe que recusa um trabalho remunerado porque o cuidado com o filho custa mais do que seu salário pode estar tomando uma decisão racional. Mas estas não são apenas histórias de bravura — são testemunhos de sistemas inoperantes.
O Cuidado Não Remunerado é Infraestrutura Econômica
A África do Sul reconhece estradas, eletricidade, transporte e telecomunicações como infraestrutura, pois a economia não pode funcionar sem elas. No entanto, a economia também não pode operar se ninguém cuidar de crianças, cozinhar, limpar casas, apoiar idosos e cuidar de familiares doentes ou incapacitados. Esse cuidado não remunerado sustenta trabalhadores, empresas e instituições dos quais depende a economia formal.
Assim, as mulheres não estão apenas excluídas de partes da economia formal; seu trabalho não remunerado a subsidia. A ausência de pagamento não significa que o trabalho não tenha valor. Significa que o custo foi transferido para a mulher que realiza esse trabalho — ela paga através de educação interrompida, perda de renda, desaceleração na carreira, exaustão e enfraquecimento da independência financeira.
Quando os Serviços Falham, o Fardo é Transferido
As falhas nos serviços públicos não desaparecem; elas são redistribuídas. O encanamento não confiável leva a horas gastas procurando e carregando água. A saúde insuficiente transforma-se em cuidado não remunerado em casa. A falta de cuidados infantis acessíveis faz com que a mulher saia do trabalho, da educação ou dos negócios. O transporte inseguro resulta na perda de empregos e na limitação da mobilidade. A insegurança alimentar torna-se um fardo emocional e prático de decidir quem comerá.
Isso é importante para os direitos humanos. A Constituição da África do Sul garante às mulheres igualdade, dignidade, acesso à saúde, alimentação, água e proteção social, proibindo discriminação de gênero direta e indireta. Essas garantias, reforçadas pela Lei de Promoção da Igualdade e Prevenção da Discriminação Injusta, pela CRC e pelo Protocolo de Maputo, exigem que o Estado elimine a desigualdade sistêmica e garanta que os serviços públicos inadequados e as obrigações de cuidado não remunerado não continuem a impor um fardo desproporcional às mulheres.
As mulheres podem formalmente usufruir dos direitos à dignidade, igualdade, saúde, alimentação, água e proteção social. Mas quando o acesso a esses direitos exige trabalho não remunerado excessivo, viagens múltiplas, longas esperas e sacrifícios pessoais, esses direitos são exercidos de forma desigual. As mulheres frequentemente se tornam fornecedoras informais de serviços que constitucionalmente deveriam ser prestados por instituições estatais.
Nem Todas as Mulheres Carregam o Mesmo Fardo
As mulheres não sentem essa pressão da mesma forma. Uma mulher profissional pode enfrentar expectativas desiguais em relação ao cuidado infantil e ao crescimento na carreira, enquanto uma mulher rural pode passar horas viajando para transporte, saúde ou água. Uma babá pode cuidar das crianças de outra família enquanto luta para garantir o cuidado dos seus próprios filhos. Uma mulher com deficiência pode enfrentar transporte, edifícios e informações inacessíveis. Uma mulher idosa pode se tornar o principal cuidador de netos e parentes desempregados.
Mulheres pobres carregam o fardo mais pesado, pois não podem facilmente adquirir alternativas. A riqueza permite adquirir transporte privado, ajuda doméstica, cuidados infantis e atendimento médico. A pobreza transforma cada falha institucional em trabalho não remunerado adicional.
Isso gera pobreza temporária. Uma mulher que gasta horas obtendo serviços básicos tem menos tempo para trabalho remunerado, educação, lazer, participação política e desenvolvimento pessoal. Ela pode formalmente não estar excluída da vida econômica, mas as exigências feitas ao seu tempo tornam a participação significativa extremamente difícil.
O Que Precisa Mudar
O Mês da Mulher deve ir além do simples elogio às mulheres por sobreviverem em sistemas que precisam de transformação. Primeiro, a África do Sul deve medir regularmente o cuidado não remunerado. Pesquisas nacionais sobre distribuição de tempo devem mostrar quem realiza o trabalho não remunerado, quanto tempo ele leva e como as falhas no serviço aumentam esse fardo.
Em segundo lugar, os departamentos governamentais e os municípios devem implementar avaliações de impacto no tempo de gênero. Antes de fechar, realocar, digitalizar ou reduzir um serviço, as autoridades devem perguntar se isso levará a um aumento do tempo que as mulheres gastam obtendo água, cuidados médicos, transporte, cuidado infantil, alimentos ou assistência social.
Em terceiro lugar, o cuidado deve ser considerado uma infraestrutura social e econômica vital. Cuidados infantis acessíveis, cuidados comunitários, saúde acessível e apoio aos cuidadores são necessários para a participação econômica das mulheres.
Em quarto lugar, a responsabilidade pelo cuidado deve ser redistribuída. Os homens devem assumir uma parte mais justa das tarefas domésticas. Os empregadores devem apoiar o cuidado infantil, sem punir as carreiras das mulheres. O governo deve fornecer serviços que não permitam que as obrigações de cuidado sobrecarreguem os lares.
Finalmente, a igualdade de gênero não deve ser medida apenas pelo número de mulheres que trabalham, empreendem ou ocupam cargos de liderança. Também devemos perguntar qual volume de trabalho invisível elas realizam antes e depois do horário de trabalho.
Parar de Celebrar o Esgotamento
As mulheres de 1956 não marcharam para que as gerações futuras fossem mais eficientes em suportar a desigualdade. Elas marcharam porque os sistemas injustos precisavam ser criticados e mudados. Neste Mês da Mulher, a África do Sul deve parar de romantizar o esgotamento das mulheres. As mulheres não devem compensar infinitamente as falhas nos serviços, os sistemas de cuidado inadequados e as obrigações desiguais nos lares.
Uma sociedade que depende do trabalho não remunerado das mulheres, mas se recusa a reconhecer seu valor, não expande os direitos das mulheres — ela se beneficia de sua desigualdade. A contribuição mais significativa que a África do Sul pode dar às mulheres não é mais uma celebração do quanto elas podem aguentar. É o compromisso de garantir que elas não precisem mais carregar tanto. Enquanto o tempo, o cuidado e o trabalho não remunerado das mulheres não forem refletidos nos orçamentos, políticas e sistemas de responsabilização, as mulheres continuarão subsidiando o país com suas vidas. E elas continuarão pagando a conta.