Historicamente, o valor econômico de um país foi determinado por seus recursos naturais, acesso a portos marítimos ou presença de um grande mercado interno. No entanto, no século XXI, outro fator crucial foi adicionado: o lugar na cadeia de suprimentos global. Hoje, o poder econômico de um país é avaliado não apenas pelo que produz, mas também pelos fluxos de mercadorias que passam por seu território. Consequentemente, a infraestrutura de transporte deixou de ser apenas um objeto de engenharia e tornou-se parte integrante da política externa e da estratégia econômica.
Fatores que aceleram o desenvolvimento logístico
Este processo acelerou nos últimos anos. A pandemia de COVID-19 demonstrou a vulnerabilidade das cadeias de suprimentos globais. Além disso, o conflito entre Rússia e Ucrânia forçou uma reavaliação das rotas logísticas tradicionais na Eurásia, e os problemas de segurança no Mar Vermelho aumentaram o risco de transporte. Como resultado, governos e grandes empresas começaram a formular estratégias de transporte de mercadorias não por uma única rota, mas por vários caminhos alternativos. Este processo aumentou significativamente a importância da Ásia Central.
Ásia Central como nó logístico
A região, que outrora era vista como um território sem acesso ao mar no mapa mundial, é hoje valorizada como um dos elos mais importantes do corredor terrestre que liga a Europa e a Ásia. Instituições internacionais, como o Banco Mundial, o Banco Asiático de Desenvolvimento, CAREC e TRACECA, destacam em seus relatórios recentes a Ásia Central como um elo chave do sistema logístico euroasiático. Essas mudanças abrem novas oportunidades para o Uzbequistão. Se antes a falta de acesso ao mar era uma limitação séria para o comércio exterior, agora sua localização no centro da Ásia Central se torna uma vantagem estratégica.
Estratégia de desenvolvimento de corredores de transporte
Desde 2017, um dos principais focos da política externa do país tem sido a expansão das conexões de transporte com os países vizinhos, a formação de novas rotas internacionais e o aumento do potencial de trânsito do país. O Presidente Shavkat Mirziyoyev promove consistentemente o desenvolvimento dos corredores de transporte em diversos fóruns e negociações internacionais, afirmando que este é o principal pré-requisito para a integração econômica. O chefe de Estado enfatizou repetidamente que o desenvolvimento das comunicações de transporte é crucial para aumentar a competitividade da Ásia Central, expandir o acesso aos mercados externos e garantir a estabilidade econômica dos países da região.
Estratégia geoeconômica do Uzbequistão
Hoje, essa política se manifesta não como um conjunto de projetos isolados, mas como uma estratégia geoeconômica coesa. Iniciativas voltadas para o desenvolvimento da ferrovia China – Quirguistão – Uzbequistão, da Ferrovia Transafgana, da Rota Internacional de Transporte Transcáspia, bem como do Centro Logístico de Termez e a harmonização da infraestrutura de transporte com os países vizinhos, servem a um único objetivo: transformar o Novo Uzbequistão em um dos centros de transporte e logística mais importantes da Eurásia.
Diversificação como base da sustentabilidade
À luz do cenário mundial atual, se antes o critério principal para as empresas eram os custos de transporte, hoje os indicadores chave são a confiabilidade da entrega e a diversificação das rotas. Em termos simples, o mundo começou a precisar não de um, mas de vários caminhos confiáveis. Essa necessidade aumentou significativamente a importância da Ásia Central. Especialistas do Banco Mundial enfatizam que o crescimento dos fluxos comerciais na Eurásia e a necessidade de diversificar as cadeias de suprimentos aumentam a demanda por rotas terrestres. A região tem a oportunidade de transformar sua posição geográfica em uma vantagem econômica.
Três direções de transporte chave
Atualmente, três grandes eixos de transporte estratégico estão sendo formados na região. O primeiro é a ferrovia China – Quirguistão – Uzbequistão, o segundo é a Ferrovia Transafgana e o terceiro é a Rota Internacional de Transporte Transcáspia. Embora esses projetos possam ser considerados separadamente, seu verdadeiro valor reside em sua interconexão. Ao olhar para o mapa mundial, fica claro que as mercadorias vindas da China podem chegar ao Uzbequistão através do Quirguistão. De lá, parte das mercadorias segue pela Ferrovia Transafgana para os portos do Paquistão. Outra parte chega à costa do Mar Cáspio através do Cazaquistão e Turcomenistão, alcançando os mercados europeus através da Azerbaijão, Geórgia e Turquia.
Uzbequistão como hub de transporte
Assim, o Uzbequistão busca ser não apenas um participante de uma rota de transporte, mas um nó de transporte (hub) que conecta múltiplos sistemas logísticos internacionais. Enquanto alguns países dependem de um único caminho internacional, o Uzbequistão desenvolve várias direções simultaneamente para aumentar a segurança do comércio exterior. Esta é uma estratégia de gestão de riscos geoeconômicos. Se houver um problema em uma direção por razões políticas ou militares, o comércio exterior do país pode continuar por outros caminhos de transporte. Os eventos recentes no mundo demonstraram vividamente a importância dessa diversificação. Sob este ponto de vista, cada projeto de transporte em que o Uzbequistão participa é não apenas um investimento isolado, mas parte de uma estratégia unificada cujo centro é a ideia de transformar a posição geográfica do país em valor econômico.
Prioridades da política externa
Portanto, nos últimos anos, o Presidente Shavkat Mirziyoyev tem promovido constantemente em encontros internacionais as questões de conexões de transporte, desenvolvimento de novos corredores de transporte e harmonização da infraestrutura logística na região como uma das direções chave da política externa. Essa abordagem beneficia não apenas o Uzbequistão, mas também contribui para uma integração mais profunda de toda a região da Ásia Central no sistema econômico global.
Importância da ferrovia China – Quirguistão – Uzbequistão
Entre os projetos de transporte implementados na Ásia Central, a ferrovia China – Quirguistão – Uzbequistão é um dos temas mais debatidos. Sua importância é determinada não tanto pelo custo ou escala dos trabalhos de engenharia, mas pela capacidade de transformar o mapa econômico da Eurásia. A implementação deste projeto entre os três países exigiu negociações de muitos anos e revisões repetidas de cálculos econômicos e parâmetros técnicos. Somente em 2023 foi assinado um acordo trilateral que facilita a transição para a fase prática, e as obras de construção devem entrar em fase ativa até 2026. O comprimento total da ferrovia é de cerca de 454 quilômetros. A rota começa na cidade de Chashkar, na China, passa por Turugart, Arpa e Karasuv até Andijan. Planeja-se colocar a linha totalmente em operação até 2030.
Papel da ferrovia na diversificação
Atualmente, a maior parte das mercadorias que vêm da China para a Ásia Central e depois para a Europa é transportada através do Cazaquistão. Esta rota se formou ao longo dos anos, possui infraestrutura relativamente desenvolvida e cumpre a função de principal via terrestre. A ferrovia China-Quirguistão-Uzbequistão adiciona um segundo eixo terrestre independente a este sistema. Assim, a principal tarefa desta ferrovia não é a concorrência, mas sim a diversificação. As ferrovias não apenas transportam bens existentes; elas também contribuem para a formação de novas zonas de produção. Como observam analistas do Banco Mundial e do Banco Asiático de Desenvolvimento, nas áreas com infraestrutura de transporte melhorada, os fluxos de investimento aceleram, o número de empresas industriais orientadas para a exportação cresce e o mercado de serviços logísticos se expande. Consequentemente, a importância de Andijan, Namangan e a Região de Fergana aumenta. Se antes o Vale de Fergana era visto principalmente como um centro de produção interna, a nova infraestrutura de transporte pode transformá-lo em uma plataforma de exportação intimamente ligada aos mercados externos.
Essência da diplomacia de transportes
Nos últimos anos, a República não se limita apenas à construção de infraestrutura de transporte. O país está formando a diplomacia de transportes como uma das direções importantes de sua política externa. Este termo é cada vez mais usado nas relações internacionais. Sua essência é simples: os países começaram a usar as rotas de transporte não apenas como meio de transporte de mercadorias, mas também como ferramenta de integração econômica, atração de investimentos e fortalecimento da influência externa. A política moderna do Uzbequistão baseia-se exatamente neste tipo de abordagem.
Multimodalidade e segurança comercial
O país trabalha simultaneamente no desenvolvimento de novos sistemas de transporte: uma nova ferrovia conectando com a China no leste; acesso ao Oceano Índico através do Afeganistão no sul; e novas rotas através do Mar Cáspio para o Cáucaso e mercados europeus no oeste. Graças a isso, o Uzbequistão busca não depender de nenhum estado ou corredor de transporte, mas ter vários caminhos alternativos para o comércio exterior. Isso permite gerenciar riscos geoeconômicos. Como observou Dilshod Khakimov, toda essa atividade faz parte de uma estratégia geral.