A carência de água, saneamento e higiene constitui um sério desafio em diversos países, contudo, a região do Sahel — uma faixa semiárida que atravessa o continente africano — é onde se concentram maior número de óbitos, evasão escolar, enfermidades e migrações.
Dados compilados pela Unicef e pela Organização Mundial de Saúde, embora ainda não divulgados, revelam que aproximadamente 28% das crianças em África não possuem acesso a água potável, conforme informou uma especialista e gestora do programa WASH (Água, Saneamento e Higiene) da ONU.
Esta especialista alertou que existem perto de 200 milhões de crianças africanas sem acesso a água corrente, ressaltando que este número quase dobra quando se considera a ausência de saneamento adequado. Martina Rama detalhou que, até aos cinco anos de idade, o sistema imunitário infantil é mais vulnerável, e a falta de acesso a água e saneamento provoca diversas doenças, sendo a diarreia a mais comum, juntamente com infeções respiratórias, desnutrição e parasitas.
Relatórios anteriores, datados de 2019, já indicavam que 264 mil crianças nessa faixa etária faleceram em um único ano devido a problemas de saúde ligados à escassez de água e saneamento.
As meninas são o grupo mais prejudicado por essa situação. Martina Rama explicou que elas frequentemente assumem a responsabilidade de buscar água quando não há torneiras disponíveis em casa ou no quintal. Isso implica caminhar por uma ou duas horas diariamente até um poço, aguardar na fila e, posteriormente, retornar ao lar.
Essa rotina dificulta a frequência escolar de muitas meninas, levando ao abandono precoce dos estudos. Mesmo quando conseguem manter a educação por alguns anos, enfrentam obstáculos práticos na adolescência, como a higiene menstrual, que é diretamente ligada ao saneamento, especialmente na ausência de instalações sanitárias na escola. A especialista observou que essa dificuldade, somada à vergonha inerente à idade, faz com que várias jovens faltem às aulas uma vez por mês, culminando, muitas vezes, no abandono total.
O problema transcende os mais jovens, apresentando gravidade suficiente para afetar comunidades inteiras e gerar conflitos entre vizinhos, o que a especialista prevê como uma das questões mais urgentes do futuro próximo.
Na região do Sahel, onde a seca é acentuada e os recursos hídricos são escassos, estão surgindo disputas entre comunidades fixas, agricultores, e comunidades nômades, pastores. Ela admitiu que existiam equilíbrios históricos entre esses dois grupos, mas que isso não se mantém mais.
Quando uma comunidade possui água, por exemplo, através de um poço, e outra tenta utilizá-lo, os responsáveis pelo poço podem negar o acesso, alegando propriedade exclusiva, o que desencadeia inúmeros conflitos. Esses confrontos tendem a escalar, e, segundo Martina Rama, a única saída muitas vezes é a migração, seja para outras áreas do continente ou para países mais desenvolvidos.
A responsável também alertou que as alterações climáticas agravam o cenário, pois a redução das chuvas impede que fontes de água, como rios e lagos, se encham o suficiente para suprir as necessidades durante os períodos de estiagem.
Apesar dos esforços das autoridades para construir mais infraestrutura, elas carecem de capacidade para solucionar o problema, e organizações humanitárias, como a ONU, enfrentam orçamentos cada vez mais limitados para prestar auxílio.
O Banco Mundial estima que, para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável relacionados à água e saneamento globalmente, os investimentos anuais deveriam variar entre 130 e 140 mil milhões de dólares (aproximadamente 112 a 120 mil milhões de euros), embora reconheça que esse montante dificilmente será alcançado.
Embora a crise hídrica seja mais crítica em África, a questão também se tornou vital na América Latina, conforme apontado por Franck Bouvet, coordenador da Unicef para essa área. Nesta região, além da pobreza e das secas, as chuvas intensas e as subsequentes inundações têm danificado as poucas estruturas existentes em certas localidades.
Franck Bouvet enfatizou a enorme dimensão da crise, classificando o investimento neste setor como uma questão de sobrevivência. Ele mencionou que a comunidade humanitária considera essencial fornecer um mínimo de cinco litros de água por pessoa para sobreviver, mas que são necessários 20 litros para uma condição normal que inclua higiene e limpeza ambiental.
Em contraste, nos países desenvolvidos, o consumo diário varia entre 250 e 350 litros por pessoa, chegando a 500 litros em Nova Iorque. O responsável destacou que essa disparidade gera impactos reais na saúde, na sobrevivência e no desenvolvimento infantil, bem como na capacidade econômica de crescimento das comunidades.
De acordo com os dados mais recentes publicados, em 2024, 2,1 mil milhões de pessoas no mundo não têm acesso a água potável, e 3,4 mil milhões não têm acesso a saneamento seguro. Mais de 106 milhões dependem de rios, lagos ou canais para beber, e 1,7 mil milhões jamais tiveram acesso a um banheiro doméstico.



