Na China, o entregador de encomendas Wang Zibin chamou a atenção do público com seus poemas, que ele compunha enquanto cumpria suas obrigações de trabalho, e agora ele foi agraciado com um dos mais prestigiados prêmios literários do país.
Wang Zibin, de 57 anos, é conhecido na China como o 'poeta entregador'. Ele recebeu o prêmio na categoria poesia da prestigiada premiação Lu Shun. Este sinal de reconhecimento foi concedido a ele por seu terceiro livro de poemas intitulado 'Voo Baixo'.
De acordo com o South China Morning Post, Wang trabalha como entregador na cidade de Kunshan, província de Jiangsu, no leste da China, há cerca de oito anos. Por volta de 2020, ele começou a ser reconhecido como poeta depois de começar a compartilhar suas obras nas redes sociais.
Estes poemas refletem não apenas sua vida pessoal, mas também as histórias de milhões de pessoas na China que trabalham como trabalhadores autônomos (gig workers).
Uma de suas obras mais conhecidas é o poema 'Pessoas Correndo no Horário de Pico', no qual ele traduziu em palavras os destinos daqueles que estão constantemente em corrida contra o tempo.
Atualmente, Wang escreveu mais de 7000 poemas e já publicou quatro coletâneas. Em janeiro deste ano, saiu seu primeiro livro de ensaios, 'Chengzhen', nomeado em homenagem à sua mãe.
Wang começou a escrever em 1988. Naquela época, ele tinha uma paixão pela escrita tão grande que frequentemente ficava doente e precisava ir ao hospital. Seu pai não aprovava esse hábito e um dia o proibiu de escrever.
O pai de Wang queimou seu manuscrito contendo cerca de duzentos mil caracteres chineses. Apesar desse incidente, Wang não parou de escrever. Ele anotou em seu diário: 'Eu me tornarei um grande escritor.'
Depois disso, ele continuou a escrever por cerca de duas décadas, mas não mantinha registros de suas criações. Durante esse tempo, ele realizou vários tipos de trabalho: trabalhou como carregador no porto, trabalhou em uma fábrica de tijolos e recolheu sucata de metal na rua. Foi a experiência de recolher sucata de metal que o inspirou a dar-se o nome de 'Coletor' (Gatherer) nas redes sociais.
Os poemas de Wang também refletem pequenos momentos de sua vida. Ele escreveu sobre seu pequeno dedo, que foi cortado por uma chapa de metal durante a coleta de sucata, e que subsequentemente se deformou. Enquanto trabalhava como entregador, ele usa este dedo como uma espécie de 'gancho' para carregar a bolsa.
Ele também escreveu um poema sobre um tomate verde deixado por alguém na beira da estrada. Para ele, a poesia não é apenas sobre coisas grandes e significativas, mas também sobre os pequenos detalhes do dia a dia.
Ao receber o prêmio, Wang não declarou que sua vida mudou ou que pararia de trabalhar como entregador. Pelo contrário, ele afirmou claramente que continuará fazendo entregas de comida. Wang acredita que a literatura não é uma escada para escapar da vida. Quando lhe perguntaram se ele achava que finalmente alcançara o sucesso na vida, ele rejeitou essa ideia. Ele disse que nunca pensou que estava tentando 'escapar da vida' e descreveu sua vida como feliz.
Wang também não concordou com aqueles que acreditam que duas décadas até a fama foram desperdiçadas. Ele chamou esses anos de 'neve pesada' em sua vida. Na opinião dele, esses anos não o mudaram, mas sim enriqueceram sua vida.
Os poemas de Wang receberam grande repercussão nas redes sociais. Um usuário observou que suas palavras não são excessivamente ornamentadas, mas estão cheias de verdade e simplicidade. Seus poemas revelam a beleza oculta na vida das pessoas comuns.
Após receber o prêmio, Wang também chamou a atenção para as dificuldades dos trabalhadores de entrega em seu discurso. Ele pediu às pessoas para não darem avaliações baixas ou ruins aos trabalhadores de entrega, mas sim para darem-lhes feedbacks mais positivos.
Wang também enfatizou que não quer abandonar o título de 'trabalhador de entrega'. Ele não busca se livrar dessa autoidentificação. Ligando sua vida e personalidade ao rio, ele disse que com o tempo as pessoas entenderão que Wang Zibin é semelhante a um rio que flui silenciosamente.


