Uma nova análise de minerais coletados na Cratera de Colônia, localizada no extremo sul de São Paulo (SP), forneceu evidências robustas de que essa formação geológica resultou do impacto de um asteroide na Terra.
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto de Pesquisas Ambientais conseguiram identificar, pela primeira vez naquele local, micromarcas de choque em grãos de zircão. Este mineral é notável por sua capacidade de reter vestígios de eventos extremos.
A Cratera de Colônia, situada em Parelheiros, possui um diâmetro aproximado de 3,6 quilômetros e contém o bairro de Vargem Grande. Embora a estrutura tenha sido detectada por imagens aéreas na década de 1960 e seja objeto de estudo há mais de sessenta anos, o novo trabalho publicado em abril na revista científica Earth and Planetary Science fortalece a teoria de que a cratera foi formada por uma colisão de asteroide.
Entre as características descobertas estão as chamadas feições planares de deformação, ou PDFs. Estas são estruturas microscópicas geradas pela propagação de ondas de choque através do mineral. Victor Velázquez Fernandez, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP e autor do estudo, explica que os PDFs funcionam como uma assinatura característica de impactos capazes de criar crateras na superfície terrestre.
Adicionalmente, os cientistas observaram outras modificações nos cristais, tais como recristalização, desorientação cristalográfica, perturbações nas zonas de crescimento e texturas granulares. O fenômeno conhecido como metamorfismo de choque ocorre quando uma rocha ou mineral é exposto a uma pressão extremamente alta em um período muito breve, condição frequentemente causada pela colisão de um asteroide com a superfície terrestre.
Este impacto libera uma vasta quantidade de energia, gerando ondas de choque que percorrem as rochas próximas ao ponto de colisão. Tais ondas têm o poder de alterar a composição dos minerais, deixando marcas microscópicas que persistem por milhões de anos. O zircão é particularmente valioso neste tipo de investigação devido à sua grande resistência, permitindo a preservação de informações geológicas mesmo após o desgaste causado pelo intemperismo e transformações ao longo do tempo.
Assim, a detecção dessas deformações nos grãos oferece uma prova mineralógica direta de que as rochas da Cratera de Colônia sofreram as condições extremas típicas de um impacto. Embora pesquisas anteriores já apontassem sinais de impacto — incluindo deformações em quartzo e mica, além de esférulas e rochas ligadas ao evento —, a contribuição da USP reside em adicionar evidências de metamorfismo de choque preservadas em cristais de zircão, reforçando que a formação não decorreu de processos geológicos comuns, como deformações tectônicas regionais.
A Cratera de Colônia é uma depressão circular com cerca de 3,6 quilômetros de diâmetro. A área recebeu tombamento do Condephaat em 2003 e foi designada Monumento Geológico em 2009. Atualmente, parte dessa formação é habitada pelo bairro de Vargem Grande, caracterizado por áreas verdes, vias com diferentes declives e residências dispostas dentro da estrutura circular da cratera.
Moradores antigos testemunham o crescimento do bairro e convivem há décadas com a narrativa de que suas casas estão inseridas em uma estrutura originada por um evento extraterrestre. Ozéias de Freitas Ramos, artista visual residente na área desde a infância, relatou ao g1 que sua família se mudou para o bairro na década de 1980. Ele expressou orgulho com a confirmação da origem da formação, embora ainda apontasse desafios em relação à infraestrutura, ao meio ambiente e à disponibilidade de equipamentos culturais.
A região também sedia a Penitenciária Joaquim Fonseca Lopes, inaugurada em 2009 em uma área de aproximadamente oito mil metros quadrados, que, segundo dados da Secretaria de Administração Penitenciária, acolhe 1.451 detentos em regime fechado.
O nome da formação deriva de Colônia Paulista, um bairro vizinho que serviu de referência inicial aos primeiros estudiosos da estrutura. O geógrafo Rodrigo Martins esclarece que a área era originalmente conhecida como Colônia Alemã, um assentamento ligado a um projeto de colonização estrangeira no Brasil durante o período imperial. Durante a Segunda Guerra Mundial, o nome foi alterado para Colônia Paulista, em função de mudanças de nomenclatura relacionadas à Alemanha, e a formação geológica adotou o nome do bairro utilizado como referência.
O Earth Impact Database cataloga estruturas de impacto confirmadas globalmente, contando atualmente com 190 registros. No Brasil, oito estruturas de impacto são consideradas confirmadas, sendo Colônia uma das duas únicas crateras habitadas no planeta; a outra é a Cratera de Ries, na Alemanha, que abrange cerca de 24 quilômetros de diâmetro e possui mais de cem mil habitantes.
Em suma, esta nova pesquisa não só corrobora a origem extraterrestre da Cratera de Colônia, como também demonstra a capacidade dos minerais microscópicos de preservar evidências de eventos remotos no tempo geológico, mesmo após o desenvolvimento urbano sobre a estrutura.