Agente Hector apoiou uma das mãos no teto metálico do Coupé e observou Colin, Jesse e Peter. Ele se apresentou dizendo: «Hector — disse ele, com a voz pausada contra o vento frio que uivava no vale. — Meu nome é Hector.» Jesse cuspiu um pouco de terra, ajustando a aba do chapéu no escuro, e comentou: «Pra mim parece nome de auditor de impostos, cara.» Colin sorriu levemente, continuando a caminhar em direção ao seu pequeno Locost, e respondeu: «Na estrada e no deserto, ninguém escolhe o apelido que carrega, garoto — disse Colin, sem olhar para trás. — Você veio numa viatura da Divisão até ontem, dirige feito um diabo e conhece os atalhos da polícia como a palma da mão. Pra gente, você é o Agente.»
Hector manteve o olhar por dois segundos e soltou o ar pelo nariz. A ironia era notável: a palavra que ele havia tentado eliminar ao recusar o Nível Três não tinha mais relação com o distintivo, o Comissário ou as expectativas paternas; tornara-se apenas o nome de alguém que conhecia os caminhos.
«Que seja — disse o Agente Hector. — Mas ninguém liga o motor ainda. Se a gente sair desse recuo no seco, os drones pegam a assinatura de calor dos blocos antes da gente andar quinhentos metros.» Colin considerou a situação, enquanto Jesse e Peter trocavam olhares tensos. Charlie avançou, abrindo o porta-malas do Fiat e retirando uma caixa de plástico reforçado repleta de pequenos módulos pretos, do tamanho de maços de cigarros, envoltos em fita isolante e fios expostos.
Implementação da Cortina Eletromagnética
«É a cortina eletromagnética do galpão — explicou o jovem, com a voz rouca e sem cor, mas demonstrando rápido raciocínio tático. — Eu consegui salvar os inversores antes da gente fugir. Se a gente prender um em cada para-choque e mantiver o comboio colado, a menos de três metros um do outro, os inversores criam um bolsão de distorção térmica. Para os sensores dos drones lá em cima, o calor dos quatro motores vai parecer só o fundo de pedra aquecida do deserto.» Sem aguardar ordens, Charlie ajoelhou-se na terra fria do vale e começou a fixar os módulos nos para-choques do Skyline, do Fusca, do Locost e do Fiat. Ele trabalhou no escuro, guiado apenas pelo tato e pela urgência, prendendo os fios com braçadeiras de náilon.
Dez minutos depois, o rapaz bateu duas vezes no capô do Coupé. «Pronto. A bateria dos inversores segura a cortina por duas horas. Dá pra chegar no acesso subterrâneo e sumir do mapa antes que eles percebam.» Colin elogiou o trabalho de Charlie, tocando seu ombro antes de entrar no Locost. Em seguida, o silêncio do Vale Escondido foi rompido. O Fiat ligou primeiro, com o ronco forte do Lampredi soando como música para todos os quatro. Logo depois, o rugido do seis-em-linha do Skyline, o borbulhar áspero do boxer do Fusca e o estalo agudo do Locost com motor Honda despertaram a escuridão.
Sob o escudo invisível montado por Charlie, os quatro pares de faróis amarelos cortaram o deserto abertamente, seguindo em fila indiana, indetectáveis para a frota autônoma que patrulhava o céu e a terra, até que a grande abertura de concreto do Nível Zero engoliu o comboio. O Fiat Coupé roncava em marcha lenta ao passar pelo portal da tubulação subterrânea. Atrás dele, colados, as luzes de posição do Skyline de Jesse, do Fusca de Peter e do pequeno Locost de Colin projetavam marcas vermelhas contra as paredes úmidas de concreto bruto.
Fora, na superfície, os drones de varredura térmica passaram sem registrar o quadrante, capturando apenas a leitura fria e inerte das rochas. A estratégia de Charlie foi totalmente eficaz: o comboio atravessou o trecho mais exposto do deserto sem disparar qualquer alarme. Contudo, o subsolo da Cidade Branca apresentava outro tipo de dificuldade: um ambiente de tubulações gigantescas, gotejamento constante e odor opressor de ferrugem molhada. Enquanto o ar do deserto ficava para trás, o calor noturno era substituído pela umidade densa e abafada dos dutos de arrefecimento da cidadela.
Chegada à Oficina Subterrânea
No nível superior, a cidade pairava em sua perfeição sintética; abaixo, as entranhas de concreto sustentavam o milagre elétrico. Após vinte minutos de navegação sem visibilidade, o feixe amarelo do Coupé iluminou a porta de aço deslizante no final de um duto secundário. A chapa pesada rangeu ao subir lentamente, movida por um contrapeso de ferro. Val Vance já os aguardava no limiar da oficina. Ela usava um macacão de brim desbotado, manchado de óleo até os cotovelos, com um maçarico de corte desligado pendurado no cinto. Ela não fez perguntas ao ver o Fiat vermelho estacionando, seguido pelos outros três veículos; bastou um olhar para a lataria coberta de fuligem e para o semblante abatido de Charlie.
«Entrem logo com essa sucata — disse Val, com a voz grave e seca, sinalizando para que o comboio parasse nos boxes secundários. — A rede central começou a receber relatórios de pico de tensão no perímetro há meia hora. Não vai demorar muito para passarem uma auditoria de consumo por esses dutos.» O Agente Hector saiu do Fiat e indicou o grupo estacionado logo atrás. «Pessoal, essa é a Val — disse ele. A engenheira esperava uma apresentação mais longa e formal, mas logo aceitou, lembrando que esperar demais seria um erro.
Assim que a frase ecoou pelo galpão, Hector percebeu sua própria ignorância. Ele conhecia frequências, rotas e códigos de acesso, mas sabia quase nada sobre a mulher à sua frente. Ele desconhecia seu sobrenome completo, sua origem ou como ela mantinha aquele ponto cego ativo bem debaixo do nariz da Cidade Branca.
Peter não esperou o término das apresentações. Ele passou direto por Val, parando a dois passos de uma bancada pesada no fundo do galpão, onde um guincho hidráulico e uma soldadora antiga repousavam sobre calços de madeira. «Caralho… você tem solda TIG para alumínio e um gabarito de alinhamento ali atrás?» ele exclamou, passando os dedos pelas tubulações do equipamento sem pedir permissão. Jesse baixou o tom imediatamente. Sua postura relaxada deu lugar a um ajuste discreto no chapéu e uma inclinação ponderada enquanto avaliava a mulher de macacão e o ritmo do galpão. «Com licença, senhora — disse Jesse, em um tom seco e contido.
Colin tirou as luvas de couro lentamente, permitindo que os passos ecoassem no concreto úmido antes de parar diante dela. «É um privilégio raro encontrar um santuário deste porte sob o concreto da Cidadela — disse Colin, com a voz calma e modulada no espaço fechado. — E ainda mais raro encontrar quem saiba mantê-lo funcionando.» Val encarou Colin por um longo momento, seu rosto impassível antes de soltar um canto de sorriso imperceptível. «O privilégio é de quem tem ferramenta pra trabalhar — respondeu ela, virando-se para o centro da oficina. — Menos conversa e mais braço. Comecem a descarregar as caixas pesadas pra caminhonete antes que os dutos entrem em bloqueio.»
O grupo se dispersou em sincronia. Ao fundo, Jesse e Peter puxavam barris de combustível e caixas de peças do porta-malas do Skyline, enquanto Colin empilhava latas de óleo perto da caçamba da Ford F-150 de carga que Val mantinha no galpão. Hector olhou para a picape, intrigado. Como ele não havia notado aquele utilitário horas antes, quando foi buscar o Coupé? O Setor B-09 deveria ter mais recuos na sombra do que ele imaginava. A F-150 em si não era especial: lataria desgastada, sem emblemas esportivos — não era uma Lightning nem nada parecido, para leve desapontamento do Agente. Era apenas um cavalo de trabalho comum. Mesmo assim, aquela relíquia de tempos passados deveria ter sido notada antes.
O galpão vibrava com o som de correntes sendo arrastadas, ferramentas caindo em caixas de metal e o borbulhar constante da água escorrendo pelas paredes de concreto. No centro da oficina, repousando em um cavalete de ferro sob um pano sujo, o bloco nu de um V8 Ford de liga leve aguardava manipulação. O Agente Hector aproximou-se do elevador hidráulico principal. Ao tocar o pilar de sustentação, seus dedos sentiram o relevo de uma placa metálica. Sob a espessa camada de fuligem e graxa acumulada por décadas, a placa de alumínio rebiteada no aço ostentava a gravação inconfundível do logotipo da Cidadela: PROPRIEDADE DA FABRICANTE — DIVISÃO DE INFRAESTRUTURA URBANA / SETOR B-09.
Hector encarou o símbolo por alguns instantes. Val percebeu seu olhar e soltou uma risada nasal enquanto limpava os dedos em um pano sujo. «Lindo, né? — disse ela, cruzando os braços. — A gente está nas entranhas deles, usando a luz deles, o elevador deles e a pressão de água deles. Para a diretoria lá no octogésimo andar, este setor consta como ‘desativado por obsolescência’ há uns cinquenta anos. Eles gastam bilhões para construir o futuro limpo lá em cima, mas esquecem que a base de tudo ainda é o mesmo concreto encrostado de óleo desde sempre.»
Antes que Hector pudesse responder, um som vindo da bancada lateral interrompeu o barulho das ferramentas. Suspenso sobre uma estrutura de madeira, um antigo monitor CRT exibia a transmissão em tempo real do canal informativo da Cidadela. A imagem estava nítida, sem estática, acompanhada por uma trilha sonora ambiente de sintetizadores suaves. A apresentadora, impecavelmente vestida em um terno cinza sem vincos, sorria para a câmera:
«…E concluímos a madrugada com a confirmação da Diretoria de Logística: o plano de Harmonização de Perímetro do quadrante sul foi concluído com cem por cento de eficiência. A transição definitiva para a frota autônoma e limpa elimina os ruídos operacionais e garante a meta de emissão zero na borda.»
A imagem mudou para uma tomada aérea, filmada por um drone de vigilância. No centro da tela, a estrutura de zinco do galpão de Charlie aparecia reduzida a uma mancha cinzenta e fumegante na poeira do deserto. «A ação preventiva do Departamento eliminou uma estrutura clandestina de alto risco ambiental que operava sem licenciamento na área não-mapeada. Moradores dos níveis superiores relatam que o ar no quadrante sul amanheceu com índices de pureza três por cento acima da média histórica. A Fabricante reafirma seu compromisso com a vida e a eficiência.»
Val parou diante do monitor, segurando uma caneca de alumínio, e soltou uma risada curta e amarga. «Olha isso — murmurou ela. — Ninguém foi espancado, ninguém foi arrastado pra praça pública. Eles só acionaram um botão lá em cima, queimaram um pedaço de ferro no deserto e venderam a fumaça como relatório de sustentabilidade.» O Agente Hector aproximou-se da bancada. Ele encarou a tela por alguns segundos. Imaginou seu pai, Marcus, no octogésimo andar, tomando o mesmo café em xícara de cerâmica sintética, observando o gráfico de qualidade do ar subir três por cento no monitor.
Lá em cima, os cidadãos da Cidade Branca regulavam a temperatura de seus apartamentos, viam a notícia no painel da cozinha, pensavam ‘que bom que eu moro aqui’ e seguiam suas vidas sem que uma única gota de sangue precisasse ser limpa do asfalto. A Fabricante não era uma ditadura de botas pesadas. Era uma máquina de conveniência. E as pessoas adoravam a conveniência. «Não tem ninguém pra ser salvo lá em cima, Agente — disse Val, desligando o monitor com o polegar. O tubo de imagem encolheu até virar um ponto luminoso e desaparecer. — Eles estão felizes com tudo do jeito que está.»
Enquanto Colin e Jesse amarravam os últimos tambores de óleo na caçamba da F-150 e Peter testava os rolamentos do guincho, Charlie permaneceu imóvel em um caixote no canto escuro do Setor B-09. O jovem tinha os joelhos dobrados e a cabeça enterrada entre os braços. Seus ombros tremiam em silêncio. O Agente Hector caminhou até ele e parou a dois passos. Não disse nada inicialmente — apenas escutou atentamente. «Três anos, cara… — a voz de Charlie veio abafada, interrompida pelo choro. Ele levantou o rosto, revelando olhos vermelhos e pele manchada de graxa e fuligem. — Eu nem tinha acabado de acertar o mapa da injeção. O ronco daquele V8… não existe mais nada no mundo que soe como aquilo.» «O carro já era, Charlie — disse Hector, calmo.