Funcionários científicos utilizam uma tecnologia capaz de detectar mudanças sutis no campo magnético do planeta para descobrir o que está sob a superfície da Terra a quilômetros de profundidade, sem realizar escavações.
Detecção de Estruturas Geológicas
Com base nessas pequenas flutuações, os pesquisadores podem identificar falhas geológicas, antigos rios magmáticos, depósitos minerais e estruturas ocultas no subsolo. Um estudo recente na Austrália demonstrou essa técnica, criando uma imagem mais detalhada da Anomalia Magnética Australiana — uma vasta estrutura subterrânea sob o Território do Norte, cuja forma se assemelha ao contorno do próprio continente australiano.
É importante notar que este trabalho não exigiu novas medições de campo ou voos; em vez disso, foi aplicado um algoritmo de processamento que eliminou ruídos e distorções de levantamentos anteriores, permitindo identificar características geológicas com maior clareza. Assim, os pesquisadores conseguiram obter novas informações a partir de dados já existentes.
Princípio de Funcionamento da Magnetometria
Este exemplo australiano ilustra uma ferramenta usada por geomagnetistas em todo o mundo há décadas, incluindo o Brasil. Para entender essa tecnologia, os especialistas debateram como as rochas deixam 'assinaturas' no campo magnético da Terra e como essas informações ajudam a reconstruir a história do planeta.
Embora duas rochas possam parecer quase idênticas, para um geomagnetista elas podem contar histórias completamente diferentes. Isso ocorre porque cada tipo de rocha possui suas propriedades físicas. Algumas rochas têm pouca influência no campo magnético circundante, enquanto outras, contendo minerais como magnetita, titanomagnetita, hematita ou pirrotita, causam perturbações locais pequenas. Essas perturbações podem ser registradas por magnetômetros altamente sensíveis, mesmo que os minerais estejam presentes em baixas concentrações, gerando diferenças da ordem de alguns nanoteslas — valores milhões de vezes menores que o campo criado por um ímã de geladeira comum.
Gelvam André Hartmann, da Unicamp, enfatizou que as rochas não alteram o campo magnético global da Terra, mas produzem perturbações locais que podem ser medidas por magnetômetros extremamente sensíveis. Segundo professores da Unipampa, o termo 'anomalia' em geofísica descreve exatamente a diferença entre o campo magnético esperado para uma determinada área e o que é efetivamente medido pelos instrumentos em condições de campo.
Esses pequenos desvios revelam não apenas informações sobre quais rochas estão sob a terra, mas também guardam dados sobre o passado geológico da região. Além da magnetização causada pelo campo magnético atual da Terra, as rochas geralmente retêm uma magnetização remanescente, que foi registrada durante sua formação ou adquirida como resultado de eventos geológicos subsequentes. Assim, as próprias rochas mantêm um registro das condições magnéticas existentes durante sua formação, enquanto as medições aeromagnéticas registram esses sinais. A intensidade do sinal depende de fatores como quantidade de minerais magnéticos, profundidade, tamanho, geometria e orientação dos corpos rochosos.
Diferença de Fenômenos Globais
É importante fazer uma distinção: as anomalias estudadas em prospecções geológicas não estão relacionadas à Anomalia Magnética da Atlântica Sul (AMAS). Enquanto as anomalias crustais são formadas por rochas da crosta terrestre, a AMAS é um fenômeno global que ocorre no núcleo externo da Terra a profundidades de milhares de quilômetros. Seus efeitos estão relacionados a menor proteção contra partículas energéticas no espaço sobre o Atlântico Sul, o que afeta satélites e espaçonaves.
Métodos de Estudo do Subsolo a partir do Ar
Como as rochas causam perturbações tão sutis no campo magnético, os cientistas utilizam levantamentos aeromagnéticos. Durante esses levantamentos, aeronaves equipadas com sensores seguem trajetórias paralelas sobre a área de estudo. Para evitar a influência da fuselagem metálica da própria aeronave nas medições, os sensores são instalados em uma estrutura alongada na cauda da aeronave.
Durante o voo, o equipamento realiza dezenas ou centenas de medições por segundo. Como os aviões operam em baixas altitudes — geralmente cerca de 100 metros acima do solo — e seguem linhas regularmente espaçadas, é possível construir um retrato detalhado do sinal magnético ao longo de toda a rota. Após o pouso, os dados constituem uma sequência bruta de medições. Antes de serem interpretados, eles passam por etapas de processamento para remover ruídos de equipamentos, variações de navegação e flutuações naturais do próprio planeta. Em seguida, os pesquisadores excluem a contribuição do campo geomagnético principal (gerado no núcleo) para isolar apenas o sinal produzido pelas rochas da crosta.
O resultado desse refinamento são mapas de anomalias magnéticas, mostrando a distribuição espacial das mudanças no subsolo. Os pesquisadores observam que a interpretação desses mapas permite identificar padrões relacionados a características geológicas importantes, como falhas, zonas de cisalhamento, diques, intrusões magmáticas, contatos entre diferentes unidades litológicas e corpos potencialmente mineralizados. Atualmente, também são aplicados métodos de inversão geofísica: modelos computacionais dividem o subsolo em elementos menores e avaliam quais distribuições de propriedades magnéticas poderiam ter causado os sinais medidos na superfície, ajudando a construir modelos bidimensionais e tridimensionais do subsolo.
Processamento de Dados e Formação de Mapas
A coleta de dados no ar é apenas metade do trabalho. Quando o avião pousa, as leituras do magnetômetro formam um conjunto de dados brutos que mistura a reação das rochas com interferências do próprio veículo aéreo e flutuações naturais do campo magnético da Terra. Para isolar o sinal das rochas, é necessária uma filtragem cuidadosa. Professores da Unipampa explicam que um dos primeiros passos é a compensação magnética, um cálculo matemático que elimina as interferências criadas pela estrutura metálica e pelos sistemas elétricos do próprio avião em movimento.
Em seguida, algoritmos aplicam filtros de frequência para 'separar' as informações. Essa separação permite distinguir sinais provenientes de estruturas rasas (como potenciais jazidas minerais) daqueles que ocorrem em rochas a quilômetros de profundidade no subsolo da crosta. É esse refinamento computacional que transforma milhões de medições em mapas geológicos detalhados. Ao analisar o estudo australiano, Gelvam André Hartmann lembrou que 'a anomalia já era conhecida'. Ele continuou: 'O principal avanço do trabalho reside na aplicação de métodos modernos de processamento e interpretação, que permitiram extrair muito mais informação geológica de um conjunto de dados já existente.'
Limitações dos Mapas Magnéticos
Apesar das frequentes comparações com um 'raio-x', esses mapas não são uma fotografia direta da estrutura interna do planeta. Gelvam André Hartmann observa que 'a analogia ajuda a explicar a ideia ao público em geral, mas tem limitações'. Ele considera que a melhor analogia é que o levantamento aeromagnético funciona como um exame médico: ele revela padrões imperceptíveis a olho nu, indica onde deve ser feito um estudo mais detalhado e reduz significativamente a incerteza, mas raramente responde a todas as perguntas sobre o subsolo sozinho.
Essa limitação decorre do fato de que a mesma resposta magnética registrada na superfície pode ser causada por diferentes configurações geológicas na profundidade — por exemplo, diferentes combinações de forma, tamanho, profundidade ou quantidade de minerais magnéticos. Por isso, os dados magnéticos raramente são interpretados isoladamente. Entre os métodos complementares estão a gravimetria, que mede as mudanças na densidade das rochas; métodos elétricos e eletromagnéticos, que analisam a resistividade e condutividade; e métodos sísmicos, que investigam as propriedades elásticas dos materiais. Além disso, a magnetometria é integrada com a espectrometria gama, uma técnica que mede a radiação gama emitida naturalmente por elementos como potássio, urânio e tório, para diferenciar unidades geológicas com respostas magnéticas semelhantes.
Aplicação Prática da Magnetometria
Além de ajudar a entender a história da Terra, a magnetometria é uma ferramenta crucial na prospecção de minerais e no planejamento de novas campanhas de exploração. Muitos depósitos minerais estão associados a estruturas geológicas que causam contrastes nas propriedades magnéticas das rochas. Falhas, zonas de cisalhamento e sistemas de fraturas, por exemplo, podem indicar condições favoráveis para a concentração de ouro, cobre, níquel, minério de ferro e outros recursos economicamente importantes.
Nos últimos anos, drones foram incluídos nesses estudos. Equipados com magnetômetros, veículos aéreos não tripulados (VANTs) podem voar mais perto do solo e obter dados de alta resolução em áreas específicas. Eles são geralmente usados após levantamentos aeromagnéticos regionais para detalhar o subsolo e direcionar etapas subsequentes de prospecção geológica, como perfurações.
A aplicação dessa técnica também desempenhou um papel importante na história da ciência. Na década de 1950 e 1960, a identificação de faixas de anomalias magnéticas no fundo dos oceanos forneceu evidências da expansão do assoalho oceânico, o que ajudou a consolidar a Teoria da Tectônica de Placas.
Geofísica no Brasil
Apesar do recente foco no caso australiano, os levantamentos aeromagnéticos fazem parte da atividade rotineira da geofísica brasileira há décadas. Praticamente todo o território do país exibe anomalias magnéticas relacionadas às rochas da crosta. Os primeiros levantamentos aéreos no Brasil datam do início da década de 1950 em São João del Rei (Minas Gerais). Este projeto, encomendado pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), utilizou sensores magnéticos e radiométricos a bordo de aviões para auxiliar na prospecção de minerais radioativos, como o urânio.

