Nyanisho Burgess, fundador da OneThread Africa, questiona as noções convencionais de sustentabilidade na moda, destacando as antigas práticas da África que harmonizam cultura, comunidade e meio ambiente.
Por muito tempo, a indústria da moda considerou a sustentabilidade como um conjunto de requisitos: uso de tecidos orgânicos, redução de emissões de carbono, reciclagem de materiais e diminuição de resíduos. No entanto, segundo Nyanisho Burgess, essa definição é muito restrita, pois ignora o que a África praticava ao longo de gerações.
Em uma entrevista à IOL, Burgess afirma que a sustentabilidade no continente nunca se resumiu apenas a salvar o planeta; antes, sempre esteve em equilibrar os interesses das pessoas, da cultura e da natureza para que as comunidades pudessem prosperar. Ela explica: «A definição de sustentabilidade é simplesmente a capacidade de algo se manter em um determinado nível. Não tem nada a ver com o meio ambiente. Pegamos essa definição enorme e a tornamos minúscula».
Este ponto de vista desafia o discurso principal sobre moda sustentável, que muitas vezes se concentra em materiais ecologicamente corretos e métodos de produção, negligenciando questões de acessibilidade, preservação cultural e realidades econômicas.
A sustentabilidade começa pelas pessoas
Uma das observações mais notáveis de Burgess é que conversas ambientais às vezes podem vir da posição de uma pessoa privilegiada. Ela apresenta um exemplo simples, mas forte: «As pessoas dirão que não se deve usar canudos de plástico por causa das tartarugas. Certo. Eu amo tartarugas. Mas para alguém que vive nos subúrbios do Uganda, eles viram uma tartaruga? Por que eu deveria me preocupar com uma tartaruga quando meu filho está com fome?»
Seu objetivo não é rejeitar as mudanças climáticas ou a responsabilidade ambiental, mas provar que a sustentabilidade deve, primeiramente, resolver as necessidades urgentes das pessoas. Ela insiste: «Devemos pensar na sustentabilidade sob a perspectiva de como cuidamos de nós mesmos para estarmos melhor preparados para cuidar do mundo ao nosso redor».
Essa filosofia está na base da OneThread Africa, uma plataforma que Burgess criou após seis anos de pesquisa sobre como a sustentabilidade se manifesta em vários setores africanos, incluindo moda, agricultura, hospitais e escolas. Suas descobertas refutaram muitos modelos importados da Europa e América do Norte.
A África pratica a sustentabilidade sempre
Para Burgess, um dos maiores equívocos é que as marcas africanas precisam aprender a ser sustentáveis. Ela acredita que elas já praticam isso constantemente. «Como marca africana, você é inerentemente sustentável. É inevitável», declara ela.
O problema, em sua opinião, é que muitas marcas não reconhecem o valor das práticas cotidianas porque elas sempre fizeram parte da vida diária. Ela lembra de um hábito doméstico comum: «Toda pessoa negra tem uma bolsa cheia de outras bolsas. Para nós, é simplesmente o que você faz. A Woolworths agora está fazendo toda uma campanha sobre isso. Eu gosto do trabalho deles. No entanto, isso é rotulado como sustentabilidade. Para nós, é simplesmente lógico. Por que eu jogaria fora sacolas da loja que eu já tenho?»
Este exemplo ilustra perfeitamente seu argumento: muitas práticas que hoje são celebradas globalmente como inovações sustentáveis existem há muito tempo nos lares e comunidades africanas.
Mais do que dashikis
À medida que o interesse internacional pelos designers africanos cresce, Burgess espera que o mundo comece a ver a indústria da moda do continente de forma mais ampla do que através de estereótipos. «Gosto que as pessoas estejam começando a entender que a moda africana é mais do que dashikis», diz ela.
Ela aponta para uma nova geração de designers que criam coleções de nível mundial, permanecendo profundamente enraizados na maestria e narrativa locais. «Temos marcas que criam moda em uma escala que a moda ocidental nunca conseguiria alcançar, algo que a moda ocidental só sonha».
Entre as marcas que a inspiram estão a LilaBare Design House do Quênia, Kilèntàr da Nigéria e Vintu da África do Sul, todas demonstrando a amplitude e sofisticação do design africano moderno.
Nyanisho Burgess, fundadora da OneThread Africa, questiona as visões tradicionais sobre sustentabilidade na moda, enfatizando as antigas práticas da África que equilibram cultura, comunidade e natureza.
Outro tipo de luxo
Enquanto a moda de luxo usa cada vez mais a sustentabilidade como um truque de marketing, Burgess acredita que os designers africanos oferecem algo mais autêntico. «Como a sustentabilidade está tão entrelaçada com quem você é, você simplesmente cria arte», afirma ela.
Em vez de desenvolver designs em torno de tendências de sustentabilidade, muitas marcas africanas integram naturalmente a produção responsável, o patrimônio cultural e o impacto na comunidade, pois esses valores sempre fizeram parte do processo criativo. Para Burgess, esta é uma vantagem competitiva que o continente ainda não percebeu totalmente.
«As marcas africanas são especialistas em moda sustentável», declara ela. «Outras pessoas dirão que são especialistas em sustentabilidade, mas isso porque pesquisaram, não porque fazem. Existem marcas africanas que fazem isso há anos e anos, e nada fará você ser mais especialista do que isso».
À medida que a moda mundial continua a procurar maneiras mais éticas de produzir roupas, Burgess acredita que a indústria não precisa reinventar a sustentabilidade. Ela simplesmente precisa reconhecer que alguns dos ensinamentos mais valiosos foram incorporados à moda africana ao longo do tempo.