Os pesquisadores conseguiram aplicar pela primeira vez a inteligência artificial (IA) no projeto de vírus que não existem na natureza e demonstrar sua capacidade de replicação. Este avanço, descrito em um artigo publicado na revista Science na quinta-feira (dia 6), pode abrir novas possibilidades na medicina e biotecnologia, mas também intensifica as preocupações sobre o uso de IA para criar agentes biológicos perigosos.
Os experimentos foram conduzidos por cientistas do Arc Institute na Califórnia (EUA). Em vez de apenas reproduzir vírus conhecidos, como era feito por décadas, a equipe treinou um modelo de IA para reconhecer padrões no DNA de milhões de organismos e, com base nesse conhecimento, gerar sequências genéticas nunca antes vistas.
Após a síntese dessas sequências em laboratório, os pesquisadores as inseriram em bactérias. Algumas dessas bactérias começaram a produzir vírus nunca antes observados na natureza. Um total de 16 vírus criados por IA mostraram-se viáveis e conseguiram infectar outras bactérias.
Patrick Guy, biólogo sintético da Universidade de Manchester (Reino Unido), que não participou da pesquisa, afirmou em entrevista ao The New York Times que 'este é um marco importante'. Após treinamento adicional focado neste vírus e cerca de 15 mil variantes próximas, o sistema Evo conseguiu criar aproximadamente 700 mil versões potenciais de seu genoma. Os cientistas selecionaram as 285 sequências mais promissoras, sintetizaram o DNA correspondente e realizaram testes laboratoriais.
A maioria das sequências geradas pela IA não resultou na formação de vírus funcionais. No entanto, em algumas placas de cultura, os pesquisadores notaram áreas transparentes entre as bactérias — um sinal clássico de destruição de células hospedeiras pelos vírus. Como resultado dos experimentos, 16 genomas projetados pelo Evo geraram vírus viáveis.
Segundo os pesquisadores, alguns desses vírus alcançaram uma replicação mais rápida do que o Phi X-174 natural. Oliver Crook, químico de proteínas da Universidade de Oxford (Reino Unido), que também não participou do estudo, observou que isso prova que os vírus criados por IA 'não são apenas versões enfraquecidas de algo que já existe'. Ele também enfatizou que essas novas variantes permanecem muito semelhantes aos vírus naturais e seguem princípios biológicos conhecidos.
Os autores acreditam que essa tecnologia pode acelerar o desenvolvimento de ferramentas para biotecnologia e medicina. Vírus modificados já são usados em muitas pesquisas e terapias gênicas, atuando como vetores para entrega de genes em células humanas. Se esta abordagem for bem-sucedida com outros grupos de vírus, os pesquisadores esperam que os modelos de IA possam ajudar a criar vetores mais eficazes para tal tratamento.



