A bacia do Congo é o maior reservatório de carbono tropical do mundo; sua floresta se estende por quase todo o continente africano e ocupa uma área maior que a da Índia. Apesar de sua imensa importância, muito pouco se sabe sobre ela.
Atualmente, um grupo de quase 200 cientistas que compõem a Comissão Científica da Bacia do Congo está fazendo esforços para mudar essa situação. A comissão apresentou seu primeiro relatório em Brazzaville, República do Congo, em maio, e tem como objetivo atrair financiamento para treinar 1000 candidatos a doutorado ao longo da próxima década.
Os especialistas observam que expandir as pesquisas é fundamental para entender e proteger esta vasta área, que determina as condições climáticas de todo o continente, abriga uma quinta parte das espécies vivas do mundo e absorve tanto CO2 quanto a Alemanha emite anualmente. A floresta está ameaçada pelo cultivo por queimadas, bem como pelo desmatamento, mineração e demanda por carvão vegetal usado pelas populações em crescimento para cozinhar.
O embaixador especial da comissão, Lee White, um zoólogo nascido no Reino Unido e ex-ministro do Meio Ambiente da Gabão, declarou: «Precisamos de investimentos para um melhor entendimento da bacia do Congo e para criar uma geração de cientistas da bacia do Congo que defenderão este ecossistema. Estou convencido de que, se perdermos a bacia do Congo, a África se tornará inabitável».
Estes esforços ecoam o trabalho realizado por pesquisadores brasileiros ao longo das últimas três décadas na bacia do Amazonas, aumentando significativamente o conhecimento sobre as florestas tropicais. Pesquisas mostram que cerca de 120 cientistas dos países da bacia do Congo publicam trabalhos relacionados a esta floresta, o que representa uma pequena fração dos milhares de pesquisadores da Amazônia.
White observou: «Isso é bastante desanimador. É por isso que sabemos muito mais sobre a Amazônia do que sobre a bacia do Congo». A comissão recorre a potenciais fontes de financiamento, como o Banco Africano de Desenvolvimento e o Fundo Hassop Platner, estabelecido pelo cofundador do gigante de software alemão SAP SE, para apoiar esta iniciativa, cujo custo, segundo White, será de dezenas de milhões de dólares. Atualmente, o governo do Reino Unido forneceu 9 milhões de libras esterlinas (US$ 12,1 milhões), o suficiente para financiar até 30 mestrados e cerca de 15 doutorados.
As universidades nos países da bacia do Congo frequentemente enfrentam escassez de recursos, e os cientistas locais têm oportunidades de carreira limitadas. Bila-Isia Inogwabini, professora de biodiversidade da Universidade Católica do Congo em Kinshasa, República Democrática do Congo, disse: «Quando as pessoas obtêm doutorados na bacia do Congo, elas passam para ministérios, ocupando cargos administrativos; elas deixam a área científica. Ou permanecem no mundo ocidental, onde lhes são oferecidos melhores empregos. Muitas pessoas com quem trabalhei no Reino Unido me consideram louca por ter voltado».
White e cientistas como Inogwabini acreditam ser necessário estabelecer parcerias entre universidades mais abastadas na Europa e nos EUA e instituições na bacia do Congo, que se estende do Rio Cross na Nigéria até o Vale do Rift na África Oriental. Os cientistas da comissão lecionam em universidades no Camarões e Gabão, bem como nos EUA, Reino Unido e União Europeia.
O apoio do governo brasileiro foi vital para uma iniciativa semelhante na Amazônia, que lançou sua própria comissão científica em 2019, segundo Emma Torres, coordenadora estratégica da Comissão Científica da Amazônia. Ela enfatizou que a continuidade desse apoio através de diferentes ciclos políticos desempenhou um papel fundamental.
A África Central abriga alguns dos países mais pobres do mundo, o que limita o apoio governamental aos cientistas e gera estigmatização, apesar dos avanços significativos na conservação da natureza. White afirmou: «Existe uma opinião negativa de que este é o coração da escuridão na bacia do Congo, e que muito não pode ser alcançado. Eu, obviamente, discordo disso. Se olharmos para os resultados da bacia do Congo em termos de criação de novas áreas protegidas e coisas do gênero, eles provavelmente lideram o mundo em progresso».
Este estigma também afetou as carreiras de cientistas desta região. Lydie-Stella Kutika, geóloga da República do Congo e uma das três copresidentes da comissão científica, compartilhou: «Eu obtive meu doutorado sobre o ecossistema amazônico brasileiro. Então, é bastante engraçado. Eu vi a floresta amazônica antes mesmo de ver o ecossistema da floresta na bacia do Congo».