O autor do artigo, ao final de sua viagem a Goa, visitou a mansão Figueiredo, que é lar de uma família que se identifica como guardiã deste patrimônio de quatro séculos. O autor percorreu uma distância de 550 km para ver este local.
Antes de visitar a casa, o autor soube que a Casa Figueiredo é conhecida em Goa. A casa está localizada em Letolim, Sul de Goa, e domina a paisagem da região.
Pedro, representante da nona geração desta família, explica que para ele a casa sempre foi apenas um local de lazer familiar em Goa, embora agora tenha se tornado um museu graças aos esforços de sua mãe e dele.
Retorno à casa esquecida
Todo o conhecimento de Pedro sobre a casa vem das histórias contadas por sua avó materna, Maria de Lourdes. Ele lembra que sua avó e tia Georgina eram matriarcas da família, cujas narrativas enriqueciam a compreensão da história do local.
Na última década, Pedro tem estudado milhares de artefatos e itens de coleção que adornam os cômodos da Casa Figueiredo, buscando descobrir a origem, o propósito e a história de cada objeto. Ele se mudou para Goa após concluir a universidade em design gráfico em 2017.
Ele conta que, após a morte de seu tio, sua avó manteve a casa sozinha. Sua mãe visitava a casa anualmente desde 2008, e em 2014 ela pediu a ele que considerasse trabalhar com esta casa. Essa viagem foi um ponto de virada, pois eles encontraram uma casa em decadência. Sua mãe, Maria de Fátima Filomena Figueiredo de Albuquerque, lembra-se dela como uma casa 'desconhecida' e 'fantasmagórica', já que o jardim havia se transformado em uma floresta.
A casa, datada de 1590, impressiona pela sua grandeza, e as portas da Casa Figueiredo estão abertas aos visitantes. O modelo de casa de hóspedes foi lançado em dezembro de 2016, e esta casa de hóspedes inclui nove quartos nomeados em homenagem aos ancestrais da família.
Durante o tour, o autor observou papéis de parede pintados à mão e refletiu sobre as histórias que essas paredes poderiam guardar. Maria compartilha habilmente anedotas sobre cada canto da casa com entusiasmo e respeito, revelando o lugar significativo que cada parte da casa ocupa nos corações da família. Estes pisos e paredes testemunharam casamentos, celebrações, tristezas e conversas familiares.
Apesar da decisão de 'restaurar' o antigo esplendor, o casal considerou as mudanças estruturais impróprias, desejando preservar as tradições históricas da casa. Maria era guiada pela nostalgia, lembrando-se das histórias de sua mãe e dos momentos compartilhados com primos e tias. Ela enfatiza que nunca se arrependeu de ter se mudado de Portugal para Goa, focando nos momentos felizes. Eles não buscaram tornar a casa moderna, mas apenas preservá-la como foi construída no século XVI. Para eles, isso era uma questão de honra, devoção e respeito aos antepassados.
Pedro recorda os primeiros anos de restauração, quando ele mesmo limpava as paredes com uma escova de metal e plantava grama. No entanto, seus esforços iam além da simples restauração, pois ele queria estudar os artefatos. Sua principal fonte de conhecimento era sua avó, que contava centenas de histórias sobre os objetos na casa. Fontes adicionais incluíam a internet, historiadores e visitantes do museu. Nos primeiros dois anos, ele conduzia todos os tours sozinho, o que o forçava a aprender constantemente.
Pedro agradece às mulheres da família por terem permitido que a casa com um patrimônio tão rico resistisse aos testes do tempo.
Conhecendo as matriarcas da Casa Figueiredo
Pedro conta uma anedota sobre como sua tia recusou a venda da casa a um ex-primeiro-ministro, Indira Gandhi, apesar do interesse de seu pai, Jawaharlal Nehru. Este caso demonstra a resiliência das mulheres na família. Há também a história de como sua avó insistia em jogar cartas com homens, o que contrariava a sociedade patriarcal.
Pedro explica que, quando seu avô servia como engenheiro civil em Moçambique, havia salas separadas para homens e mulheres. Sua avó conseguiu permissão para entrar na sala masculina para jogar cartas e ficou famosa por isso.
Pedro destaca que manter a propriedade e a coleção em uma sociedade tradicionalmente patriarcal era uma tarefa difícil, mas as mulheres de sua família garantiram a preservação da casa e de seus tesouros. Sua tia tornou-se uma das primeiras juízas indianas a trabalhar no Tribunal Superior, e sua avó serviu como membro do parlamento. Juntas, elas preservaram o legado para as gerações futuras.
O autor observa uma resiliência semelhante na mãe de Pedro, que, após uma bem-sucedida carreira corporativa de 46 anos, agora demonstra o mesmo domínio no papel de guardiã da casa da família.
Criado em meio à história
Mesmo sendo sua própria casa, a mansão continua a inspirar admiração em Pedro. Quando lhe pedem para escolher seu canto favorito, ele pensa por muito tempo e escolhe a varanda — uma varanda coberta tradicional em casas indo-portuguesas de Goa. Ele lembra que gostava de passar lá os dias quentes de verão quando criança.
Outro lugar que evoca memórias especiais é a sala de jantar, onde ocorreram inúmeros jantares familiares. Desde cedo, ele foi ensinado etiqueta à mesa, algo que mais tarde entendeu como parte dos valores familiares. Hoje, a mesa na Casa Figueiredo está sempre cheia de iguarias que refletem as estações, e mãe e filho esperam que ela esteja sempre repleta de família e alegria.
Ao encerrar o tour na sala de estar, o autor para novamente nos portões da Casa Figueiredo, sorrindo, ciente de que essa conversa foi realmente o resultado de esforços de muitos anos.

