Quando os espectadores se conectam à transmissão ou entram na arena lotada para assistir à final de um campeonato de esports, a atenção está focada nos jogadores profissionais e nos momentos geniais. No entanto, antes mesmo do primeiro jogo aparecer na tela, um processo real já foi iniciado, que dura meses.
O mercado de esportes eletrônicos deixou de ser um nicho restrito de entusiastas e se transformou em uma indústria global que gera bilhões de dólares. Mas quem são as pessoas que tiram o campeonato de esports da concepção para a realidade?
A realização de um grande torneio exige uma cadeia de produção equivalente, e às vezes superior, ao entretenimento tradicional e ao esporte em arena. Diferente do futebol, onde a transmissão se limita a acompanhar a bola, na esportes eletrônicos a produção deve integrar o sinal do jogo em tempo real, dados de API, múltiplos pontos de vista (Observers), efeitos visuais e a narrativa dos comentaristas.
Para que o mercado funcione, várias áreas devem operar em perfeita harmonia nos bastidores:
Para entender como essa máquina funciona na prática e quais dificuldades reais surgem na organização de um evento tão grande no Brasil, foi realizada uma conversa com Thiago «Kaiser» Bueno, fundador e CSO da EngageXP, parceira na conversão de jogos na América Latina. Com mais de 20 anos de experiência no mercado de jogos, ele acumulou conhecimento em estratégia, produtos, comunidades, esports e modelos de monetização. Criador do método Engage-to-Convert, sua carreira inclui mais de 200 projetos desenvolvidos no setor e mais de 50 milhões de reais brutos de receita brasileira.
Thiago «Kaiser» Bueno explicou que o campeonato começa com a definição do objetivo de negócio. Antes de elaborar o calendário, é crucial entender para quem o show é realizado, qual plataforma, dispositivo e horário de exibição são utilizados. Isso acontece muito antes da formação do formato competitivo ou da escolha das pessoas diante das câmeras. Em seguida, vem a fase de orçamento: quanto custa e como os custos são cobertos, seja por direitos de distribuição, inventário publicitário, patrocínio ou taxas de inscrição. A planilha orçamentária é um passo fundamental. As marcas exigem relatórios detalhados de métricas, enquanto os editores têm regras estritas para torneios oficiais e comunitários. A produção transforma essas condições em um plano de execução, onde todos sabem quem toma as decisões, quem aprova e qual prova confirma cada entrega.
Thiago «Kaiser» Bueno observou que o maior problema invisível é o atraso na tomada de decisões. Durante a transmissão ao vivo, a equipe coordena o jogo, o sinal, a observação da partida, o áudio, o gráfico, a pontuação, a comunicação, as ativações de patrocinadores, os direitos e os dados. Um erro isolado geralmente pode ser corrigido; o risco aumenta quando ninguém sabe quem pode pausar, substituir a fonte, ajustar o cronograma ou ativar um plano de contingência. Por isso, ensaios, reservas e estrutura de equipe são tão importantes quanto o equipamento. Os espectadores devem sentir continuidade enquanto um problema é resolvido nos bastidores.
Thiago «Kaiser» Bueno afirmou que o Brasil já demonstra um nível de produção comparável aos melhores do mundo, em termos de talento técnico, criatividade e compreensão da comunidade. No entanto, a maturidade ainda oscila em termos de reprodutibilidade: calendários previsíveis, contratos, integração de dados, direitos, medição, monetização e continuidade entre temporadas. Operações internacionais mais maduras transformam o campeonato em um produto regular. No Brasil, ainda há projetos excelentes, sustentados por esforços notáveis de especialistas específicos. O próximo salto ocorrerá através da documentação de processos, retenção de conhecimento e, acima de tudo, tratando isso como um verdadeiro negócio.
Em relação às habilidades técnicas, ele destacou quatro pilares: Gestão de orçamento, equipe e cronograma; Storytelling e criação de conteúdo; Medição e análise de dados; e Marketing/Comercial. O gerente não precisa gerenciar cada dispositivo, mas deve entender as dependências e fazer as perguntas certas. Quanto às habilidades comportamentais, são comunicação sob pressão, priorização, negociação e calma para tomar decisões com informações incompletas. A habilidade mais subestimada é a tradução: a capacidade de explicar o mesmo problema na linguagem da marca, editora, equipe técnica e jogador. Essa tradução reduz atritos e acelera a tomada de decisões.
Graças aos recentes avanços tecnológicos, a tendência para os próximos anos é a redução dos custos de produção, o que permitirá realizar torneios de alta qualidade sem depender exclusivamente do financiamento direto dos editores.
Thiago «Kaiser» Bueno acrescentou que, combinado com um bom canal de transmissão, uma comunidade engajada e planos de negócios competentes, os esports têm todas as chances de evoluir e alcançar aquilo que nunca puderam alcançar totalmente: a sustentabilidade.
Os esports provam que não são apenas «jogos de computador», mas um dos pilares mais inovadores da indústria do entretenimento moderna. E no centro dessa revolução estão os especialistas experientes que trabalham nos bastidores para garantir que o espetáculo nunca pare.
Conselho de Kaiser para quem deseja entrar neste campo: «O segredo de qualquer canal de comunicação, e para aqueles que querem trabalhar com jogos, é aprender a ser mais interessante do que interessado. Aprenda a conectar criatividade, operação e negócios. É essa combinação que transforma o público em valor de longo prazo».