O Banco Central do Camboja enfrentou uma ameaça que não está relacionada às taxas de juros ou reservas cambiais, mas é inteiramente causada pela inteligência artificial generativa. Nos últimos meses, o Banco Nacional do Camboja (NBC) foi repetidamente forçado a negar publicamente a circulação de novas séries de riel, pois surgiram nas redes sociais imagens e vídeos gerados por IA mostrando notas falsas.
O problema da confiança no riel não surgiu com a chegada da IA. Mais de 90% dos depósitos nos bancos comerciais do Camboja, bem como cerca de 85-90% das transações em dinheiro, já são realizados em dólares americanos, e não em riel. Essa dolarização começou em 1978, após a invasão do Vietnã, que abalou a economia interna. Quando o riel foi reintroduzido dois anos depois, o governo não tinha fundos para substituir as notas desgastadas, então os dólares distribuídos através da ajuda humanitária da Organização das Nações Unidas tornaram-se silenciosamente a moeda na qual as pessoas confiavam mais.
Décadas de inflação, incluindo um aumento acentuado de 35,57% em maio de 2008, consolidaram o domínio do dólar, transformando o riel mais em um símbolo de identidade nacional do que em um meio de troca prático. É esse peso simbólico que torna os ataques com notas falsas criadas por IA particularmente dolorosos. As notas de riel contêm retratos do Rei e da Rainha Mãe, bem como imagens que, segundo o NBC, refletem a unidade nacional e o patrimônio cultural. Portanto, quando começaram a circular imagens manipuladas mostrando o Senador Hun Sen e o Primeiro-Ministro Hun Manet em vez dos monarcas na nota de 10.000 riéis, isso afetou não apenas a questão da moeda, mas também questões de legitimidade política e protocolo real simultaneamente.
Análise dos mecanismos de desinformação
O NBC apontou duas contas no Facebook, gerenciadas por indivíduos das redes sociais chamados Kongmer Kondal e Kim Dabin, como fontes das imagens falsificadas de 10.000 riéis. Ambas as contas foram entregues às autoridades do Camboja para investigação. Dabin, que trabalha na Coreia do Sul, divulgou um vídeo negando sua participação, explicando que viu uma nota falsa em uma página que imitava a conta oficial do NBC, incluindo um selo azul de verificação. Este fato é importante: as falsificações não eram apenas imagens geradas por IA; elas estavam envoltas em uma imitação de autoridade institucional, o que dificultava que usuários comuns e até mesmo os acusados as distinguissem de mensagens autênticas do banco central.
No início de agosto, o problema ultrapassou as imagens editadas e se transformou em vídeos de desinformação completos. O NBC rejeitou vídeos que afirmavam que a nova série de riel havia sido colocada em circulação, pois esses vídeos combinavam alegações falsas com designs gerados por IA, e declarou que agora colabora com as autoridades em questões de processamento criminal, pedindo ao público que não divulgue esse conteúdo.
A resposta legal do Camboja baseia-se em legislação escrita muito antes do advento da IA generativa. O Artigo 53 da Lei sobre a organização e atividades do NBC considera as notas como propriedade que os proprietários devem preservar, o que significa que até mesmo a distorção ou alteração digital de suas imagens é considerada uma violação. O Artigo 65 vai além: a falsificação de moeda, seja em papel ou moedas, acarreta pena de 20 a 20 anos de prisão. A questão de saber se essa estrutura, desenvolvida para falsificação física, se aplica a imagens geradas por IA e disseminadas no Facebook e TikTok, permanece uma questão jurídica aberta, mas as autoridades do Camboja parecem ter a intenção de verificar sua aplicabilidade.
Perspectivas de um problema mais amplo
A crise do riel no Camboja é um pequeno exemplo do problema que bancos centrais e governos em todo o mundo enfrentarão, pois a IA generativa permite criar trivialmente moedas falsas convincentes, documentos oficiais e comunicações institucionais. A vulnerabilidade principal não residia apenas na complexidade da criação de imagens; residia na combinação dessas imagens com uma marca falsa da instituição, incluindo um selo de verificação falso, o que tornava o engano plausível. Para uma moeda que já compete com o dólar pela confiança pública e para uma instituição que busca demonstrar soberania econômica, tal combinação representa uma ameaça real à reputação, que talvez não possa ser contida apenas com avisos legais.



