O mosquito da malária, especificamente o Anopheles stephensi, demonstrou capacidade de resistir a inseticidas, um fenômeno que persiste mesmo após décadas do uso de substâncias químicas como a dieldrina.
Nos anos 1950, a dieldrina foi aplicada nas paredes internas das residências para controlar a malária. Contudo, rapidamente ficou evidente que essa estratégia falhou, pois os Anopheles stephensi desenvolveram uma alteração genética que lhes conferiu imunidade ao veneno. Este é um exemplo clássico de seleção natural, onde os mosquitos mutantes tinham maior probabilidade de sobreviver, se reproduzir e transmitir seus genes resistentes, elevando a toxicidade do veneno a ser uma preocupação científica.
Apesar da resistência persistir, mesmo tornando os mosquitos mais lentos, os cientistas ficaram intrigados com a manutenção dessas mutações. Um novo estudo propõe que o processo de acasalamento possa ser o fator responsável por isso. A hipótese baseia-se no fato de que os machos localizam suas parceiras pelo som fraco gerado pelo bater das asas das fêmeas, e a mutação parece aumentar a sensibilidade dos mosquitos Anopheles a esse som, facilitando a localização em ambientes urbanos ruidosos.
Pesquisadores replicaram sons que mimetizavam as frequências de voo das fêmeas (entre 300 e 550 hertz) em laboratório. Machos portadores da mutação demonstraram uma chance significativamente maior de voar em direção ao alto-falante e pousar nele.
Para ir além da simples detecção, a pesquisa simulou o ambiente real de acasalamento. Vinte e cinco machos foram colocados em gaiolas com vinte e cinco fêmeas por 48 horas, expostos a dois cenários: uma incubadora com zumbido constante de 70 decibéis ou um ambiente com ruído branco de 93 decibéis, simulando uma cidade grande. Os machos resistentes à dieldrina apresentaram resultados semelhantes em ambos os ambientes, alcançando cerca de 40% de sucesso no acasalamento. Em contraste, os machos sem a mutação tiveram um desempenho pior na incubadora mais barulhenta, caindo para 33%.
Em seguida, os cientistas testaram a teoria em campo, em sete localidades urbanas de Bangui, capital da República Centro-Africana, e em quatro vilarejos adjacentes. Eles observaram que fêmeas sem a mutação tinham menor probabilidade de acasalar em áreas urbanas quando comparadas às áreas rurais.
Lauren Cator, bióloga do Imperial College London, que não participou do estudo, ressalta que os dados são complexos de interpretar, pois os habitats urbanos possuem diversas diferenças em relação aos rurais, além do ruído. Ela aponta que a exposição a pesticidas, poluição e variações de temperatura e umidade também podem contribuir para a alta prevalência de mosquitos com mutações nas cidades. Cator também menciona que o estudo não avaliou diretamente se a mutação afeta a audição ou a escolha de parceiros das fêmeas.
Martin Göpfert, neurobiólogo da Universidade Georg August de Göttingen, apresenta um contra-argumento: se os mosquitos com mutações realmente ouvissem melhor, seria esperado que evitasssem ambientes barulhentos em vez de se acasalar neles, questionando a lógica de buscar parceiros em locais ruidosos.