A tireoide, uma glândula de aproximadamente 20 gramas com formato de borboleta, localiza-se discretamente na frente do pescoço. Ela exerce grande influência sobre a saúde humana, pois seus hormônios, T3 e T4, regulam funções vitais como metabolismo, temperatura corporal, frequência cardíaca, fertilidade e o funcionamento cerebral e intestinal, abrangendo memória, atenção, raciocínio e equilíbrio emocional.
Quando a glândula desregula a produção hormonal, seja produzindo em excesso ou em falta, os sinais podem surgir em locais inesperados, e frequentemente não são associados à tireoide como causa principal. No caso do hipotireoidismo, a glândula opera lentamente, gerando sintomas progressivos como cansaço contínuo, dificuldade de foco e raciocínio, esquecimento, sonolência excessiva e depressão. Outros sinais incluem pele seca, queda de cabelo, unhas quebradiças, constipação e sensação constante de frio.
Helton Ramos, tireoidologista e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), aponta que, devido à natureza inespecífica desses sintomas, os pacientes tendem a ignorá-los, o que pode atrasar o diagnóstico. Contudo, nem sempre o hipotireoidismo apresenta sinais óbvios; o hipotireoidismo subclínico pode ser detectado apenas por alterações hormonais nos exames, enquanto o indivíduo se sente bem. Ramos destaca que essa condição pode estar ligada ao aumento do colesterol, maior risco cardiovascular, piora da função cardíaca e maior chance de evoluir para hipotireoidismo manifesto, sublinhando a necessidade de monitoramento médico mesmo sem sintomas.
Sobre o ganho de peso, especialistas informam que ele costuma ser modesto, na faixa de 2 a 5 kg, e não é a causa primária da obesidade. Já no hipertireoidismo, a superprodução hormonal acelera processos corporais. Embora muitas pessoas associem o problema à perda de peso, os especialistas alertam que isso é apenas um sintoma possível. Sintomas mais comuns incluem irritabilidade, insônia, tremores leves nas mãos, palpitações esporádicas e agitação constante.
Danielle Macellaro, endocrinologista do Einstein Hospital Israelita, descreve que em idosos, o quadro hipertireoidiano pode ser mais sutil, manifestando-se como fadiga, fraqueza muscular ou alterações cardíacas. Em certos casos, os olhos servem de alerta. A Doença de Graves, principal causa autoimune de hipertireoidismo, pode causar vermelhidão, lacrimejamento excessivo, inchaço palpebral, sensibilidade à luz e, em casos graves, exoftalmia. Ramos enfatiza que o reconhecimento precoce desses sinais oculares é crucial, pois a doença ocular tireoidiana pode afetar seriamente a qualidade de vida e, raramente, ameaçar a visão se não for tratada corretamente.
Embora os distúrbios tireoidianos sejam mais prevalentes em mulheres, afetando ciclos menstruais, desejo sexual e gestação, os homens também sofrem consequências. Tanto o hipotireoidismo quanto o hipertireoidismo podem diminuir a libido, prejudicar a qualidade do esperma, dificultar a ereção e comprometer a fertilidade. Uma revisão científica de 2024 no Journal of Diabetes & Metabolic Disorders confirmou a ligação entre doenças da tireoide e maior incidência de disfunções sexuais masculinas, embora essas questões melhorem com o tratamento adequado, segundo a médica do Einstein.
E os nódulos?
Nódulos ou alterações hormonais na tireoide frequentemente não causam sintomas visíveis. Quando o volume da glândula aumenta, ocorre o bócio, que pode gerar uma protuberância na frente do pescoço, notável durante a deglutição. Nódulos endurecidos, de crescimento rápido, devem chamar atenção se vierem acompanhados de rouquidão persistente, dificuldade para engolir ou aumento de gânglios cervicais.
A maioria dessas alterações não está ligada ao câncer, conforme Macellaro, visto que entre 90% e 95% dos nódulos tireoidianos são benignos. Além disso, ela afirma que, mesmo quando o câncer é diagnosticado, os tumores tireoidianos mais comuns possuem altas taxas de cura com tratamento apropriado. Apesar disso, a incidência de câncer de tireoide tem crescido drasticamente em vários países. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima cerca de 16 mil novos casos anuais, sendo um dos cânceres mais comuns em mulheres. Esse aumento deve-se tanto ao maior acesso a exames de imagem quanto à detecção de tumores pequenos, mas estudos recentes apontam fatores ambientais, metabólicos e mudanças no estilo de vida como contribuintes.
Chá e suplemento não tratam a tireoide
Nem todas as doenças tireoidianas podem ser prevenidas, especialmente aquelas de origem genética ou autoimune. No entanto, é possível promover a saúde da glândula através de dieta balanceada, evitando suplementação sem orientação médica e mantendo acompanhamento se houver histórico familiar. É importante notar que não há provas de que chás, suplementos ou fórmulas vendidos online curem doenças da tireoide. Nutrientes como selênio e iodo são cruciais, mas o excesso pode ser tão nocivo quanto a carência; por exemplo, uma ou duas castanhas-do-pará por dia fornecem selênio suficiente.
A identificação precoce de qualquer mudança na região permanece essencial. O autoexame não substitui a consulta médica, mas pode auxiliar na observação de alterações visíveis. Para realizá-lo, o indivíduo deve ficar em frente a um espelho, inclinar levemente o queixo para cima e observar a área sob o pomo de Adão e acima das clavículas. Após tomar um gole de água e engolir, deve palpar suavemente a região, verificando se há abaulamentos, assimetrias ou movimentos incomuns. Qualquer alteração persistente exige avaliação de um endocrinologista.
O diagnóstico de disfunções tireoidianas envolve exames de sangue para medir os níveis de TSH, T3 e T4 livre, além de anticorpos tireoidianos para rastrear doenças autoimunes como Tireoidite de Hashimoto ou Doença de Graves. O ultrassom investiga o tamanho e a presença de nódulos. O tratamento para hipotireoidismo e hipertireoidismo é majoritariamente medicamentoso, visando normalizar os níveis hormonais. Contudo, pacientes com hipertireoidismo podem precisar de terapia com iodo radioativo ou cirurgia. Danielle Macellaro conclui que quanto mais cedo a alteração for identificada, maiores serão as chances de prevenir complicações e manter a qualidade de vida do paciente.