Vice-presidente da Associação Amizade Portugal-Cuba, João Terreiro, informou que um grupo de portugueses transportou mais de 150 quilos de medicamentos provenientes de Portugal para o Hospital Calixto Garcia.
Falando com a Lusa a partir de Havana, João Terreiro detalhou que ele e outros seis cidadãos portugueses conseguiram realizar este apoio médico enquanto existiam mais de sete mil contentores de ajuda humanitária aguardando serem descarregados em Cuba.
Segundo Terreiro, o bloqueio imposto pelos Estados Unidos impede que os armadores realizem a descarga desses contentores nos portos cubanos. Ele ressaltou que, apesar de este bloqueio marítimo não ser militarizado como no Estreito de Ormuz, ele faz parte de uma «guerra» que ocorre há muitos anos.
O vice-presidente da associação mencionou que o bloqueio contra Cuba persiste há mais de 66 anos, o que impede qualquer pessoa ligada aos Estados Unidos de negociar com a ilha.
Ao ser questionado sobre o receio de um conflito armado por parte dos cubanos, João Terreiro elogiou a resiliência dos habitantes, afirmando que para eles a guerra já está em andamento. Ele esclareceu que a guerra não se restringe apenas a armas e mísseis, mas também se manifesta de outras formas.
Terreiro, que é médico, destacou que a área da Saúde é uma das mais impactadas. Ele apontou que, desde a imposição do bloqueio de petróleo por Washington, a taxa de mortalidade infantil em Cuba dobrou em comparação com o ano anterior, conforme dados da ONU.
Ele fez uma comparação com a situação em Gaza, argumentando que, enquanto lá são lançadas bombas contra crianças, em Cuba elas são sufocadas de outra maneira.
O bloqueio norte-americano à ilha teve início após a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro e resultou na interrupção total das entregas de petróleo de Caracas para Havana. Embora Cuba consiga extrair petróleo internamente, essa produção cobre apenas 40% das necessidades da ilha, e as próprias centrais elétricas não recebem peças para manutenção devido às sanções dos EUA.
João Terreiro descreveu que esta carência constante de energia submete a população a uma «guerra psicológica». Ele exemplificou que as pessoas não conseguem manter nem mesmo um frigorífico ligado, fazendo com que os alimentos estraguem facilmente, e o calor impede que se refresquem ou durmam tranquilamente.
Além do bloqueio energético dos Estados Unidos, somam-se as sanções económicas pré-existentes e sanções recentes impostas pela administração do Presidente norte-americano, Donald Trump, que afetam empresas do setor energético e dificultam a aquisição de combustível por Cuba, inclusive para fins humanitários.
Especialistas em Direitos Humanos das Nações Unidas condenaram essas sanções e apelaram à comunidade internacional e à sociedade civil para que «ajam rapidamente para impedir que Cuba se torne uma 'Gaza silenciosa'».
Para João Terreiro, o propósito dos Estados Unidos ficou evidente sob a gestão Trump: destruir «a capital do comunismo mundial». Ele afirmou que o objetivo é acabar com o sonho socialista, que ele considera um «perigo para o imperialismo» norte-americano.