Um novo estudo revelou uma correlação entre o acesso antecipado às redes sociais e um rendimento escolar inferior ao longo dos anos em estudantes italianos.
Em 2022, foi constatado que 92% das crianças e adolescentes com idades entre 9 e 17 anos utilizavam a internet, sendo que 86% desses indivíduos possuíam pelo menos um perfil em redes sociais. Esses dados provêm de um levantamento realizado pela TIC Kids Online de 2022, que está vinculada ao Comitê Gestor da Internet no Brasil. O Brasil figura entre os países com maior utilização de telas e redes sociais globalmente, visto que os brasileiros entre 16 e 64 anos passam, em média, nove horas diárias conectados à internet.
Neste contexto, a comunidade científica tem investigado os efeitos do excesso de tempo de tela na saúde, especialmente em crianças. Problemas já conhecidos incluem dificuldades de concentração, alterações no sono, problemas visuais e questões de saúde mental, além de sedentarismo e outros fatores.
Contudo, ainda há pouca pesquisa focada no impacto da idade em que crianças e adolescentes criam suas primeiras contas em redes sociais, uma prática que frequentemente ocorre antes da idade mínima estabelecida pelas próprias plataformas. Plataformas como Instagram e TikTok, populares entre pré-adolescentes e crianças, possuem classificação indicativa de 16 anos.
Uma pesquisa recente conduzida com jovens italianos demonstrou que os alunos que iniciaram o uso de redes sociais mais cedo apresentaram um desempenho acadêmico abaixo daqueles que optaram por esperar mais alguns anos para começar a utilizá-las.
Os achados foram divulgados em 3 de agosto no periódico científico Nature Human Behaviour. Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores analisaram informações de mais de 5 mil estudantes, com idades variando de 7 a 16 anos. Estes participantes responderam a um questionário sobre o uso de mídias digitais ao longo da vida e realizaram avaliações padronizadas em italiano, inglês e matemática.
Posteriormente, houve uma comparação entre os estudantes que criaram sua primeira conta nas séries 6ª, 7ª e 8ª, e aqueles que só começaram a usar redes sociais a partir da 9ª série. Apenas 16,3% dos envolvidos aguardaram até a 9ª série para criar uma conta.
Ao serem comparados com este grupo de espera, os estudantes que entraram nas redes sociais já na 6ª série exibiram notas mais baixas em italiano e matemática ao longo de sua trajetória escolar. Na 8ª série, a disparidade atingiu 0,22 desvio-padrão em italiano e 0,18 desvio-padrão em matemática. No campo educacional, diferenças acima de 0,2 desvio-padrão são geralmente consideradas significativas e correspondem, aproximadamente, a um atraso de seis meses na aprendizagem. Na 10ª série, a diferença observada em matemática foi ainda mais acentuada.
Os efeitos também foram notados entre os alunos que criaram contas nas séries 7ª e 8ª, embora com uma intensidade ligeiramente menor. Isso indica que quanto mais cedo os estudantes começaram a utilizar as redes sociais, maior foi a ligação com um desempenho acadêmico inferior.
Curiosamente, os pesquisadores não identificaram diferenças estatisticamente relevantes nas notas de inglês, o que pode ser atribuído à vasta quantidade de conteúdo disponível nesse idioma dentro das próprias redes sociais.
Os autores do estudo afirmam que os resultados oferecem provas robustas de que o envolvimento precoce com mídias sociais impacta negativamente a aprendizagem. Eles também encontraram evidências de que uma parcela considerável desse efeito é influenciada pela presença contínua dos smartphones na rotina dos estudantes em momentos cruciais do dia.
Uma das teorias levantadas pelos pesquisadores é que a verificação constante de notificações durante períodos de estudo atua como um fator de distração significativo. No entanto, os autores alertam para as limitações da pesquisa, mencionando que ela não analisou variáveis como o desempenho escolar dos alunos antes da criação das contas, a composição familiar ou o nível de escolaridade dos pais, abrindo caminho para futuras investigações que possam detalhar melhor essa relação.

