No âmbito da celebração do Mês da Mulher na África do Sul, Thelela Ngchentane-Vika e Rev Istoriya Seitisho analisam os significativos avanços na igualdade de gênero após o fim do apartheid, ao mesmo tempo que enfrentam a dura realidade das dificuldades persistentes, incluindo violência de gênero e desigualdade sistêmica.
O Mês da Mulher oferece uma poderosa oportunidade para refletir sobre o progresso alcançado desde o fim do apartheid: a constituição garante a igualdade de gênero, a representação feminina nos negócios e na política aumentou, e o movimento feminista está em desenvolvimento.
No entanto, considerar este processo um sucesso incondicional seria uma simplificação perigosa, pois pode abafar os problemas contínuos enfrentados pelas mulheres no país, que ainda luta contra profundas desigualdades e assassinatos de mulheres (feminicídio).
A batalha pela emancipação total deve continuar para evitar um colapso colossal e uma traição às mulheres da Marcha de 1956, que desafiaram corajosamente Verwoerd e seu aparato. Embora a celebração do Mês da Mulher seja importante, a retórica dos políticos muitas vezes esconde a dura realidade.
Barreiras Estruturais e Patriarcado
Embora as mulheres ocupem cargos no governo, no setor corporativo e em muitas áreas da vida sul-africana, suas oportunidades são limitadas por estruturas patriarcais na sociedade mais ampla. O 'teto de vidro', embora rachado, permanece intacto, manifestando-se na limitada representação nos níveis mais altos de poder e na manutenção da disparidade salarial em vários setores.
O fato de uma mulher não ter se tornado presidente após trinta anos atesta o caráter onipresente do patriarcado, que contradiz a narrativa de empoderamento e frequentemente ignora o caráter interseccional da opressão e misoginia.
Mulheres de todas as classes sociais, especialmente mulheres negras, carregam o fardo de formas únicas e agravadas de marginalização, tornando as declarações gerais de progresso sem sentido. Uma questão mais urgente é a praga da violência de gênero — uma sombra onipresente que assombra a sociedade sul-africana e contrasta fortemente com qualquer celebração de conquistas.
As chocantes altas taxas de estupro, violência doméstica e feminicídio demonstram a fragilidade da proteção legal e a profunda corrupção enraizada nas estruturas sociais. Embora existam leis, como a Lei de Violência Doméstica, sua implementação é extremamente insatisfatória devido à falta de recursos na polícia, processos judiciais ineficazes e uma cultura de impunidade.
Esta violência persistente não é apenas incidentes isolados; é uma falha sistêmica que exige uma revisão radical da vontade política, das normas sociais e das atitudes.
Situação Econômica e Necessidade de Mudança
O empoderamento econômico, frequentemente apresentado como um indicador chave de progresso, apresenta um quadro complexo. Embora algumas mulheres tenham alcançado sucesso econômico, a maioria permanece em empregos instáveis, carregando uma dupla carga devido ao trabalho mal remunerado e ao trabalho doméstico não remunerado. O legado do apartheid continua a se manifestar em acentuada desigualdade econômica por raça e classe, afetando desproporcionalmente o acesso das mulheres a recursos, educação e oportunidades.
No entanto, para celebrar verdadeiramente o Mês da Mulher, é preciso ir além da retórica festiva e confrontar verdades desconfortáveis. É necessário reconhecer a incompletude da causa da igualdade de gênero, examinar criticamente as falhas sistêmicas que perpetuam a desigualdade e exigir mudanças transformadoras. Somente assim será possível afastar-se da narrativa de progresso superficial e trabalhar por um futuro verdadeiramente justo para todas as mulheres sul-africanas.
O caminho da luta para o sucesso exige não apenas mudanças graduais, mas também uma transformação fundamental e radical das estruturas de poder e das normas sociais. A luta continua — Aluta continua.



