A Retrocon 2026, realizada entre os dias 24 e 26 de julho no Expo Center Transamérica, em São Paulo, reuniu figuras importantes na construção de Mortal Kombat. Estiveram presentes os atores Daniel Pesina, Carlos Pesina e Anthony Marquez, responsáveis por interpretar personagens icônicos como Scorpion, Sub-Zero, Raiden e Kung Lao nos dois primeiros títulos da franquia, além do designer Paul Niemeyer, criador do logotipo clássico da série. O portal Olhar Digital realizou entrevistas com esses quatro profissionais.
Esta quarta edição da Retrocon, destacada como a maior feira de retrogaming do Brasil, ocupou os pavilhões do Expo Center Transamérica. O evento ofereceu uma vasta programação que incluiu arcades e fliperamas originais, videogames conectados a televisores de tubo, competições, exposições históricas sobre consoles, um espaço dedicado a criadores de conteúdo, além de lojas, estandes e uma seleção de jogos indie brasileiros, incluindo títulos de retrogaming nacional.
Mortal Kombat, uma franquia com mais de trinta anos de mercado, continua a cativar novas gerações, o que foi evidente durante a Retrocon. Os convidados interagiram com os fãs, participaram de sessões de fotos e se tornaram atrações principais. Carlos Pesina, ator que interpretou Raiden nos dois primeiros jogos, relatou a experiência, dizendo que é algo «maravilhoso, é meio sobrecarregante também, porque eles são muito… a gente nunca tinha estado no Brasil, pelo menos eu e o Tony Anthony Marquez, o Kung Lao original».
Carlos acrescentou que é gratificante ver o impacto que tiveram nas pessoas, afirmando: «Mas é maravilhoso ver todo mundo, ver as vidas que a gente tocou. Isso nos humilha, no bom sentido, e a gente é muito agradecido por ter fãs assim. Às vezes parece que sou uma megaestrela enorme, porque não consigo andar em lugar nenhum sem alguém vir falar comigo. Mas é maravilhoso e emocionante ao mesmo tempo.»
Anthony Marquez, o intérprete original de Kung Lao, descreveu seu sentimento de forma semelhante. Ele mencionou que treina artes marciais desde a infância junto aos outros atores, e que a criação de Mortal Kombat foi uma consequência natural dessa amizade. «Eu amo o Brasil. Os fãs de Mortal Kombat são realmente apaixonados por isso, e sou muito grato que, depois de 35 anos, eles continuem mantendo essa memória viva», declarou ele.
Atualmente, Anthony leciona artes marciais na EKF Martial Arts, sua academia localizada em Chicago, nos Estados Unidos.
Daniel Pesina, que possui o maior número de papéis na franquia, tendo concebido Scorpion e Sub-Zero e atuado como Johnny Cage, Reptile, Smoke e Noob Saibot nos dois primeiros jogos, afirmou que o maior presente de Mortal Kombat não foi a fama, mas sim os encontros. Ele comentou: «O que esse jogo me permitiu foi vir a lugares como aqui, em São Paulo, e conhecer pessoalmente amigos que eu só conhecia pelas redes sociais. Agora eu consigo vir aqui e realmente encontrá-los».
Paul Niemeyer, designer responsável pela arte final do logotipo e da identidade visual do arcade original em 1992, enquanto trabalhava como freelancer para a Bally/Midway, detalhou a origem do símbolo de Mortal Kombat. Ele explicou que, ao contrário do que muitos imaginam, não houve uma intervenção divina, mas sim um prazo extremamente apertado. «Tive três horas e me deram um esboço rápido, e eu transformei aquilo. Depois passei para a caligrafia à mão. E como eu só tinha três semanas pra fazer tudo, muita coisa foi tipo Yoda: não pensa, só faz. E eu realmente acho que esse é o segredo do sucesso do jogo inteiro.»
Paul também descreveu a confiança da produtora ao aprovar a arte: «Quando terminei, levei o material pra eles, e simplesmente mandaram direto pra impressora. Nem tinham visto o A que eu ia entregar. Confiavam que ia ficar bom. Foi como atravessar décadas.»
No entanto, a narrativa ganhou um tom mais difícil. Paul revelou que, inicialmente, a Midway não acreditava no potencial do jogo e contratou-o como freelancer apenas para resolver a questão. «Eles acharam que o jogo ia ser um fracasso. Por isso chamaram um freelancer, só pra tirar aquilo da frente deles. Eu era esse freelancer», disse ele. Contudo, após o lançamento, o jogo foi um sucesso estrondoso, gerando um novo conflito: «Porque o cara que fez a arte mais valiosa que a empresa já teve nunca foi funcionário dela, e tinha direitos sobre aquilo.»
Segundo Paul, em vez de reconhecimento, a empresa o ameaçou com uma ação judicial e o afastou. «Eu desapareci por 27 anos, pelo menos dentro do universo Mortal Kombat. Há uns sete anos fui redescoberto por acidente, e pronto: agora todo mundo sabe quem eu sou.» Ele admitiu que os dois primeiros anos após perceber o valor do que havia criado, sem receber pagamento ou crédito, foram desafiadores. Apesar disso, garantiu que a ausência de crédito não impactou sua carreira em outras áreas fora dos jogos, brincando que «Isso aqui agora é só um round bônus», antes de agradecer ao Brasil pela chance de compartilhar sua história.