Felipe Pathé Duarte, professor da Nova School of Law - Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, afirmou que o episódio da chegada de dezenas de milhares de migrantes a Ceuta, embora a maioria já tenha deixado o enclave espanhol, não deve ser classificado como uma crise humanitária ou migratória.
Segundo Pathé Duarte, o evento constitui fundamentalmente uma modalidade de ameaça híbrida e um exercício de poder por parte de Marrocos, visando impor as suas reivindicações territoriais, algo que ele considera não ser incomum.
O analista comparou essa tática com ações de outros países, citando a Rússia, que frequentemente apoia fluxos de migrantes e refugiados nas fronteiras com a Polónia e os estados bálticos. Ele alertou que tais ocorrências provocam instabilidade política e social, polarização e dilemas morais.
Para Pathé Duarte, todos os acontecimentos são reflexos e metas estratégicas de ações de ameaça híbrida. Ele ressaltou que, num contexto europeu cada vez mais polarizado, este tipo de situação é profundamente perturbador, e Rabat está ciente disso.
O professor relembrou a disputa marroquina referente ao Saara Ocidental e mencionou que a posição oficial da Espanha defende que a questão deve ser resolvida através das Nações Unidas, dada a anexação da antiga colónia espanhola por Marrocos em 1975.
Ele comentou que alguns políticos espanhóis de espectros de esquerda e centro-esquerda demonstraram anterior simpatia pela causa da Frente Polisário. Este movimento de libertação, que busca um referendo definido pelas partes em 1991 na ONU, recebe apoio contínuo da Argélia, pois esta última tem interesse em obter acesso direto ao Oceano Atlântico.
Embora Marrocos tenha apresentado um plano em 2007 para conceder maior autonomia aos sarauís, este permaneceria sob o controle de Rabat, uma proposta que tem ganhado apoio internacional, incluindo dos Estados Unidos e França.
Recentemente, uma visita do presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, à Argélia, pode ter desencadeado uma reação por parte de Marrocos. O país exerce pressão tanto sobre a Espanha quanto sobre a Europa para que suas demandas sejam reconhecidas, visto que o Estatuto do Saara Ocidental, considerado pela ONU como território não-autônomo, gera tensões entre Marrocos e diversos membros da União Europeia.
Ao ser questionado sobre se Pedro Sánchez justificou a entrada em Ceuta aproveitando uma máfia de traficantes ou se há interesses dos EUA e Israel na desestabilização europeia, Pathé Duarte recusou-se a especular, afirmando analisar apenas fatos.
Ele reiterou que não é inédito Marrocos usar a questão migratória para exercer pressão sobre Madri. Como exemplo, citou o caso de Brahim Ghali, presidente da Polisário, que foi internado na Espanha em abril de 2021 para tratamento de emergência devido à COVID-19, o que causou uma séria crise diplomática com Marrocos.
Pathé Duarte concluiu que existe uma disposição marroquina em utilizar os migrantes como moeda de troca para obter o reconhecimento de suas reivindicações geopolíticas, especialmente sobre o Saara Ocidental. Ele enfatizou que o fluxo migratório promovido por Marrocos é, na verdade, uma forma de exercício de poder através de ação híbrida sobre a Espanha.


