Em um reservatório subterrâneo de água altamente salgada, localizado sob a geleira Taylor na Antártica, uma comunidade de microrganismos marinhos permaneceu ativa por milhões de anos. Esta descoberta foi detalhada em um estudo divulgado na revista Nature Geoscience na última segunda-feira (03).
A pesquisa, conduzida pela microbiologista Angela Zoumplis, da Universidade da Califórnia em San Diego, identificou organismos eucarióticos vivendo no local conhecido como Blood Falls. Este ambiente é caracterizado por um fluxo de água avermelhada que desce da geleira até o lago Bonney, situado no Vale Seco de McMurdo.
Os cientistas inferiram que esses seres vivos podem ser descendentes de uma antiga população marinha que ficou isolada quando a água oceânica foi aprisionada sob o avanço do gelo. O ambiente extremo serviu como um santuário, preservando formas de vida que sobreviveram a profundas alterações climáticas na Antártica.
Um arquivo vivo escondido sob o gelo antártico
As Cataratas de Sangue atraem atenção há mais de cem anos devido à sua aparência singular. Em uma expedição realizada em 1911, o geólogo Thomas Griffith Taylor foi quem notou a formação pela primeira vez; inicialmente, sua coloração vermelha foi atribuída à presença de algas.
Pesquisas subsequentes demonstraram que a origem dessa tonalidade é diferente. O fenômeno ocorre porque uma reserva subterrânea de água salgada contém uma grande quantidade de ferro dissolvido. Quando este material entra em contato com o oxigênio ao atingir a superfície, ocorre a oxidação, conferindo ao fluxo seu aspecto avermelhado.
Este reservatório manteve-se protegido sob a geleira Taylor por, no mínimo, 1,5 milhão de anos. A razão de sua persistência reside nas propriedades da própria água, cuja alta concentração de sais diminui o ponto de congelamento, possibilitando a existência de bolsas líquidas mesmo em um continente coberto por gelo.
Embora a área já fosse conhecida por abrigar procariontes, como bactérias e arqueias, a nova investigação focou em outro grupo: os microrganismos eucarióticos. Estes seres apresentam estruturas internas mais elaboradas, incluindo núcleo celular, e incluem organismos como diatomáceas, dinoflagelados, haptofíceas e ciliados, grupos tipicamente associados a ecossistemas marinhos.
Para investigar a presença dessas formas de vida, Zoumplis e sua equipe examinaram 167 amostras coletadas em diversos pontos da região, abrangendo a corrente vermelha das Blood Falls, sedimentos, gelo, lama, áreas do Vale Seco de McMurdo e corpos d'água marinhos adjacentes. A análise de RNA ambiental foi empregada para distinguir entre organismos metabolicamente ativos e aqueles representados apenas por vestígios genéticos no meio ambiente.
Os achados indicaram que os microrganismos não eram meramente transportados pelo vento vindos da costa. A alta concentração desses seres perto das Blood Falls e suas variações genéticas em comparação com parentes marinhos atuais sugeriram um histórico de isolamento prolongado. Os pesquisadores concluíram que essa característica aponta para a possibilidade de a comunidade encontrada ser descendente de organismos que ficaram retidos quando antigas massas de água do mar invadiram a área antes da formação do cenário congelado atual da Antártica.
A equipe também pondera que a sobrevivência desses microrganismos pode estar ligada a distintas táticas. Certas espécies desenvolveram adaptações para suportar a elevada salinidade, enquanto outras podem ter permanecido em estado de dormência por longos períodos até que as condições ambientais permitissem retomar sua atividade.
Para os cientistas, a relevância desta descoberta reside na chance de estudar diretamente organismos vinculados a um ambiente ancestral, em vez de depender exclusivamente de fósseis ou registros geológicos para reconstituir a Antártica passada. Segundo os autores, as Blood Falls constituem um potencial refúgio de linhagens antigas, oferecendo uma via para entender como ecossistemas isolados reagem a grandes modificações ambientais.

