O governo do presidente Donald Trump está desenvolvendo uma nova regulamentação destinada a barrar a entrada de componentes chineses em Estados Unidos que são usados em data centers. Esta proposta, que está sendo conduzida pela Comissão Federal de Comunicações (FCC), visa fortalecer a proteção da infraestrutura essencial para o funcionamento e desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial.
A iniciativa foi divulgada pela Reuters nesta terça-feira (4) e, se progredir, pode ser publicada ainda em 2026. O plano estabelece limitações à importação de transceptores ópticos fabricados por empresas chinesas, que são dispositivos cruciais para a transmissão de dados em alta velocidade através de cabos de fibra óptica dentro dos centros de processamento.
Fontes informadas sobre o tema indicam que o objetivo principal é mitigar riscos ligados à segurança nacional, impedindo que equipamentos considerados sensíveis sejam integrados à cadeia tecnológica americana antes de se tornarem parte fundamental da infraestrutura do país.
Foco na restrição de transceptores ópticos em centros de processamento
A proposta sob análise pela FCC foca especificamente nos transceptores ópticos, componentes vitais para o transporte de informações via cabos de fibra óptica nos data centers. Tais equipamentos são indispensáveis tanto para a comunicação entre servidores quanto para a operação das estruturas usadas no treinamento e execução de modelos de inteligência artificial.
De acordo com as fontes consultadas pela Reuters, o governo avalia que esses dispositivos podem criar pontos de vulnerabilidade, facilitando o roubo de dados, a inserção de softwares maliciosos ou até mesmo a paralisação de serviços considerados estratégicos.
A reportagem ressalta, contudo, que a restrição ainda não recebeu aprovação oficial. Pessoas próximas aos debates confirmaram que a proposta segue em fase de elaboração e pode sofrer alterações ou ser descartada antes de sua publicação.
Divyansh Kaushik, especialista em políticas de inteligência artificial da consultoria Beacon Global Strategies, comentou que a proteção da cadeia de suprimentos deve acompanhar o crescimento dos data centers. Ele declarou à Reuters: “Os transceptores definitivamente representam um risco. À medida que a expansão dos data centers ganha escala, é preciso garantir desde o início que a cadeia de suprimentos seja segura”.
Semelhança com o caso Huawei
A apreensão das autoridades americanas reside em prevenir a recorrência de uma situação similar à vivenciada com equipamentos da Huawei. Membros do governo acreditam que a ampla utilização de produtos dessa companhia na infraestrutura de telecomunicações tornou o processo de substituição lento, oneroso e incompleto após a imposição de sanções pelos Estados Unidos.
Embora a FCC possua histórico de independência, a Reuters recorda que uma decisão da Suprema Corte Americana, proferida em junho, reforçou os poderes do presidente Donald Trump sobre certos órgãos reguladores, validando a demissão de uma integrante democrata da Comissão Federal de Comércio.
Impactos potenciais para as empresas
Caso a medida seja efetivada, uma das corporações mais suscetíveis a ser afetada é a chinesa Zhongji Innolight, identificada como um dos maiores fornecedores globais de transceptores ópticos. Essa empresa foi incluída, em junho, na lista do Departamento de Defesa dos Estados Unidos que reúne organizações acusadas de manter laços com o setor militar chinês.
Dados citados pela Reuters mostram que a Innolight detém cerca de 27% do mercado mundial desses equipamentos para data centers e gera aproximadamente 90% de sua receita fora da China.
Em contraste, fabricantes americanos como Coherent e Lumentum figuram entre as empresas que poderiam se beneficiar da alteração regulatória. No entanto, um relatório da Foundation for American Innovation aponta que essas companhias ainda não possuem capacidade suficiente para substituir totalmente os fornecedores chineses.
A Reuters também sinaliza que empresas de computação em nuvem, como a Amazon Web Services (AWS), podem enfrentar um aumento nos custos caso necessitem mudar para outros fabricantes.
Restrições fazem parte de uma estratégia mais ampla
Esta possível proibição integra um conjunto de ações recentes adotadas pela FCC contra equipamentos chineses considerados sensíveis. A agência já havia anunciado restrições abrangendo drones, roteadores, robôs e inversores, utilizando a denominada “Covered List”, criada pelo Congresso americano para impedir a comercialização futura de itens classificados como ameaça à segurança nacional.
A matéria também menciona que o Departamento de Comércio havia suspendido, após uma trégua comercial firmada no ano anterior, um conjunto de medidas que também visava equipamentos chineses para data centers. Diante deste panorama, a FCC assumiu um papel central na implementação de novas restrições direcionadas ao setor.
Em resposta, a Embaixada da China em Washington declarou que os Estados Unidos deveriam levar em consideração as opiniões da comunidade empresarial de ambos os países e cessar os ataques a empresas chinesas por meio de acusações e sanções. A representação diplomática adicionou que Pequim tomará as providências que julgar necessárias caso seus interesses sofram danos materiais.

