Uma equipe de astrônomos da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill identificou um buraco negro supermassivo que se move na região externa da galáxia, a cerca de 30 mil anos-luz de seu centro. Esta descoberta foi possível graças a um fenômeno raro no qual uma estrela foi destruída pela intensa gravidade deste objeto.
Descoberta através da destruição de uma estrela
O evento, denominado TDE 2025abcr, chamou a atenção por ter ocorrido em uma área onde tais fenômenos geralmente não são observados. O estudo, publicado na terça-feira (27) no The Astrophysical Journal Letters, sugere que o buraco negro pode ter sido deslocado após colisões de galáxias ou como resultado de interações gravitacionais extremas. A identificação foi possível graças à combinação de análise por inteligência artificial e observações feitas por telescópios terrestres, o que abre um novo método para localizar buracos negros invisíveis na maior parte do tempo.
Mecanismo de detecção
Os pesquisadores descobriram o buraco negro rastreando um clarão conhecido como evento de desintegração por maré. Este fenômeno ocorre quando uma estrela se aproxima muito de um buraco negro e se desintegra sob a força gravitacional. O material que é destruído aquece ao girar em torno do objeto, emitindo luz que pode ser detectada a grandes distâncias. Tais eventos são considerados extremamente raros, ocorrendo em média a cada 100 mil anos em uma galáxia.
Singularidade da localização
A singularidade do caso TDE 2025abcr residiu justamente em sua localização. O fenômeno ocorreu perto das bordas da galáxia WISEA J014656.04-152214.7, tornando-se o evento registrado mais distante do centro galáctico desse tipo visível em luz. O buraco negro responsável pelo brilho temporário foi estimado em cerca de um milhão de massas solares. Os cientistas sugerem que este pode ser um resquício de uma fusão galáctica antiga ou um objeto ejetado do núcleo da galáxia após interação com outros buracos negros.
Papel da IA e dos telescópios
Jonathan Carney, coautor do estudo e estudante de pós-graduação na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, enfatizou a importância da descoberta, observando que objetos semelhantes geralmente permanecem ocultos, pois não emitem luz por si mesmos. Ele afirmou que «quase todos os eventos de desintegração por maré que observamos ocorreram no centro da galáxia, exatamente onde esperamos encontrar os maiores buracos negros», e acrescentou que o novo caso demonstrou a presença de um buraco negro massivo em uma área inesperada.
A busca por esse fenômeno também utilizou uma ferramenta de inteligência artificial chamada tdescore, desenvolvida por Robert Stein da Universidade de Maryland e NASA Goddard. Este sistema analisou enormes volumes de dados astronômicos em busca de candidatos promissores, sem depender da suposição tradicional de que tais eventos ocorrem apenas nos centros das galáxias. Akash Anumarlapudi, pesquisador de pós-doutorado na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, explicou que o algoritmo foi adaptado especificamente para procurar eventos distantes dos núcleos galácticos. Ele observou: «Ao remover a suposição de que esses eventos ocorrem apenas no centro da galáxia, conseguimos encontrar um buraco negro que poderia ter passado despercebido».
Confirmação e perspectivas
Após a identificação inicial, os astrônomos confirmaram a natureza do fenômeno usando o telescópio SOAR, localizado no Chile. Este equipamento com espelho de 4,1 metros foi criado com a participação da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill e faz parte de um consórcio internacional. Benjamin K. Kaiser, pesquisador de pós-doutorado, destacou a importância do observatório para monitorar eventos astronômicos de curto prazo, afirmando que «o SOAR permite rastrear rapidamente esses curtos fenômenos astronômicos».
Os autores do estudo acreditam que o resultado obtido demonstra, pela primeira vez com provas convincentes, que telescópios terrestres capazes de observar luz visível podem encontrar buracos negros deslocados das regiões centrais das galáxias. No futuro, espera-se que novas ferramentas, como o Observatório Vera C. Rubin, o telescópio Roman e o Argus Array, aumentem o número de eventos descobertos. Além disso, o estudo contribui para a compreensão da formação, crescimento e movimento de buracos negros, bem como para o estudo da evolução estelar, formação de galáxias e efeitos gravitacionais em condições extremas, inacessíveis para reprodução na Terra.

