Um novo aparato tecnológico, projetado para identificar rostos de macacos e apresentar atividades interativas, promete inaugurar novas abordagens na investigação da capacidade cognitiva desses animais.
Na Reserva Florestal de Taboga, uma área de proteção ambiental que abrange mais de 500 hectares na província de Guanacaste, Costa Rica, reside uma população notavelmente densa de macacos da espécie Cebus imitator, conhecidos por serem macacos-prego altamente inteligentes e possuírem um rosto de tonalidade pálida distinta.
No ano anterior, em julho, um desses primatas encontrou um dispositivo incomum brilhando no meio da vegetação. Este objeto era composto por uma tela de 15 polegadas emoldurada em madeira robusta e um recipiente transparente.
Ao se aproximar, o animal começou a cutucar o aparelho. Basta tocar na tela para que o dispositivo automático reagisse, liberando um pedaço de banana desidratada no recipiente. Rapidamente, o macaco compreendeu o funcionamento: tocar na tela azul resultava em uma recompensa, que podia ser consumida, repetindo o ciclo.
Sem estar ciente, o animal estava participando de testes para uma nova inteligência artificial. Esta máquina, denominada CapuchinAI, foi instalada estrategicamente por seus desenvolvedores, cientistas da Universidade Emory e do Instituto de Tecnologia da Georgia (EUA), visando estudar a cognição de macacos-prego selvagens através de um método inovador.
Do ponto de vista da IA, este equipamento difere de plataformas como o ChatGPT, assemelhando-se mais a um Smart Sampa ou aos leitores faciais usados em portarias de condomínios. Ele emprega um sistema de reconhecimento facial baseado em IA, capaz de distinguir o rosto de cada macaco, permitindo o monitoramento individual de suas respostas em exercícios de aprendizado simples.
A metodologia foi detalhada em um artigo publicado no periódico American Journal of Primatology, fornecendo, pela primeira vez, aos pesquisadores um modelo para analisar sistematicamente as habilidades cognitivas de macacos em seus habitats naturais.
Com o protótipo em mãos, os cientistas planejam testar versões mais avançadas em breve, investigando aspectos da sobrevivência desses animais que seriam inviáveis de serem respondidos em ambientes laboratoriais.
A professora Marcela Benítez, orientadora do estudo, ressaltou em uma nota que «o cérebro dos primatas não evoluiu em um laboratório, ele evoluiu em ambientes complexos e competitivos». Ela acrescentou que, apesar disso, a cognição dos primatas raramente é estudada na natureza devido à dificuldade de obter o controle experimental necessário em cenários imprevisíveis.
Inicialmente, a equipe utilizou uma IA de código aberto, funcional em um notebook simples e voltada para reconhecimento de objetos. Com o auxílio de fotografias dos animais, o sistema foi treinado para reconhecer os rostos de seis macacos-prego, alcançando uma precisão de 97%. Esse treinamento envolvia desenhar caixas ao redor do rosto de cada animal em todas as imagens disponíveis.
Considerando que há centenas desses animais nas florestas da Costa Rica, para otimizar o sistema, decidiu-se simplificar o algoritmo para que ele acionasse a câmera sempre que algum macaco-prego estivesse nas proximidades.
Adicionalmente ao reconhecimento facial, os cientistas desenvolveram um programa para avaliar a inteligência dos animais. Sempre que o animal interagisse com o quadrado azul exibido na tela, uma recompensa era dispensada.
Todos os componentes foram montados em uma carcaça de madeira e transportados para a Reserva Florestal de Taboga. A primeira iteração do dispositivo foi testada entre julho e agosto de 2025. No terceiro dia, o macho alfa Papi foi o primeiro a examinar o objeto de perto. Outros macacos vieram depois, e um macaco grande chamado Trompudo rapidamente decifrou o enigma.
Federico Sánchez Vargas, pesquisador responsável pelo estudo, relatou: «Ele subiu na caixa e começou a estapear a parte de trás. Finalmente, ele deu um tapa na tela touch e uma fatia de banana caiu para fora». Ele comentou ainda: «Foi quase como se você pudesse ver ele percebendo, ‘Ah, então é isso que tem que fazer, tocar na tela!’; Foi incrível observar um indivíduo aprender algo tão rápido».
Durante esse período, um total de 16 macacos-prego investigaram o objeto estranho deixado na mata, e dez deles aprenderam a relação entre a tela sensível ao toque e a recompensa saborosa.
Os pesquisadores já notaram variações entre os macacos. Alguns entenderam o mecanismo facilmente, enquanto outros necessitaram de mais tempo para descobrir a necessidade de tocar na tela. Houve macacos que deram beijos na tela, e outros que buscaram a recompensa de forma brusca, batendo na caixa ou mordiscando o mecanismo dispensador de banana. Além disso, havia os mais reservados, que optaram por observar os colegas antes de se aproximarem do objeto.
Com base nas filmagens dos 16 macacos-prego coletadas nesta fase piloto, os pesquisadores estão aprimorando o sistema. Na próxima fase de experimentos, pretendem aplicar novas tarefas para explorar quatro áreas amplas da cognição: capacidade de aprendizado, flexibilidade cognitiva, memória de curto e longo prazo e controle de impulsos. Por exemplo, no controle de impulsos, os animais só seriam recompensados se tocassem em quadrados verdes e ignorassem os vermelhos.
A vantagem do reconhecimento facial é que cada indivíduo terá sua própria evolução nos testes — o algoritmo funciona como um marcador de progresso, apresentando a tarefa adequada para cada macaco. Ademais, ele restringe a quantidade de alimento que cada um pode receber, prevenindo que indivíduos dominantes monopolizem a interação.
Com o CapuchinAI, os cientistas buscam expandir a pesquisa sobre macacos-prego, utilizando todo o banco de dados acumulado sobre esses animais na região ao longo das últimas décadas.
Benítez concluiu: «Podemos investigar questões fundamentais sobre como o ambiente, as experiências individuais e os comportamentos se conectam com as habilidades cognitivas». Ela prosseguiu: «Por que alguns indivíduos são melhores do que outros em determinadas tarefas? Como diferentes indivíduos se adaptam a diferentes situações? Como diferentes estratégias cognitivas se relacionam com a aptidão?»



